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BACHELARD E A ESCOLA COMO FINALIDADE DA SOCIEDADE

Por Gustavo Bertoche*


Em 27 de junho de 1884 nascia Gaston Louis Pierre Bachelard, filho de pequenos comerciantes no interior de Bar-sur-Aube, na Champagne. Gaston Bachelard passou a infância nos campos. Foi funcionário dos Correios. Esteve nas tricheiras por 38 meses durante a guerra, instalando e reparando cabos telegráficos, e recebeu a Croix de Guerre. Tornou-se pai em 1919 e viúvo em 1920. Entre 1919 e 1930, foi professor de física e química no liceu de sua cidade. Em 1929, engajou-se nas eleições municipais, defendendo um projeto de escola para todos; assim, tornou-se Conselheiro Municipal em Bar-sur-Aube de 1929 a 1935.


Obteve seu doutorado em filosofia aos 42 anos, em 1927, quando também publicou seu primeiro livro e ingressou como professor na faculdade de letras da Université de Bourgogne. Em 1940, tornou-se professor na Sorbonne, onde ocupou a cadeira que antes pertencera ao seu mestre Abel Rey. Foi professor de Canguilhem, Derrida, Foucault, Bourdieu, Gilbert Durand — de toda uma brilhante geração de intelectuais franceses.


A despeito de ter vivido a guerra, de ter participado da vida política de sua cidade e de ter lecionado na Sorbonne sob a invasão alemã, a sua filosofia não possui um caráter político - não, no sentido tradicional.


A política de Bachelard é a política da vida científica e da vida poética. Para Bachelard, a ciência e a poesia são os pólos do mundo humano; tudo o que lhe interessa está inscrito entre esses pólos. De um lado, o campo da racionalidade científica, da luz diurna, com a sua exigência de método, rigor e crítica. Do outro, o campo da imaginação poético-literária, da noite misteriosa, com a liberdade do sonho e do devaneio.


A aparente indiferença de Bachelard em relação à política tradicional é, na verdade, uma lição política. Não é difícil compreender essa aparente contradição. Para Bachelard, a tarefa mais fundamental de qualquer sociedade deveria ser a educação dos jovens para o conhecimento e para a imaginação. Tudo o mais deveria ser secundário. Neste sentido, ele escreveu que a escola não deveria servir à sociedade, mas a sociedade deveria servir à escola: a escola deveria ser a finalidade da sociedade. Afinal, a maior — e talvez a única realmente importante — responsabilidade de cada geração é preparar a geração que a sucederá.


Em suma: de nada importa a política que não estabeleça como ponto de partida a necessidade de educar os jovens tanto científica quanto literariamente.


Diante de nossas circunstâncias, talvez Bachelard, cujo nascimento completa hoje 142 anos, seja a voz a ser ouvida.





* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Filosofia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Professor da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR).

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