A QUADRA COMO ESPELHO DA SOCIEDADE: QUANDO A DERROTA PRECISA ENCONTRAR UM CULPADO
- Georgino Jorge de Souza Neto

- há 1 dia
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Por Georgino Jorge de Souza Neto*
Tenho acompanhado nos últimos dias, e com bastante preocupação, uma série de postagens nas redes sociais que procuram estabelecer uma relação entre o desempenho da seleção brasileira masculina de vôlei na Liga das Nações e a orientação sexual de alguns de seus atletas.
Como professor da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), onde leciono, entre outras, a disciplina Sociologia do Esporte, esses episódios imediatamente chamaram minha atenção, não apenas pelo preconceito que explicitam, mas pelo enorme potencial pedagógico que carregam. Muito provavelmente, este será um dos temas das minhas próximas discussões em sala de aula, justamente porque o esporte, mais do que um espetáculo competitivo, constitui um dos espaços privilegiados para compreendermos como a sociedade produz, reproduz e naturaliza determinados valores, preconceitos e relações de poder. Precisava escrever sobre isso, dada minha angústia diante deste cenário. Então senta que lá vem textão...
A eliminação da seleção brasileira masculina de vôlei da fase final da Liga das Nações produziu mais do que análises esportivas. Pela primeira vez desde a criação da competição, em 2018, o Brasil não disputará a fase decisiva do torneio. O resultado, evidentemente, deve ser discutido. Escolhas técnicas, renovação da equipe, oscilações durante os jogos, qualidade dos adversários, preparação física, sistema defensivo, distribuição ofensiva, planejamento e comando técnico são elementos legítimos de qualquer avaliação. O que não possui nenhuma legitimidade, científica ou esportiva, é associar o desempenho da seleção à orientação sexual de alguns de seus atletas.
Ainda antes do início da competição, jogadores assumidamente gays já haviam sido atacados nas redes sociais depois da publicação de imagens dos bastidores de uma sessão fotográfica da equipe. Douglas Souza, Douglas Pureza, Maique Reis e Adriano Xavier estavam entre os atletas expostos a comentários homofóbicos. Depois da eliminação, o preconceito encontrou a oportunidade que aguardava e a derrota passou a ser apresentada por muitos como consequência de uma suposta perda de virilidade da seleção.
Nesse ponto, já não estamos falando propriamente de vôlei. Estamos falando da sociedade brasileira olhando para si mesma por intermédio do esporte. Uma das contribuições fundamentais da Sociologia do Esporte é demonstrar que o fenômeno esportivo jamais existe isolado das relações sociais. A quadra não é uma dimensão paralela à sociedade, à medida que reproduz valores, hierarquias, preconceitos, disputas de poder e concepções sobre o corpo. Aquilo que aparece nas arquibancadas, nos vestiários, nas transmissões e nos comentários das redes sociais é parte da mesma estrutura que organiza a vida coletiva.
Essa compreensão dialoga com alguns dos principais referenciais da Sociologia do Esporte. Pierre Bourdieu nos ajuda a perceber que o esporte não é um universo neutro, mas um campo social onde diferentes formas de poder e de reconhecimento estão permanentemente em disputa. Norbert Elias, ao analisar o processo civilizador, mostrou como o esporte organiza formas socialmente aceitas de competição, controle das emoções e construção das identidades. Já Raewyn Connell demonstra que existe uma masculinidade hegemônica, tomada como padrão de legitimidade, diante da qual outras formas de viver a masculinidade costumam ser inferiorizadas. Eric Anderson, por sua vez, evidencia que, embora o esporte contemporâneo venha reduzindo alguns níveis de homofobia, ainda persistem ambientes nos quais a orientação sexual continua sendo utilizada como critério ilegítimo para medir competência, coragem e pertencimento. Essas perspectivas ajudam a compreender que o preconceito não nasce da derrota esportiva, mas apenas encontra nela uma oportunidade para se manifestar com maior intensidade.
