QUANDO A HISTÓRIA RETORNA COMO ADVERTÊNCIA
- Georgino Jorge de Souza Neto

- 25 de jan.
- 2 min de leitura
Por Georgino Jorge de Souza Neto*
Comparar Donald Trump a Adolf Hitler não significa dizer que são a mesma coisa, nem que o trumpismo é o nazismo. Significa reconhecer que certas engrenagens do autoritarismo reaparecem na história com novas roupas, novos inimigos e novas tecnologias.
O nazismo não surgiu do nada. Ele se alimentou de ressentimento social, medo, humilhação nacional e da promessa de restauração de uma grandeza perdida. O trumpismo opera em chave semelhante: Make America Great Again ecoa a mesma lógica simbólica do “renascimento nacional” que sustentou o imaginário nazista, ou a ideia de que existe um passado mítico roubado por inimigos internos e externos.
Tanto em Hitler quanto em Trump, o líder não se apresenta como mediador institucional, mas como encarnação da vontade popular. A verdade deixa de ser factual e passa a ser aquilo que o líder diz. Quando Trump afirma que só perde eleições se houver fraude, não está apenas questionando resultados, está minando a própria ideia de regra comum, passo essencial para qualquer projeto autoritário. O nazismo construiu judeus, comunistas e minorias como ameaças existenciais. O trumpismo constrói seus inimigos em migrantes, imprensa, intelectuais, cientistas, professores, movimentos civis e opositores políticos, tratados como “antiamericanos”. A lógica é a mesma: desumanizar para legitimar o ódio.
Hitler chamava a imprensa crítica de mentirosa e conspiradora. Trump institucionalizou o termo fake news como arma política, não para corrigir erros, mas para desacreditar qualquer narrativa que o contradiga. Quando a verdade vira opinião, o autoritarismo ganha terreno fértil.
O nazismo investiu pesado em símbolos, rituais, slogans simples e emoção coletiva. O trumpismo também opera pela mobilização afetiva, não racional: bandeiras, bonés, palavras de ordem, linguagem agressiva e teatralização constante do conflito. A política vira espetáculo e o espetáculo dispensa argumentos.
Hitler chegou ao poder por vias legais e depois corroeu o sistema por dentro. Trump não criou campos de concentração, mas normalizou o ataque às instituições, estimulou a desconfiança no Judiciário, flertou com o uso político das forças de segurança e incentivou uma tentativa explícita de subversão do processo eleitoral em 6 de janeiro de 2021. O trumpismo não é o nazismo, mas compartilha com ele a gramática do autoritarismo de massas: líder messiânico, inimigos internos, mentira como método, emoção como política e desprezo pela democracia liberal. A história não se repete como farsa nem como cópia, ela retorna como advertência.
Foi exatamente assim que o século XX ensinou, tarde demais, que a barbárie não começa com tanques nas ruas, mas com aplausos a discursos de ódio travestidos de patriotismo. E o bolsonarismo é o trumpismo lambe-botas mal-ajambrado da classe média brasileira (que faz o serviço sujo para a elite nacional)...
* Escritor Profissional e Pesquisador. Doutor e Mestre em Estudos do Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em Educação



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