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A FANTASIA DAS FRONTEIRAS DO CONHECIMENTO

Por Gustavo Bertoche*


Um equívoco comum do pensamento na Modernidade está na concepção de que existe uma diferença clara e distinta entre a Filosofia, o misticismo, a ciência natural e a política.


Esse equívoco conduz à incompreensão dos fenômenos culturais do nosso próprio tempo.


Por exemplo: qualquer ciência natural está fundamentada em intuições metafísicas indemonstráveis; suas teses estão intimamente ligadas, numa via de mão dupla, a ideologias políticas; possui em seu núcleo elementos místicos que conferem aos seus seguidores um certo ethos.


Todavia, reina a ideia de que existe, por exemplo, uma Biologia separada da metafísica, da política e do misticismo. Ora, a ideia da Biologia, ou de qualquer outra ciência, como um corpo de conhecimentos com fronteiras epistemológicas bem determinadas é uma fantasia escolar. Na raiz do pensamento é impossível identificar os limites entre a filosofia, a ciência, a política, o misticismo. Quando tomamos as fronteiras entre os domínios do conhecimento como se fossem limites reais entre os campos simbólicos, adotamos como componentes do mundo o que não passa de um esquematismo pedagógico; trata-se de uma perspectiva infantil.


* * *


Para ilustrar o que estou dizendo, podemos refletir sobre o papel da metafísica, da política e da mística na Teoria da Evolução de Darwin.


O solo metafísico em que a Teoria da Evolução se assenta é a concepção iluminista de progresso, fundamentada na ideia de que existe uma tendência intrínseca da realidade à preservação e ao desenvolvimento dos seus processos. De fato, muitos dos contemporâneos de Darwin (como Julian Huxley) entenderam o evolucionismo como um tipo especial de mecanicismo — uma espécie de mecanicismo da vida. De fato, na conclusão de "The Origin of Species" Darwin diz que finalmente se compreendia o ser orgânico "não como um selvagem vê um barco, como algo além da sua compreensão", mas "cada estrutura complexa e cada instinto como a soma de muitos artifícios, cada um útil ao seu proprietário, do mesmo modo que qualquer grande invenção mecânica é a soma do trabalho, da experiência, da razão e mesmo dos equívocos de numerosos trabalhadores". Ora, o que há aí é precisamente uma metafísica mecanicista – tipicamente iluminista.


Há também em ação na Teoria da Evolução a concepção político-econômica do liberalismo: a descrição do modo como os seres vivos mais aptos vão sobrevivendo e se reproduzindo é essencialmente a descrição do modo como os indivíduos e as empresas sobrevivem e enriquecem — com um equilíbrio sendo alcançado por uma espécie de "mão invisível" como a imaginada por Adam Smith: a satisfação do interesse individual conduz ao equilíbrio dinâmico por meio de um sistema de dependência mútua entre todos os indivíduos. Ainda no campo da política, o evolucionismo de Darwin relaciona-se ao imperialismo europeu do século XIX: para Darwin, as espécies mais aptas devem tomar o lugar das menos aptas, como os povos "mais aptos", "mais civilizados" devem exterminar os povos "primitivos". Assim Darwin diz em "The Descent of Man": "Em algum momento futuro, não tão distante a ponto de ser medido em séculos, a raça civilizada dos homens quase que certamente exterminará e substituirá no mundo as raças selvagens". Darwin não faz nenhum juízo de valor em relação a essa constatação de um futuro genocídio: para ele, trata-se de um fato quase que inevitável no processo da evolução do homem. A propósito, junto a esse imperialismo encontramos em diversas passagens de Darwin uma relação intrínseca entre o evolucionismo e a ideia da superioridade ou da inferioridade das raças humanas: o homem branco seria a raça humana mais civilizada — isto é: a raça mais evoluída —, o negro ou o australiano seria a raça mais primitiva — isto é: a raça mais próxima dos símios. É o que lemos, por exemplo, também em "The Descent of Man": "No mesmo período os símios antropomorfos, conforme tem observado o Prof. Schaaffhausen, terão sido sem dúvida exterminados. A diferença entre o homem e os seus mais próximos afins se tornará então mais ampla, visto que será a diferença entre o homem, num estágio ainda mais civilizado que o do homem caucasiano, e alguns símios inferiores como o babuíno, ao invés de ser entre o negro, ou o australiano, e o gorila". Isto é: o evolucionismo parte dos mesmos princípios encontrados no imperialismo europeu, no liberalismo econômico e no racismo.


Do ponto de vista místico há um processo (que ocorre no contexto de todo o Iluminismo) de substituição da concepção antropocêntrica e anti-humanista que havia na Idade Média por uma concepção anti-antropocêntrica e humanista. A Idade Média era, do ponto de vista teológico, teocêntrica, antropocêntrica, geocêntrica: teocentrismo, antropocentrismo e geocentrismo estavam perfeitamente alinhados na visão de mundo que concebia Deus como a origem do mundo e do sentido do mundo, o homem como a criatura mais digna — a "imagem e semelhança de Deus", que inclusive recebeu o próprio Deus tornado carne —, e o centro do Cosmos como o lugar dessa criatura mais digna, para que observasse, nomeasse e controlasse toda a Criação. Todavia, conquanto antropocêntrica, essa não é uma perspectiva humanista: não é o homem que dá sentido à realidade; o que resta ao homem é tentar compreender o sentido dado por Deus. Já no Renascimento essa relação se transforma, e torna-se verdadeiramente oposta na Modernidade iluminista: o homem abandona o lugar central do Cosmos e passa a habitar um planeta sem importância que gira em torno de uma estrela comum, já não mais é considerado a criatura favorita do Criador, que não mais está entre nós. Isto é: já não mais se pode falar em antropocentrismo, em teocentrismo, em geocentrismo. Por outro lado, o homem descobre-se como o próprio criador do sentido da realidade: é a emergência do humanismo. É aqui que está a perspectiva mística subjacente ao evolucionismo de Darwin. Ao mesmo tempo em que desaparece a idéia de Deus, emerge o senso místico de participação na ordem da natureza, junto com o senso de responsabilidade para com a manutenção dessa ordem. Essa é, junto com o romantismo anti-racionalista, uma das causas dos movimentos de retorno à natureza que estiveram em voga em todo o século XX e que operam no século XXI: o ecologismo, o New Age, o conservacionismo.


Naturalmente haveria muito mais a dizer sobre esse assunto. Mas a partir daí já é possível começar a pensar.


* * *


Na História da Filosofia encontramos uma linha de força que surge com Empédocles de Agrigento e passa por Alberto Magno: é a linha que, em lugar de uma "redução" (como aquela proposta por filósofos desde Tales de Mileto até Émile Meyerson), propõe uma "síntese", na qual todos os campos simbólicos podem ser reunidos.


Como explico em várias aulas do Curso de Filosofia, "síntese" e "redução" constituem um par dialético indispensável para que possamos compreender os programas fundamentais que perpassam a História da Filosofia.





* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Filosofia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Professor da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR).

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