TEFË TËMA USHË PIU, PENQUIO MËDAC — NUQUI CHËNANBUD CHIDO
- Adriano Gomes

- 6 de ago.
- 4 min de leitura
Por Adriano Gomes*
Ontem, na cidade que me acolheu, Tefé, a lua estava vermelha enquanto no mesmo horário na minha cidade natal, Coari, a lua não estava vermelha. Esse fenômeno que muita gente olha e diz só “bacana, que bonita a lua”, na verdade mascara algo que não é nada bom — e depois que você entende a física por trás da cor, não consegue mais ver apenas uma paisagem bonita.
A explicação não tem mistério, é ciência básica: a luz que vemos na lua é só a luz do sol refletida pela sua superfície. Para chegar até os nossos olhos, ela precisa atravessar toda a camada de ar acima de nós. Em Coari, naquela noite, o ar estava relativamente limpo: as moléculas pequenas de oxigênio e nitrogênio espalharam para o lado os tons azuis e violetas da luz, deixando passar o conjunto que a gente vê como branco-amarelado — a cor que consideramos “normal”. É o mesmo processo que deixa o céu azul durante o dia, não tem segredo.
Já a lua vermelha de Tefé? Ela só ganha essa tonalidade quando a coluna de ar sobre a cidade está carregada de partículas maiores: poeira fina, resíduos de combustão, gotículas de poluentes em suspensão. Aí a luz interage com essas partículas de outro jeito: elas bloqueiam as cores mais claras e deixam passar apenas os comprimentos de onda mais longos, o laranja e o vermelho. Quanto mais intensa a cor, mais material poluente a luz precisou cruzar até chegar até você. Não é mágica: é medida.
Muita gente estranha duas cidades tão próximas, a menos de 200 quilômetros uma da outra, terem céus tão diferentes no mesmo instante. Mas é exatamente o que os dados mostram todos os anos no final de julho, quando a estação seca se instala na Amazônia. Os números do INPE não mentem: mais de 90% dos focos de calor da região têm origem humana, usados para limpar áreas desmatadas, abrir estradas ou fazer manejo agropecuário. As plumas de fumaça que saem desses focos não se espalham igual por todo o mapa: elas são carregadas pelos ventos de baixa altitude, que sopram mais de leste para nordeste por aqui, e podem ficar exatamente sobre uma cidade enquanto a vizinha fica sob uma massa de ar mais limpa.
Em Tefé, esse efeito fica ainda mais forte por causa do lago grande que dá nome à cidade, que gera brisas que ajudam a prender partículas perto do chão, e pelas inversões térmicas muito comuns nas noites calmas dessa época — uma faixa de ar mais quente que funciona como uma tampa, impedindo que a fumaça e a poeira subam e se dispersem. Naquela noite, essas condições simplesmente não se formaram sobre Coari. A lua continuou com a sua cor de sempre. O ar, mais limpo.
Aqui cabe uma ressalva importante, para ninguém sair por aí generalizando: não é toda lua avermelhada que significa poluição. Quando ela está nascendo ou se pondo, muito rente ao horizonte, mesmo com ar perfeitamente limpo ela ganha tons alaranjados, só porque a luz atravessa uma quantidade muito maior de ar do que quando está alta no céu. Mas no nosso caso? Mesma hora, mesma posição da lua em relação ao horizonte, uma cidade com lua vermelha e outra não? Aí só tem uma explicação possível: diferença real na quantidade de partículas suspensas sobre cada lugar. Não tem outra.
E não é só de queimadas que vive essa lua vermelha. Ela também fica assim porque tem muita poeira no ar, levantada dia após dia pelo tráfego de veículos em vias que, quando deveriam ter pavimentação asfáltica como infraestrutura básica de qualquer município, permanecem de terra batida. Cada carro, cada caminhão que passa levanta sedimentos finos que ficam horas em suspensão. Em noites sem vento ou chuva para lavar a atmosfera, eles se acumulam o suficiente para mudar completamente a cor da luz que vem do espaço. É um problema estrutural, que se soma ao fogo na floresta: duas formas diferentes de pressão humana sobre o território, que acabam aparecendo lá no alto, na cor da lua.
O que pouca gente fala é o que isso significa para a saúde de quem respira esse ar. A Organização Mundial da Saúde é direta: as partículas mais finas, que estão tanto na fumaça quanto na poeira mais leve das estradas, penetram profundamente no trato respiratório, chegam aos alvéolos dos pulmões e até à corrente sanguínea. Elas aumentam crises de asma, bronquites, infecções respiratórias e complicações cardíacas, principalmente em crianças, idosos e quem já tem alguma doença. Não é “só um pouco de poeira”. É poluição entrando no corpo das pessoas todos os dias.
E o pior? Na maior parte do interior da Amazônia, nós não temos estações que medem a qualidade do ar em tempo real, como existem nas grandes cidades do Sudeste. Então a própria lua acaba funcionando como um medidor gratuito, acessível a todo mundo: branca ou amarelada, o ar está razoavelmente bom; alaranjada, a carga de partículas já é moderada; vermelha intensa como a de Tefé naquela noite? Sinal de alerta claro.
No fim, eu vejo assim: essa lua vermelha não é um evento astronômico, não tem nada a ver com eclipses, distância da Terra ou ciclos cósmicos. Ela é pura e simplesmente o reflexo no céu de escolhas que fazemos aqui embaixo: da tolerância com o fogo ilegal que devora a floresta aos poucos, do descaso com obras básicas como a pavimentação de vias, da falta de investimento em ciência que poderia monitorar e avisar a população antes que a lua mude de cor.
Muita gente para para fotografar a beleza da cor incomum. Eu, quando vejo uma lua assim hoje, já sei: tem algo errado no ar que aquela gente está respirando. E o pior de tudo é que, na maioria das vezes, ninguém aparece para explicar isso para eles.
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* Escritor, Professor e Pesquisador. Doutor em Psicanálise Clínica (UEG), Mestre em Ciência Política (UFAM) e Graduado em Pedagogia (UNIP), em Filosofia (FAVENI), em Geografia (UEA) e em Ciências Contábeis (UniGrande).
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Registro sútil e alarmante, Professor! Eu fico lotado em Coari. A lua pode não apresentar estas características, mas o ar e o caminho onde era água para as embarcações atracarem tem dado dó. Uns dizem que todo ano é assim. Será que querem adiar o fim do mundo? Nestes dias de lua “vermelha”, as pessoas se alegram, dizem que a lua está cada dia mais linda. Não sei se por opção ou pura apatia, ninguém tem observado os sinais de mudança do clima, ar, rios e até nossa fisiologia? Juro que até me dá ecoansiedade. Há momentos que ser leigo ou sonso é fator protetor pra saude da gente (risos).