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O APRENDIZADO E A ARTE DE QUERER SABER: POR QUE A FORÇA NÃO ENSINA NINGUÉM

Por Adriano Gomes*

Diz uma verdade antiga, gravada na nossa mente como uma regra universal: “somente é possível aprender o que desejamos”. E não é que isso é mais real do que qualquer lei da física? Ninguém — repito, ninguém — aprende algo que não queira, que não veja graça, razão, utilidade ou, vamos combinar, um pouco de emoção na história. Desejamos só o que nos parece bom, divertido, prazeroso ou que nos dê alguma vantagem. Resumindo: só damos espaço no cérebro para o que faz sentido. O resto? A mente trata logo de jogar no lixo, ou melhor, num baú trancado chamado “esquecimento”, onde não incomoda mais ninguém.

E isso não é teoria nova não! Todos os grandes mestres da história sabiam disso: de Aristóteles, que já falava que tudo começa pela admiração, até Richard Feynman, o gênio da física que explicava o mundo rindo, como se ciência fosse uma boa piada. E se eles vivessem hoje, tenho certeza que usariam exemplos que a gente conhece bem. Quer ver?

Pega aí o Baki Hanma, por exemplo. O rapaz passa a vida treinando, levando porrada, escalando montanhas, lutando com gigantes e até com o próprio pai, o ser mais forte do mundo. Alguém acha que ele faria tudo isso se não quisesse? Se para ele a força, a luta e o desafio não fossem a coisa mais importante, mais divertida e mais necessária do mundo? Imagina só se obrigassem o Baki a decorar a tabela periódica ou as capitais da Europa, sem explicar pra quê serviria... O cara iria olhar com aquela cara de quem pensa: “Isso não me deixa mais forte, então pra que eu quero?”. Ele só aprende, estuda e treina o que faz sentido para o seu objetivo: ser o melhor. O resto? Entra por um ouvido e sai pelo outro, rápido como um soco seu mais rápido.

Agora muda de canal e pensa em The Boys. Lá, o negócio é poder, heroísmo (ou o que dizem ser), influência e muita, muita política de rua. Você acha que o Homem-Aranha — digo, o Homem-Padrão, ou o A-Train, ou a Rainha Maeve — aprenderiam alguma regra, alguma ética ou alguma lição se isso não tivesse a ver com o que eles querem: fama, poder, controle, status? Nada disso! Quando alguém tenta ensinar algo que não combina com o que eles acham que é bom ou útil, eles simplesmente ignoram, ou pior, acham um saco. E olha que eles têm superpoderes, mas nem toda a força do mundo faz uma ideia entrar numa cabeça que não está aberta para ela. No fundo, a turma de The Boys só leva a sério e só “aprende” o que mexe com os seus desejos, os seus medos ou os seus interesses. Exatamente como todo mundo.

Voltando para a sala de aula — que às vezes parece uma arena de luta ou um universo de heróis desgovernados — a coisa funciona igualzinho. É o seguinte: quando obrigamos um aluno a repetir um procedimento, decorar uma lista, ler um texto chato ou entender uma conta que não serve para nada que ele conheça, o que acontece? Ele até decora. Sim, ele decora! Mas com um detalhe que ninguém conta: essa decoração vem cheia de sofrimento, tédio e vontade de estar em qualquer outro lugar. É como engolir algo muito amargo: até desce, mas deixa uma marca ruim.

E aí vem o truque mais genial da nossa mente, que é muito mais espertinha do que muitos professores pensam. Nossa cabeça busca o bem-estar feito o Baki busca um adversário forte, ou como o Billy Bruto busca uma forma de derrubar o sistema. Se ela percebe que uma informação está grudada numa sensação ruim, numa obrigação chata ou numa dor de cabeça, ela faz o que qualquer pessoa sensata faria: esquece. Melhor que isso: ela bloqueia. É defesa pessoal!

Ou seja: quando forçamos alguém a gravar algo desconectado do seu desejo, estamos fazendo o contrário de ensinar. Estamos, na verdade, treinando o cérebro dele a esquecer o mais rápido possível. É daí que vem aquele fenômeno famoso: o “esquecimento pós-prova”. Sabe como é: na semana da prova, o aluno sabe tudo, recita tudo, explica tudo... e no dia seguinte, puf! Sumiu. Apagou. Como se nunca tivesse existido. A mente saudável simplesmente varreu tudo para fora, porque aquilo foi aprendido na base da coerção, da obrigação, da violência de ter que saber algo que não fazia sentido nenhum.

Isso significa, em outras palavras, que muita gente que se acha mestre, que se acha o “dono do saber”, na verdade está fazendo um trabalho ao contrário. Por não entender como a aprendizagem funciona, eles atrapalham, bloqueiam e até proíbem que o conhecimento realmente entre. Enquanto pensam que estão ensinando, estão, sem querer, construindo barreiras enormes — tão altas quanto os prédios da Vought — entre o aluno e o saber. São, na prática, obstáculos profissionais da educação.

Então qual é o caminho certo? É simples, e qualquer fã de luta ou de heróis sabe: é preciso fazer o aluno se apaixonar. O professor tem a missão de fazer com que o conhecimento pareça tão interessante quanto uma boa luta do Baki, tão empolgante quanto uma reviravolta em The Boys, tão útil quanto um superpoder. Enquanto o aluno não desejar aprender aquilo, enquanto não ver graça, sentido ou vantagem, não adianta ensinar nada. Porque se ele não quiser, não entra. Pode usar grito, nota baixa, ameaça, pressão... nada funciona. A porta do aprendizado só abre por dentro, e a chave tem nome: interesse.

“Ah, mas professor! Eu tenho 40 alunos por turma, não dá tempo de fazer isso com cada um!” — já ouço a reclamação, parecida com quem diz que “não tem tempo de treinar direito” ou “não dá para consertar todo o erro do mundo”. Mas olha só: o fato de existirem salas com 40, 50 ou 60 alunos não é uma desculpa, não. É, na verdade, uma violência institucionalizada. É como querer treinar 50 lutadores de uma vez, ou querer controlar 50 super-heróis ao mesmo tempo: é impossível fazer direito, e quem sofre é quem está tentando aprender. Não dá para pensar uma educação de qualidade, que realmente ensine, a partir de uma estrutura que já começa errada, apertada, sem espaço para o desejo, para a atenção e para o sentido de cada um.

No fim das contas, aprender não é questão de força, de pressão ou de quantidade. É questão de querer. Se fizer sentido, se for bom, divertido ou útil, o cérebro abraça, guarda e usa para sempre. Se for só obrigação... bem, aí é igual conteúdo que ninguém quer ver: acaba esquecido, bloqueado e, no fundo, nunca foi realmente aprendido.





* Escritor, Professor e Pesquisador. Doutor em Psicanálise Clínica (UEG), Mestre em Ciência Política (UFAM) e Graduado em Pedagogia (UNIP), em Filosofia (FAVENI), em Geografia (UEA) e em Ciências Contábeis (UniGrande).

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