POR QUE "A ODISSEIA", DE HOMERO, AINDA É A HISTÓRIA MAIS MODERNA QUE VOCÊ VAI VER ESTE ANO?
- Adriano Gomes

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DO NOVO FILME AO POEMA DE QUASE TRÊS MIL ANOS: POR QUE ESSA NARRATIVA DE UM HOMEM TENTANDO VOLTAR PARA CASA FALA MAIS DE VOCÊ DO QUE QUALQUER NOTÍCIA DO DIA
Por Adriano Gomes*
Se você assistiu à nova adaptação cinematográfica que chegou aos cinemas, ou mesmo se só ouviu falar dela, provavelmente já se deparou com a pergunta que todo mundo faz, sempre que um clássico ganha uma nova versão nas telas: “Mas é fiel ao original?”. Essa pergunta, na verdade, é quase sempre a pergunta errada — e é sobre isso que eu quero falar com você hoje: sobre Homero, sobre Odisseu, sobre o que realmente faz uma obra atravessar séculos, e por que essa história que dura quase três mil anos é, ao mesmo tempo, a mais antiga e a mais moderna que você vai encontrar em qualquer lugar.
Dizem que Homero era um poeta cego, e na Grécia antiga isso não era visto como uma limitação, mas como uma marca: quem não vê com os olhos do corpo, aprende a ver com os olhos da alma. Ele não podia lutar nas guerras, como todo homem da sua época devia fazer, então fez outra coisa, muito mais difícil e muito mais duradoura: cantou os feitos dos outros, transformou sangue, lágrimas, coragem, erro, vaidade e esperança em poesia. A ele são atribuídas duas obras que são a própria espinha dorsal da cultura ocidental: a Ilíada, que canta as semanas finais da Guerra de Troia, e A Odisseia, que conta a longa, tortuosa e quase impossível viagem de volta de um homem para a sua casa. Por muito tempo muita gente achou que Troia era só um mito, uma história para crianças dormir, até que no século XIX escavaram a terra na costa da atual Turquia e acharam as muralhas queimadas, os sinais do fogo, os vestígios da destruição camada sobre camada. A história não mente. Ela só espera o tempo certo para ser reencontrada.
O longa que temos hoje é uma produção grande, longa, pensada para falar diretamente ao público do nosso século, e é justamente aí que a pergunta da fidelidade perde o sentido. Fiel a quê? Homero não foi um repórter que foi até Troia com um caderno e uma caneta para anotar tudo minuto a minuto; ele foi um artista, pegou uma tradição que já circulava de boca em boca há séculos e moldou do seu jeito, com a sua voz, para o seu tempo e o seu público. O diretor faz exatamente a mesma coisa, três mil anos depois. Ninguém copia o passado, e quem só copia o passado não entendeu o passado: ele não pede repetição, pede diálogo. O filme é uma leitura de hoje, e tem todo o direito de ser. O que importa não é se ele reproduziu cada detalhe do poema, mas se conseguiu transmitir a alma da história — e isso, ele consegue.
Esse herói, aliás, é o grande segredo da permanência da obra. Odisseu — ou Ulisses, como também o chamamos — não é o guerreiro perfeito, não é Aquiles, o homem da força, da cólera, da glória rápida que morre jovem para ser lembrado para sempre. Ele é outra coisa completamente diferente. Os gregos o definiam com uma única palavra: polytropos, que pode ser traduzida de muitas maneiras — multiversátil, astuto, engenhoso, homem de muitas voltas, de muitas faces. Ele não vence por ser o mais forte, vence por ser o mais inteligente: sabe mentir quando precisa, sabe esperar quando todo mundo quer atacar, sabe ficar calado quando todo mundo quer gritar, é capaz de ser nobre e também de ser canalha, se for preciso para sobreviver, para proteger os seus, para chegar até a sua casa. É um homem completo, e por isso a sua viagem dura vinte anos — dez na guerra, dez voltando. Porque para voltar para casa, primeiro ele tem que aprender a ser todas as coisas que um homem pode ser.
Por trás de cada aventura, de cada monstro e de cada desvio, corre uma regra silenciosa que move toda a trama, e que hoje quase esquecemos que existiu um dia: a xenia, a lei sagrada da hospitalidade. Era uma obrigação sob a proteção direta de Zeus: acolher o estrangeiro, o desconhecido, quem vem de fora, mesmo que ele seja um mendigo, mesmo que não tenha nada para oferecer em troca. Porque você nunca sabe quem é o outro, nunca sabe se o homem sujo e cansado na sua porta é um deus disfarçado, vindo para testar a sua humanidade. Toda desgraça que acontece ao longo do caminho nasce, em alguma medida, da violação dessa lei: quem fecha a porta paga o preço, quem explora o hóspede paga o preço, quem usa a confiança do outro para enganar paga o preço. Isso não é uma regra grega velha, empoeirada de três mil anos. É a base de qualquer sociedade que se diga humana, e serve para você, hoje, aqui, na sua rua, no seu trabalho, na sua vida.
