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MARX AINDA ASSOMBRA O CAPITALISMO: A ATUALIDADE DE UM PENSAMENTO QUE SE RECUSA A ENVELHECER

Por Georgino Jorge de Souza Neto*


Poucos livros atravessaram os séculos com a insolência intelectual de Karl Marx. Poucos autores conservaram tamanha capacidade de desconforto. A obra marxista permanece de pé, rejeitando o rótulo de uma utopia derrotada e se consolidando como espelho incômodo erguido diante da anatomia moral do capitalismo. Essa é a sua grandeza: enquanto tantos pensadores envelhecem como móveis antigos, Marx continua produzindo irritação, debate, negação apaixonada, caricatura e medo. Nenhum pensamento irrelevante provoca tamanho esforço de refutação.


Em O Capital, o que se encontra não é apenas economia política, mas uma arqueologia da mercadoria, uma investigação quase litúrgica sobre o fetiche do valor, sobre a transformação da vida humana em cifra, sobre a conversão do suor em abstração contábil. Marx compreendeu, com espantosa antecedência, que o capitalismo não se limitaria à produção de riquezas: ele produziria subjetividades, desejos, precariedades e solidões. Anteviu um mundo em que o homem passaria a valer pelo que consome, em que a dignidade seria substituída pela performance, em que o trabalho deixaria de ser vínculo social para tornar-se algoritmo, meta, estatística e exaustão.


A leitura contemporânea de Marx possui algo de profecia retroativamente confirmada. Quando descreveu a tendência do capital à concentração, à corrosão das relações humanas e à expansão infinita sobre todos os domínios da vida, parecia exagerado aos olhos liberais do século XIX. Hoje, diante de conglomerados transnacionais maiores que muitos Estados, da financeirização absoluta da existência e da mercantilização até mesmo da intimidade, suas páginas adquirem a nitidez perturbadora dos textos que acertaram cedo demais.


Já o Manifesto do Partido Comunista conserva uma potência literária raríssima para um texto político. Respira ali um vigor verbal quase bíblico, uma escrita que avança como trombeta histórica. “Tudo que é sólido desmancha no ar” talvez permaneça uma das frases mais precisas já produzidas sobre a modernidade capitalista. Em poucas palavras, Marx e Friedrich Engels capturaram o caráter dissolvente do capital: sua incapacidade de repouso, sua necessidade incessante de destruir estruturas antigas para produzir novos mercados, novos consumos e novas dependências.


Curiosamente, os detratores mais ferozes de Marx raramente enfrentam Marx. Combatem uma caricatura escolar, um espantalho ideológico construído por slogans e ressentimentos. Muitos jamais atravessaram as páginas densas de O Capital, jamais compreenderam a sofisticação filosófica herdada de Hegel, a crítica à economia clássica inglesa ou o diálogo profundo com a tradição materialista. Criticam um autor que nunca leram com o mesmo fervor com que religiosos medievais condenavam livros proibidos sem jamais abri-los.


Ler Marx seriamente exige mais do que concordância, mas sobretudo coragem intelectual. Sua obra não oferece conforto moral e desmonta ilusões. Obriga o leitor a perceber que o capitalismo não é fenômeno natural, mas construção histórica. O capitalismo não é destino biológico da humanidade, mas um sistema erguido sobre relações concretas de poder e exploração.


Mais de um século após sua morte, Karl Marx continua sendo uma espécie de fantasma filosófico do Ocidente, e suas perguntas continuam abertas. Enquanto houver desigualdade obscena convivendo com abundância obscena, enquanto o trabalho humano for triturado em nome do lucro ilimitado, enquanto multidões forem descartáveis diante da lógica do mercado, existirá algo de terrivelmente atual em Marx. Acho mesmo que por isso tantos ainda tentam silenciá-lo: algumas obras, ao invés de envelhecerem, tornam-se evidências.


Salve o bom velhinho...





* Escritor Profissional e Pesquisador. Doutor e Mestre em Estudos do Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em Educação

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