O esporte moderno, especialmente em suas modalidades masculinas, foi historicamente construído como espaço de demonstração de força, coragem, disciplina, resistência e agressividade. Essas qualidades não são problemáticas em si. O problema começa quando são apresentadas como propriedades naturais e exclusivas de um determinado modelo de homem: heterossexual, viril, emocionalmente contido e permanentemente disposto a provar sua masculinidade.
Nesse imaginário, o homem homossexual surge como uma espécie de desvio da masculinidade legítima, não importando sua força, sua técnica, sua inteligência tática ou seu histórico de resultados. Para o olhar homofóbico, sua sexualidade antecede sua condição de atleta, pois ele deixa de ser avaliado pelo que realiza dentro da quadra e passa a ser julgado pelo modo como existe fora dela. Essa operação é reveladora. Quando uma equipe vence, a orientação sexual de seus jogadores é ignorada. Quando perde, ela se transforma repentinamente em explicação. A sexualidade do atleta gay só é lembrada quando pode ser utilizada como acusação.
Não existe relação causal entre orientação sexual e rendimento esportivo. Um saque não perde velocidade porque o jogador é homossexual, um bloqueio não chega atrasado por causa da vida afetiva do central, a recepção não se torna menos eficiente porque determinado atleta namora um homem e a bola, felizmente, não possui preconceitos: simplesmente responde à força aplicada, à técnica, ao posicionamento, ao treinamento e à tomada de decisão.
A tentativa de associar homossexualidade e fracasso não é uma análise equivocada do jogo, é uma estratégia de desqualificação. Em vez de examinar as causas complexas de um resultado esportivo, escolhe-se um marcador social previamente estigmatizado e transforma-se esse grupo em responsável pela derrota. Trata-se de um mecanismo conhecido: em momentos de crise, busca-se um corpo que possa carregar simbolicamente a culpa. A derrota coletiva é convertida em defeito moral de uma minoria.
É muito mais confortável responsabilizar jogadores gays do que discutir planejamento, gestão esportiva, formação de atletas, renovação de gerações, calendário, critérios de convocação ou decisões técnicas. O preconceito oferece explicações simples para fenômenos complexos. Sua força não está na verdade, mas na facilidade com que dispensa o pensamento.
Existe uma profunda contradição nessa retórica. O vôlei masculino brasileiro convive há décadas com jogadores homossexuais, muitos deles presentes em clubes campeões e em diferentes níveis de competição. A novidade não é a existência desses atletas, mas a possibilidade de viverem sua orientação sexual publicamente, sem depender do silêncio como condição para permanecer no esporte.
Durante muito tempo, o atleta gay foi tolerado desde que não dissesse quem era. Poderia jogar, vencer e conquistar títulos, contanto que mantivesse sua vida afetiva escondida. Sua permanência dependia de uma espécie de contrato tácito: todos poderiam saber, mas ninguém deveria falar.
Quando jogadores assumem publicamente sua sexualidade, rompem esse acordo. E é justamente essa visibilidade que incomoda, porque o preconceito raramente se contenta em controlar comportamentos; ele pretende controlar também as formas pelas quais determinados corpos podem aparecer no espaço público. O atleta gay até pode ser aceito, desde que seja invisível, discreto, silencioso e agradecido pela tolerância recebida. Quando se apresenta sem pedir desculpas, passa a ser acusado de provocar, lacrar, politizar ou desvirtuar o esporte. Como se a heterossexualidade nunca tivesse sido exibida. Atletas heterossexuais aparecem com esposas e namoradas, celebram casamentos, anunciam filhos, participam de campanhas publicitárias e falam de suas famílias sem que ninguém considere isso uma manifestação ideológica. Entretanto, quando um atleta homossexual menciona o companheiro ou aparece de maneira espontânea nas redes, sua existência é tratada como militância. A heterossexualidade, naturalizada, recebe o privilégio de parecer neutra. A homossexualidade, por sua vez, é apresentada como excesso, espetáculo ou ameaça.
