A ESCOLA BRASILEIRA CONTRA A EDUCAÇÃO
- Gustavo Bertoche

- há 2 dias
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Por Gustavo Bertoche*
Sou professor doutor em Filosofia. Trabalhei no ensino básico e superior, tanto na rede pública quanto na particular. Fui proprietário e diretor de uma escola que atuava no ensino fundamental. Lecionei numa universidade particular no Rio de Janeiro; na Federal de Ouro Preto; na Universidade da Beira Interior, em Portugal; na Universidade Estadual do Paraná. Fui professor do ensino básico na rede particular e na rede estadual do Rio de Janeiro e do Paraná. Sou professor da rede federal. E sou pai de duas crianças.
É este o meu lugar de fala: ocupo o lugar da convergência de muitos espaços pedagógicos.
Justamente por conhecer bem — e por dentro — o magistério, a formação de professores e a gestão escolar, sinto-me não somente apto, mas também eticamente impelido, a denunciar a nossa escola.
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Por muitos anos senti que havia algo estranho no nosso modelo pedagógico. A atitude dos professores, o conteúdo alienante, o sofrimento infanto-juvenil — tudo isso me parecia ruim, mas inevitável. Em certo momento, todavia, comecei a estudar a crítica da educação — de Célestin Freinet e de Ivan Illich, de Alexander S. Neill e de Pierre Bourdieu, de Mortimer Adler e de John Taylor Gatto, a crítica tanto de radicais quanto de conservadores. Foi então que pude formular com precisão o que já intuía: que a opressão e a alienação no mundo escolar não eram caracteres necessários no processo pedagógico — pelo contrário, eram caracteres contingentes e perfeitamente dispensáveis.
Como formador de professores e, em especial, como diretor escolar, compreendi que o problema da escola é imenso e de dificílima solução: tudo ali está ordenado para que o círculo de enlouquecimento da sociedade se perpetue. Do currículo insano ao espaço escolar; da formação cultural dos mestres ao seu salário, parece que a escola brasileira foi criada com o propósito de impedir que a educação aconteça.
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O currículo é impossivelmente extenso; a partir do segundo segmento do Ensino Fundamental, e ainda mais no Ensino Médio, nenhum professor domina todas as áreas que os alunos precisam, por sua vez, dominar. Absurdamente, exige-se das crianças que saibam mais do que sabem os adultos que as ensinam. Sim: se aplicássemos aos professores do Ensino Médio todas as provas, de todas as disciplinas, que os seus alunos precisam fazer, descobriríamos que, vergonhosamente, quase todos acabariam reprovados nas disciplinas que não lecionam. Como é possível que considerem normal e justo exigir dos estudantes um conhecimento que os próprios professores não possuem? Com que direito os professores aplicam aos seus alunos um conjunto de avaliações que eles mesmos não teriam capacidade de resolver?
Ademais, boa parte do conhecimento apresentado nas aulas é completamente inútil para a vida da maioria dos estudantes. Conseqüentemente, o currículo escolar deixa de ser relevante — já que deve ser apreendido para a realização de provas, e depois esquecido: o currículo de facto da nossa escola é precisamente o currículo oculto, o aprendizado de como fingir ter um conhecimento que não se tem, de como se submeter ao capricho da autoridade sem reclamar, de como alienar-se de si, naturalizando no espírito uma situação completamente artificial.
O espaço escolar, com seus horários definidos, com seus uniformes para alunos, professores e pessoal de apoio, com suas turmas separadas por idade e ordenadas informal ou formalmente em função do sucesso acadêmico, com a arbitrariedade dos professores e da direção, é completamente diferente do espaço de uma sociedade saudável — e curiosamente parecido com o de fábricas e quartéis. É o currículo oculto em ação, docilizando e suavizando os corpos e as mentes, ensinando a seguir regras sem sentido, acostumando a permanecer em imobilidade por horas e horas — e a jamais se revoltar diante do que é revoltante.
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A maioria dos nossos professores não sonhava com o magistério: a carreira pedagógica é quase sempre escolhida porque é a mais fácil no momento do vestibular. É fácil porque não é atrativa salarialmente; o professor brasileiro está entre os mais mal-remunerados de todo o mundo. Isso significa que muitos dos profissionais da nossa escola têm pouca leitura e entendem por cultura o que não passa de entretenimento de massa; com os salários miseráveis que recebem, não têm nenhuma condição de mudar a sua situação. Não podem comprar livros, fazer cursos, viajar para outros países. Professores incultos tendem a permanecer incultos — e a formar alunos ainda mais incultos, num círculo vicioso difícil de romper.
Como imaginar uma solução para a escola brasileira quando os próprios professores ganham mal e não acessam os bens culturais superiores? Como sonhar com uma Educação de qualidade, quando mesmo professores bem-remunerados têm como referência cultural o que não passa de lixo para o consumo de adolescentes, como os filmes de super-heróis americanos e a Disneylândia?
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É triste a conclusão de que quase tudo na nossa escola é ruim, é inaceitavelmente ruim — seja na escola pública mais desestruturada, seja na escola particular mais cara. A escola brasileira é simplesmente desastrosa. Se a escola não é completamente tenebrosa, agradeçamos aos professores que, excepcionalmente, se constituem também como educadores — aos professores que descobriram que mais importante do que as notas é o olhar atento e carinhoso do mestre; que mais útil do que passar a matéria é oferecer a escuta; que para além do teatro do absurdo da sala de aula há crianças e adolescentes que precisam enfrentar crises domésticas, emoções descontroladas, cobranças desmedidas, luto, insegurança, incompreensão — e precisam enfrentar tudo isso em silêncio.
Infelizmente, a única coisa que salva a nossa escola é justamente aquilo que vai contra a disciplina escolar: é o conjunto pequeno, mas indispensável, de professores que não se submetem às regras — professores que compreendem que mais importante que instruir é cuidar, porque somente a partir do cuidado é que a educação pode florescer. Do meu lugar de fala, posso dizer com alguma propriedade que não precisamos de uma escola instrutora, mas de uma escola educadora — e, portanto, de uma escola atenta, cuidadora e libertadora.
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* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Filosofia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Professor da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR).
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