Naturalmente, o filme faz as suas escolhas ao passar a história para a tela. Os lestrigões, aqueles gigantes canibais que no poema destroem onze dos doze navios da frota, aqui aparecem como guerreiros com uma estética que fala mais ao nosso tempo. O Ciclope Polifemo, filho do deus do mar, que na tradição é uma figura bruta, robusta, quase indestrutível, ganha contornos mais frágeis, quase animalescos — mas a sua maior lição fica absolutamente intacta. Quando ele pergunta o nome de Odisseu, o herói responde com a sua sagacidade de sempre: “Meu nome é Ninguém”. E quando fica cego, gritando para os outros gigantes que “Ninguém o feriu”, ninguém vem ajudá‑lo. Essa cena ensina mais do que qualquer livro de estratégia: às vezes, para sobreviver a um inimigo muito maior que você, você não precisa ser mais forte, precisa ser ninguém, precisa dominar a própria vaidade, precisa desaparecer do mapa do orgulho. Odisseu quase morre depois justamente porque não aguenta: quando já está salvo no seu navio, a vaidade fala mais alto e ele grita o seu nome verdadeiro para se vangloriar. Aí o Ciclope pede ao seu pai, Posídon, que amaldiçoe a sua volta. A lição é dura e atual: a vaidade é o pior inimigo do homem inteligente.
As mulheres, nessa nova versão, ganham uma voz que o poema antigo só poderia sonhar. Penélope, que espera vinte anos pelo marido, não é só a rainha fiel que tece e desfaz uma mortalha todos os dias: ela questiona o seu lugar, administra o reino sozinha por duas décadas, pergunta com toda a razão por que um menino imaturo, com a penugem ainda no rosto, tem direitos políticos que ela, com toda a sua experiência e sabedoria, não tem. Circe, a feiticeira que transforma homens em porcos, não é só uma vilã de conto antigo: é uma mulher marcada por ressentimentos, que conhece bem o quanto os homens são capazes de maldade e paga na mesma moeda. São leituras do nosso tempo, e isso não estraga o clássico — ao contrário, prova que ele está vivo. Um clássico morto é aquele que só pode ser lido de uma única maneira, que não aceita novas perguntas, que não fala mais com ninguém além dos especialistas. O clássico vivo é aquele que, a cada geração, pode ser visto de novo e continua fazendo sentido.
Se essa nova versão acendeu em você a vontade de conhecer o poema original, não venha com essa história de que “não é capaz”. Capaz todo mundo é; o que falta, quase sempre, é método. Primeiro, escolha uma tradução séria, feita por quem realmente conhece o grego antigo, que respeite o ritmo, a força e a dignidade do texto — existem dezenas por aí, algumas excelentes, outras que transformam a poesia em uma prosa pobre e sem alma. O poema foi feito para ser cantado, para ser ouvido em voz alta, tem uma musicalidade própria que não se transfere fácil para a nossa língua, mas há versões que fazem isso com muita honra. Depois, não tente ler tudo de uma vez: isso não é uma série para maratonar no fim de semana, é uma viagem, e viagem se faz passo a passo. Leia quinze, vinte minutos por dia, no mesmo horário se possível, com calma, com uma régua na mão se precisar para não se perder nas linhas, procure a palavra que você não conhece sem vergonha nenhuma. O conhecimento não é um concurso para ver quem sabe mais, é um caminho para você entender melhor a si mesmo. Se precisar, comece por um resumo, por um guia que explique a estrutura geral da história antes de mergulhar no texto: não existe vergonha nenhuma em usar degraus para subir uma escada alta. O que tem vergonha é ficar embaixo, com medo de subir só porque não consegue dar um salto de dez metros de uma única vez.
No fim das contas, o filme cumpre bem o seu papel: acende a curiosidade, faz você querer saber mais, faz você olhar para essa história antiga e pensar que ela tem tudo a ver com a sua vida. Mas a força verdadeira, a que não passa, a que resiste a todos os séculos, está no poema. Porque Homero não escreveu para agradar ninguém, não estava preocupado com a bilheteria, não estava preocupado em ser cancelado nas redes sociais, não fazia concessões. Ele só quis contar a verdade sobre o ser humano: sobre o quanto é difícil voltar para casa, sobre o quanto a gente se perde no caminho por causa dos próprios erros e da própria vaidade, sobre o quanto a inteligência vale mais que a força bruta, sobre o quanto esperar pacientemente por vinte anos é uma forma de coragem muito maior do que qualquer batalha.
E quando você lê isso, percebe que não está diante de um livro velho de três mil anos. Está diante da sua própria história. Porque todos nós, de alguma forma, somos um pouco de Odisseu. Todos temos uma Ítaca para onde queremos voltar — um lugar, uma pessoa, uma versão de nós mesmos que perdemos ao longo do caminho. Todos temos os nossos monstros, as nossas tentações, os nossos erros de orgulho que atrasam a viagem em anos. E todos nós, um dia, temos que aprender que não é a força que nos faz chegar. É a capacidade de seguir, de se adaptar, de continuar — mesmo quando tudo parece perdido.
Isso é o que é um clássico, de verdade: não é aquilo que envelhece bem, é aquilo que nunca envelhece. É aquilo que continua sempre novo, sempre atual, sempre falando diretamente com você, não importa em que ano, em que século, em que lugar você viva.
Boa leitura. E boa viagem de volta para a sua Ítaca.
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* Escritor, Professor e Pesquisador. Doutor em Psicanálise Clínica (UEG), Mestre em Ciência Política (UFAM) e Graduado em Pedagogia (UNIP), em Filosofia (FAVENI), em Geografia (UEA) e em Ciências Contábeis (UniGrande).
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