THE BOYS E A SOCIEDADE DO ESPETÁCULO: QUANDO OS HERÓIS VIRAM PRODUTOS E CIDADÃOS VIRAM PLATEIA
- Georgino Jorge de Souza Neto

- há 3 dias
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Por Georgino Jorge de Souza Neto*
Acabo de assistir à primeira temporada de The Boys (sim, sei que tô bem atrasado), e fiquei com aquela sensação rara que algumas obras provocam: a de que estamos diante de uma sátira tão exagerada que, paradoxalmente, se torna mais verdadeira do que a própria realidade. À primeira vista, trata-se apenas de uma desconstrução violenta do mito dos super-heróis. Mas bastam alguns episódios para perceber que os heróis são apenas o pretexto. O verdadeiro alvo da série é a engrenagem social que fabrica ídolos, produz consensos e transforma cidadãos em plateias obedientes.
Embora ambientada nos Estados Unidos, a crítica de The Boys ultrapassa as fronteiras americanas. Ela encontra terreno fértil no simulacro da sociedade brasileira, que frequentemente tenta reproduzir não as virtudes democráticas norte-americanas, mas justamente seus aspectos mais problemáticos: a espetacularização da política, a mercantilização da fé, a transformação da violência em espetáculo e a obsessão pela figura do salvador da pátria.
A genialidade da série está em demonstrar que os heróis não são necessariamente indivíduos extraordinários. Eles são produtos. São marcas cuidadosamente construídas por departamentos de marketing, conglomerados empresariais e estratégias de comunicação. Sua função não é salvar pessoas, mas produzir adesão emocional. Não importa o que façam, importa o que representam. E essa é uma das críticas mais contundentes da obra: a substituição da realidade pela narrativa.
Nesse aspecto, a série dialoga diretamente com a reflexão de pensadores como Guy Debord, que descreveu a sociedade do espetáculo, e Jean Baudrillard, para quem os simulacros acabam substituindo o próprio real. Em The Boys, a população não conhece os heróis; conhece apenas suas versões publicitárias. O herói deixa de ser um sujeito e passa a ser uma imagem. E uma imagem, quando suficientemente repetida, torna-se mais poderosa do que qualquer fato.
A política aparece então como continuação desse mesmo mecanismo. Os discursos patrióticos, as bandeiras agitadas, os inimigos fabricados e as narrativas simplificadoras servem para mobilizar emoções primárias. O cidadão deixa de refletir e passa a torcer. A esfera pública é reduzida à lógica de uma torcida organizada. Não importa a complexidade dos problemas, apenas escolher de que lado do espetáculo se está.
A religião, por sua vez, surge como outra poderosa ferramenta de legitimação. Não por acaso, a série mostra como símbolos religiosos podem ser apropriados para conferir uma aparência de virtude a projetos essencialmente voltados ao poder. A fé, que poderia ser espaço de transcendência e solidariedade, transforma-se em instrumento de marketing emocional. O sagrado converte-se em estratégia de convencimento.
O militarismo fecha esse círculo. A ideia de força, disciplina e proteção é constantemente mobilizada para justificar estruturas de controle cada vez mais amplas. Em nome da segurança, aceita-se a vigilância; em nome da ordem, toleram-se abusos; e em nome da defesa da sociedade, criam-se mecanismos que acabam restringindo a própria liberdade que afirmam proteger.
O mais perturbador em The Boys é justamente isso: a percepção de que os super-heróis são quase irrelevantes. O verdadeiro poder não reside nos indivíduos que voam ou lançam raios pelos olhos. O verdadeiro poder está nas estruturas que constroem suas imagens, administram suas narrativas e moldam a percepção coletiva.
Por isso a série não é apenas uma sátira dos Estados Unidos. É uma sátira de qualquer sociedade que troca pensamento crítico por idolatria, cidadania por torcida e realidade por espetáculo. E, nesse sentido, o Brasil contemporâneo reconhece no espelho de The Boys mais do que gostaria de admitir. Os super-heróis nunca foram o problema. O problema sempre foi a facilidade com que multidões se dispõem a acreditar neles.
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* Escritor Profissional e Pesquisador. Doutor e Mestre em Estudos do Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em Educação
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