A GUERRA DA UCRÂNIA SOB AS SOMBRAS DE SPIDER-NOIR
- Adriano Gomes

- há 2 horas
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Por Adriano Gomes*
Se tem uma coisa que a gente aprendeu com histórias de super-heróis, é que tudo costuma ser muito prático e organizado: o mocinho usa a roupa colorida, o vilão tem risada malvada, eles brigam, o bem vence, a banda toca e todo mundo vai para casa feliz, como se nada tivesse acontecido. Parece até uma partida de futebol, onde basta saber de que lado é a torcida para já saber quem é o cara certo e quem é o errado. Mas daí aparece o Spider-Noir, e muda tudo de figura. O cara é o Homem-Aranha, sim, mas de um jeito que ninguém está acostumado: sem cores vibrantes, sem piadinhas alegres, sem vitórias perfeitas. A Nova York dele é escura, úmida, cheia de neblina, corrupção, gente sofrendo e um monte de coisas que ninguém explica direito. É o tipo de lugar onde você sai de casa para comprar pão e já fica na dúvida se vai voltar inteiro, ou se vai encontrar alguma confusão pelo caminho. E o mais engraçado — se é que podemos chamar assim — é que, quanto mais a gente lê ou assiste às histórias dele, mais percebe que esse mundo cheio de sombras, onde nada é preto no branco e ninguém tem a razão garantida, é o lugar perfeito para entender uma das confusões mais complicadas, mais tristes e mais cheias de meias-verdades do nosso tempo: a guerra entre Rússia e Ucrânia.
Vamos combinar que, quando a gente fica olhando a guerra daqui de longe, sentado no sofá, vendo as notícias ou olhando os mapas na televisão, a impressão que dá é que estamos vendo um jogo de estratégia de computador. Ficamos sabendo quantos tanques foram destruídos, quantos quilômetros foram avançados, qual cidade foi tomada ou bombardeada, e tudo parece meio abstrato, como se fossem só números, bandeiras e nomes de lugares difíceis de pronunciar. É como se a guerra fosse feita só de exércitos, generais e políticos discutindo, e o resto do mundo só tivesse que escolher de que lado torcer. Mas Spider-Noir chega e lembra, com aquele jeito sombrio dele, que por trás de cada linha riscada no mapa, por trás de cada estatística e por trás de cada notícia, existe gente de verdade. Gente que tem nome, sobrenome, família, que gosta de um café quente, que conta história para os netos, que tem medo de trovão e que, de repente, viu a sua vida inteira virada de cabeça para baixo. Pais que saíram para trabalhar e nunca mais voltaram, crianças que cresceram achando que barulho de explosão é som normal, idosos que tiveram que deixar a casa onde moraram a vida inteira para dormir na rua ou em abrigos apertados, jovens que tinham planos de estudar, de casar, de viajar e que viram tudo isso desaparecer do dia para a noite. No universo do herói, cada esquina tem uma história, cada prédio velho tem uma dor guardada, e não é diferente nas cidades que estão sendo destruídas: elas não são só cenário para a guerra, elas são parte da tragédia, e carregam marcas que ninguém consegue apagar com tinta ou reforma.
Uma das coisas mais legais — e mais tristes também — na história do Spider-Noir é como ele mostra que a violência é uma daquelas coisas que ninguém consegue segurar ou controlar direito. Você pensa que está atacando só quem merece, ou só quem é o problema, mas daí a confusão vai crescendo, gruda em todo mundo, muda as pessoas, estraga as relações e deixa feridas que demoram gerações para sarar. É como quando você tenta matar uma formiga com um martelo: acaba destruindo o chão inteiro, e a formiga pode até escapar. A guerra funciona exatamente assim. Tem gente que pensa que, no final das contas, vai ter um lado que vai poder dizer “ganhei, venci, sou o melhor”, mas a verdade, que o herói das sombras ensina bem, é que não existe vitória quando todo mundo saiu machucado. Não tem vencedor quando milhões de pessoas passam o resto da vida lembrando do que perderam, com medo do que pode acontecer, sem saber onde está a sua casa, a sua família ou o seu lugar no mundo. A violência chega, bagunça tudo, vai embora, mas deixa lá um monte de problemas, de traumas e de mágoas que ficam enraizados, como ervas daninhas que ninguém consegue arrancar mais.
