A DES-EDUCAÇÃO NO BRASIL: A MERCANTILIZAÇÃO DO ENSINO SUPERIOR E O COLAPSO DA UNIVERSIDADE
- Gustavo Bertoche

- 27 de jan.
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Por Gustavo Bertoche*
Desde os anos 90 há um processo de aceleração da des-Educação em curso no Brasil. Esse processo teve início com a mercantilização do ensino superior — e radicalizou-se com o crescimento dos conglomerados "educacionais" administrados por banqueiros ou por grupos estrangeiros.
Sob a justificativa da "democratização", as vagas no ensino superior foram multiplicadas — inicialmente, pela abertura de faculdades, centros universitários e universidades particulares; posteriormente, pela entrada em cena do ensino à distância. O problema é que nesse caminho os brasileiros foram enganados: quase sempre o ensino superior privado é fraudulento, e na modalidade à distância é fraudulento por completo.
Com exceções que podemos contar nas mãos, não existe universidade particular no Brasil: o que há é estelionato acadêmico, o que há é fraude institucionalizada pelo Governo Federal via MEC.
* * *
Quatro em cada cinco estudantes do nível superior no Brasil estão em instituições privadas: são cerca de oito milhões num universo de dez milhões de estudantes. Com poucas exceções, esses oito milhões de brasileiros viverão com a ilusão de terem estudado numa universidade — sem jamais terem chegado perto de uma. Eles acreditarão haver frequentado o ensino universitário, quando na realidade terão participado de um esquema de venda de diplomas.
Isto é: eles terão frequentado um escolão para adultos, mas desconhecerão por completo a essência do ensino superior: o mundo da pesquisa, da investigação e da universalização do conhecimento.
Muitos dos egressos dessas instituições de natureza fraudulenta tornar-se-ão professores — quase sempre de fraca formação acadêmica e cultural —, e acabarão perpetuando, mais por ignorância que por má-fé, uma visão infantilizada da vida do espírito.
Acreditem, amigos: a geração de professores formados em falsas universidades já chegou ao magistério superior. Hoje, uma parte dos jovens professores universitários já não faz ideia do que seja uma universidade: ignora a pesquisa, nada de importante publica, despreza os congressos internacionais, não se relaciona com os pares; esses jovens mestres e doutores trabalham como trabalhariam numa escolinha de bairro.
Pergunto-me se o processo de des-Educação no Brasil pode ser interrompido ou revertido; não é simples dizer a oito milhões de pessoas que elas estão sendo vítimas de uma fraude promovida pelo próprio governo. A única certeza que tenho sobre isso, amigos, é que se continuarmos nesse caminho os estudantes brasileiros serão lançados, geração após geração, num rodamoinho de ignorância cada vez mais vertiginoso — e cada vez mais incapacitante.
Boa semana!
* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Filosofia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Professor da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR).


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