QUANDO A PALAVRA E O BLUES COMEÇAM, NÃO DÁ MAIS PARA PARAR: SOBRE TALENTO, INSISTÊNCIA E O DESCONFORTO DE LEVAR A PRÓPRIA VOZ A SÉRIO
- Georgino Jorge de Souza Neto

- 6 de jan.
- 2 min de leitura
Por Georgino Jorge de Souza Neto*
Tem quem jure, com a convicção dos que nunca leram um parágrafo inteiro de Goethe, mas confiam cegamente em correntes de WhatsApp, que Robert Johnson só tocava daquele jeito porque, numa encruzilhada qualquer do Mississippi, vendeu a alma ao diabo em troca de talento. É uma lenda belíssima, diga-se: simplifica o mistério, infantiliza o esforço e preserva a tranquilidade moral dos medíocres. Afinal, se o talento vem do inferno, ninguém precisa estudar, sofrer, observar o mundo ou suportar a solidão criativa.
Curiosamente, a mesma lógica passou a me rondar quando decidi assumir, sem pedir licença, o vício incurável da escrita. Antes, eu “não escrevia tanto”. Antes, eu “não escrevia assim”. Antes, eu “não escrevia com essa qualidade”. Logo, algo de profundamente suspeito deve ter ocorrido: um ritual? Uma invocação? Um contrato rubricado em sangue? Ou, hipótese moderníssima, tecnoteológica e muito mais confortável, a escrita não seria minha, mas fruto de alguma entidade algorítmica, uma inteligência artificial operando nas sombras enquanto eu apenas apertaria “publicar”?
É sempre assim: quando alguém decide se tornar aquilo que sempre foi, mas ainda não tinha coragem de assumir, o mundo prefere recorrer ao sobrenatural ou ao cibernético, a admitir o óbvio. Que escrever, como tocar blues, é sobretudo um trabalho de escuta do mundo, das contradições, das dores pequenas e grandes, da própria biografia e que, em algum momento, a represa interna simplesmente se rompe.
Robert Johnson não ficou melhor porque encontrou o diabo; ficou melhor porque voltou a tocar obsessivamente, porque ouviu outros músicos, porque apanhou do silêncio, porque insistiu. O “pacto”, nesse sentido, é menos metafísico e mais cruel: vender horas de sono, conforto social e a ilusão de normalidade em troca de uma voz própria. Um acordo que não dá fama garantida, apenas urgência.
Quando alguém estranha que eu escreva agora com frequência quase industrial no Facebook, imagina que houve um salto mágico, uma mutação inexplicável. Não percebe que o texto não começou ali. Ele vinha sendo escrito em silêncio há anos, nos diálogos não travados, nas leituras acumuladas, na observação cínica do mundo, na raiva bem educada, na ironia treinada, no hábito de pensar antes de falar. O post é só o último acorde; o blues inteiro veio antes.
Talvez seja mais confortável imaginar que fiz um pacto demoníaco ou um convênio secreto com servidores do Vale do Silício, do que aceitar que escrever é decisão, método e reincidência. Que a qualidade não caiu do céu, não subiu do inferno e tampouco foi baixada em atualização automática, mas emergiu do constrangimento de finalmente levar a própria voz a sério. O diabo e IA, nesse caso, perdem protagonismo.
Se houve uma encruzilhada, foi apenas esta: continuar calado para não incomodar ou escrever sabendo que incomodaria. Escolhi a segunda. Nenhum demônio apareceu. Nenhum algoritmo assinou o texto. Só a palavra. E, como no blues, quando ela começa, não dá mais para parar.
* Escritor Profissional e Pesquisador. Doutor e Mestre em Estudos do Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em Educação Física pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). Professor da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes).



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