E o melhor de tudo, que é o que mais nos faz pensar, é a forma como esse Homem-Aranha entende o mundo: ele sabe muito bem que ninguém é 100% santo nem 100% demônio. Na maioria das vezes, o pessoal é um pouco dos dois, dependendo do dia, da situação e do que está acontecendo ao redor. No mundo dele, não adianta sair por aí chamando todo mundo de herói ou de vilão, porque a vida não é uma história em quadrinhos simplificada. E isso serve como um alerta para quem fica tentando explicar a guerra da Ucrânia como se fosse uma novela, onde de um lado está o mocinho e do outro o bandido, e tudo é muito simples. A realidade, essa chata que não quer saber de facilidades, é que essa confusão toda tem anos e anos de história, de disputas, de interesses políticos, de conversas que não deram certo, de fronteiras que mudaram de lugar um monte de vezes, e de decisões tomadas por gente que muitas vezes não perguntou nada para quem ia sofrer as consequências. O engraçado, se é que podemos achar graça, é que quem mais paga o preço alto da guerra é sempre quem menos tem a ver com ela: a população que só queria trabalhar, criar os filhos e viver em paz, e que de repente se vê no meio de uma briga que não começou, não pediu e não sabe como vai terminar.
Outra lição que o Spider-Noir traz, e que é bem diferente dos outros heróis, é que ele não tem nenhuma solução mágica, nenhum golpe especial que resolva tudo de uma vez. Ele não acha que basta aparecer, dar um soco no problema e pronto, tudo fica bem. Ele sabe que o mundo é complicado, que as dores são profundas e que consertar as coisas dá um trabalho danado. Mas mesmo assim ele continua lá, fazendo o que pode, ajudando quem precisa, tentando fazer o mínimo que seja para não deixar a escuridão tomar conta de tudo. É quase como se ele dissesse: “não sei se vou conseguir mudar o mundo, mas pelo menos não vou deixar o mundo me mudar para pior”. E isso é exatamente o que falta muita gente lembrar quando fala da guerra. Muita gente fica procurando a solução perfeita, o acordo que vai agradar todo mundo, a decisão que vai fazer tudo voltar a ser como era antes, mas esquece que, enquanto isso não chega, a obrigação de todo mundo é não deixar a dignidade humana morrer. Porque quando a violência aumenta, quando as bombas caem, quando as notícias são só de destruição, é muito fácil tratar as pessoas como números, como bandeiras ou como inimigos, mas é aí que mais precisamos lembrar que cada um é um ser humano, com direito a vida, a segurança e a ser tratado com respeito.
No fim das contas, a maior lição que esse Homem-Aranha das sombras deixa para a gente, quando olhamos para a Ucrânia, é que o centro de toda essa história não está nos presidentes, nem nos generais, nem nos exércitos, nem nas fronteiras, nem nos acordos políticos. O centro, o peso, a dor e o que realmente importa são as pessoas comuns. Elas são quem carrega tudo isso nas costas, quem perde tudo, quem sofre tudo e quem vai ter que reconstruir tudo depois. No universo noir, a esperança nunca aparece como uma luz forte que ilumina tudo de uma vez e acaba com a escuridão. Ela é sempre uma coisinha pequena, uma chama fraca, que insiste em ficar acesa mesmo quando tudo ao redor é trevas, frio e medo. E talvez seja exatamente isso que a gente precisa entender sobre a paz também: ninguém vai chegar com uma solução brilhante que vai fazer tudo ficar bem de repente. A paz é uma decisão pequena, de cada um, de proteger essa chama, de não deixar ela apagar, de lembrar que, por mais sombrio que esteja o mundo, por mais complicadas que sejam as disputas, por mais confusas que sejam as histórias, o mais importante é sempre o ser humano que está do outro lado. E isso, que parece lição de história em quadrinhos, é a verdade mais séria que existe.
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* Escritor, Professor e Pesquisador. Doutor em Psicanálise Clínica (UEG), Mestre em Ciência Política (UFAM) e Graduado em Pedagogia (UNIP), em Filosofia (FAVENI), em Geografia (UEA) e em Ciências Contábeis (UniGrande).
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