Os ataques também revelam como determinadas concepções de masculinidade permanecem assentadas sobre a rejeição de tudo aquilo que é associado ao feminino. Muitos insultos dirigidos aos jogadores não procuram apenas dizer que eles são homossexuais. Procuram associá-los à fragilidade, à delicadeza, à vaidade ou à ausência de combatividade.
A homofobia, nesse sentido, relaciona-se profundamente com o machismo. Ela pune homens que supostamente não correspondem ao padrão dominante de masculinidade e utiliza o feminino como instrumento de humilhação. O insulto não diminui apenas o homem gay; reafirma também a ideia de que tudo aquilo considerado feminino seria inferior, fraco ou incompatível com a alta performance.
Entretanto, a história do esporte desmonta diariamente essa fantasia. O desempenho esportivo não possui orientação sexual, coragem não possui gênero e disciplina, concentração, força, liderança e inteligência tática não são propriedades naturais da heterossexualidade. São competências construídas pelo treinamento, pela experiência e pelas condições oferecidas aos atletas.
É preciso ainda recusar a ideia de que os comentários seriam apenas “opiniões”. Nem toda manifestação pode ser absolvida mediante o uso dessa palavra. Opinião esportiva é discutir se determinado jogador deveria ter sido convocado, se o levantador fez as melhores escolhas ou se o sistema de bloqueio funcionou. Atribuir incapacidade esportiva à orientação sexual de uma pessoa não é análise técnica, e sim puro preconceito socialmente compartilhado.
As redes sociais não inventaram a homofobia, mas ampliaram sua circulação e ofereceram ao preconceito a sensação de anonimato, comunidade e impunidade. O indivíduo que talvez hesitasse em proferir determinado ataque diante do atleta encontra, nos comentários, dezenas de pessoas dispostas a legitimar sua violência. O ódio deixa de parecer uma deformação ética e passa a ser experimentado como pertencimento.
É por isso que essas manifestações não devem ser lidas somente como falhas individuais de educação, pois elas expressam uma pedagogia social da intolerância. Pessoas aprendem a odiar, encontram grupos que confirmam esse ódio e passam a apresentá-lo como defesa da tradição, da família, da moral ou, nesse caso, da competitividade esportiva.
A derrota brasileira precisa ser debatida com seriedade. Uma seleção historicamente vitoriosa ficar fora da fase final de uma grande competição exige reflexão. Mas reflexão não é caça às minorias. Nenhum projeto de reconstrução esportiva será produzido pela humilhação pública de atletas em razão de sua orientação sexual. Ao contrário, ambientes marcados por medo, hostilidade e ocultamento prejudicam o desenvolvimento humano e esportivo. Um atleta que precisa gastar parte de sua energia escondendo quem é, calculando gestos, policiando palavras e antecipando agressões não encontra as mesmas condições psicológicas de quem pode simplesmente entrar em quadra e jogar.
Defender o direito desses jogadores de existirem publicamente não significa protegê-los de críticas esportivas. Significa garantir que sejam criticados como atletas, pelo desempenho, pelas decisões, pelos acertos e pelos erros. A igualdade não exige imunidade à crítica, exige que a crítica não seja contaminada por preconceitos que nada explicam sobre o jogo.
A seleção brasileira perdeu partidas porque jogou menos do que seus adversários em momentos decisivos, não porque alguns de seus atletas são gays. Transformar orientação sexual em fundamento de análise esportiva é trocar a estatística pelo estigma, a tática pela intolerância e o conhecimento pela superstição social.
A maior derrota revelada por essa eliminação não ocorreu dentro da quadra. A seleção perdeu a classificação. Parte da sociedade, entretanto, perdeu novamente a oportunidade de se tornar um pouco mais civilizada.
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* Escritor Profissional e Pesquisador. Doutor e Mestre em Estudos do Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em Educação
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