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WI-FI MEDIEVAL: O TERRAPLANISMO NO SÉCULO XXI

Por Georgino Jorge de Souza Neto*


Fiquei chocado com o fato de que, em pleno século XXI, depois de Galileu Galilei ter sido constrangido pela Inquisição e de Isaac Newton ter sido alvejado por uma maçã epistemológica, ainda existam 16 milhões de brasileiros que, segundo o Datafolha, sustentem com firmeza cartográfica que a Terra é plana. É a prova de que o espírito medieval não morreu, apenas ganhou Wi-Fi.


A façanha é ainda mais admirável quando se considera que vivemos num país que orbita satélites, transmite jogos ao vivo de qualquer ponto do globo e consulta previsões meteorológicas baseadas em modelos que pressupõem, com desnecessária arrogância científica, a esfericidade do planeta. Nada disso, contudo, abala o heroísmo geométrico daqueles que, munidos de vídeos granulados no YouTube e uma confiança inabalável, ousam enfrentar séculos de astronomia com a coragem de quem nunca abriu um livro de Nicolau Copérnico, mas já compartilhou três memes sobre ele.


É um gesto de resistência epistemológica. Enquanto a ciência insiste em cálculos, medições e fotografias feitas pela NASA, o terraplanista permanece fiel à evidência suprema: “eu olho para o horizonte e ele é reto”. Se Eratóstenes mediu a circunferência terrestre com sombras e ângulos há mais de dois mil anos, é porque não dispunha de um grupo de Telegram para alertá-lo do equívoco.


A pesquisa revela menos sobre geografia e mais sobre antropologia. Não se trata de forma, mas de fé. A Terra plana não é uma hipótese astronômica; é um manifesto psicológico contra a autoridade do conhecimento. O mundo pode até girar, mas o ressentimento permanece imóvel.


E há algo poeticamente coerente nisso: num país onde tantas vezes a realidade parece desmentir a lógica, por que a física deveria ser exceção? Se a ética desafia o discurso e se a memória desafia os fatos, a curvatura do planeta torna-se apenas mais um detalhe negociável.


Talvez devêssemos agradecer aos 16 milhões. Eles nos lembram que a educação não é uma herança automática, mas uma construção frágil; que a alfabetização científica é um jardim que exige cultivo constante; e que a modernidade tecnológica não garante modernidade mental.


No fim das contas, a Terra pode até ser redonda, mas a ironia é perfeitamente esférica: enquanto o planeta gira silenciosamente no espaço, há quem permaneça parado na Idade Média, brandindo um celular 5G como prova de que o Renascimento foi um exagero publicitário.


Se Galileu Galilei estivesse vivo, talvez não fosse julgado por herege, mas apenas cancelado num grupo de mensagens. E, ainda assim, a Terra continuaria a fazer o que sempre fez: girar, indiferente à geometria das convicções humanas.





* Escritor Profissional e Pesquisador. Doutor e Mestre em Estudos do Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em Educação

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