top of page

QUANDO A HISTÓRIA RETORNA COMO ADVERTÊNCIA

Por Georgino Jorge de Souza Neto*


Comparar Donald Trump a Adolf Hitler não significa dizer que são a mesma coisa, nem que o trumpismo é o nazismo. Significa reconhecer que certas engrenagens do autoritarismo reaparecem na história com novas roupas, novos inimigos e novas tecnologias.


O nazismo não surgiu do nada. Ele se alimentou de ressentimento social, medo, humilhação nacional e da promessa de restauração de uma grandeza perdida. O trumpismo opera em chave semelhante: Make America Great Again ecoa a mesma lógica simbólica do “renascimento nacional” que sustentou o imaginário nazista, ou a ideia de que existe um passado mítico roubado por inimigos internos e externos.


Tanto em Hitler quanto em Trump, o líder não se apresenta como mediador institucional, mas como encarnação da vontade popular. A verdade deixa de ser factual e passa a ser aquilo que o líder diz. Quando Trump afirma que só perde eleições se houver fraude, não está apenas questionando resultados, está minando a própria ideia de regra comum, passo essencial para qualquer projeto autoritário. O nazismo construiu judeus, comunistas e minorias como ameaças existenciais. O trumpismo constrói seus inimigos em migrantes, imprensa, intelectuais, cientistas, professores, movimentos civis e opositores políticos, tratados como “antiamericanos”. A lógica é a mesma: desumanizar para legitimar o ódio.


Hitler chamava a imprensa crítica de mentirosa e conspiradora. Trump institucionalizou o termo fake news como arma política, não para corrigir erros, mas para desacreditar qualquer narrativa que o contradiga. Quando a verdade vira opinião, o autoritarismo ganha terreno fértil.


O nazismo investiu pesado em símbolos, rituais, slogans simples e emoção coletiva. O trumpismo também opera pela mobilização afetiva, não racional: bandeiras, bonés, palavras de ordem, linguagem agressiva e teatralização constante do conflito. A política vira espetáculo e o espetáculo dispensa argumentos.


Hitler chegou ao poder por vias legais e depois corroeu o sistema por dentro. Trump não criou campos de concentração, mas normalizou o ataque às instituições, estimulou a desconfiança no Judiciário, flertou com o uso político das forças de segurança e incentivou uma tentativa explícita de subversão do processo eleitoral em 6 de janeiro de 2021. O trumpismo não é o nazismo, mas compartilha com ele a gramática do autoritarismo de massas: líder messiânico, inimigos internos, mentira como método, emoção como política e desprezo pela democracia liberal. A história não se repete como farsa nem como cópia, ela retorna como advertência.


Foi exatamente assim que o século XX ensinou, tarde demais, que a barbárie não começa com tanques nas ruas, mas com aplausos a discursos de ódio travestidos de patriotismo. E o bolsonarismo é o trumpismo lambe-botas mal-ajambrado da classe média brasileira (que faz o serviço sujo para a elite nacional)...





* Escritor Profissional e Pesquisador. Doutor e Mestre em Estudos do Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em Educação

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

© 2018, Instituto Parajás (@institutoparajas)

 

Revista Parajás (@revistaparajas) - ISSN: 2595-5985

Revista Colirium (@revistacolirium) - ISSN: 3085-6655 

Revista IBEFAT (revistaibefat)

  • YouTube - círculo cinza
  • Facebook - círculo cinza
  • Instagram - Cinza Círculo
  • Spotify
bottom of page