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"O AGENTE SECRETO": A CULTURA NÃO É ORNAMENTO

Por Georgino Jorge de Souza Neto*


A vitória de "O Agente Secreto" no Globo de Ouro não é apenas um troféu reluzente a ocupar uma estante. É um gesto simbólico de alta densidade histórica, cultural e política. Num país acostumado a tratar a cultura como ornamento supérfluo (algo entre o entretenimento descartável e a “mamata” imaginária), o reconhecimento internacional de uma obra brasileira reafirma uma verdade antiga e incômoda: cultura é infraestrutura do espírito coletivo, não adereço.


Quando um filme brasileiro conquista um prêmio dessa envergadura, ele rompe o cerco do exotismo e da subalternização cultural. Não se trata de “exportar folclore”, mas de apresentar uma narrativa complexa, enraizada em nossa experiência histórica, capaz de dialogar com o mundo sem pedir licença nem simplificar suas contradições. A cultura, nesse sentido, funciona como linguagem de soberania: diz quem somos, de onde viemos e, sobretudo, o que nos recusamos a esquecer.


E esquecer é sempre o primeiro passo para a barbárie. O cinema, como toda arte comprometida com a memória, atua como arquivo sensível contra o apagamento. Em "O Agente Secreto", a memória não é nostalgia decorativa, mas campo de disputa. Ao iluminar zonas de sombra da história e da subjetividade nacional, o filme reafirma o papel da cultura como antídoto ao revisionismo raso e às narrativas autoritárias que prosperam quando o passado é reduzido a slogan.


Por isso, a relevância do prêmio ultrapassa o circuito artístico. Em tempos de recrudescimento fascista, esses tempos que sempre voltam travestidos de “ordem”, “bons costumes” e “neutralidade”, a cultura se converte em resistência ativa. Ela não grita palavras de ordem, ela pensa, complexifica, desestabiliza. Onde o autoritarismo exige obediência e esquecimento, a arte responde com imaginação crítica e memória viva.


Celebrar essa conquista é, portanto, afirmar um projeto de país que entende desenvolvimento para além de planilhas e índices. Um país que reconhece que não há progresso possível sem narrativa, sem reflexão e sem cultura. O Globo de Ouro recebido por "O Agente Secreto" é, no fim das contas, menos sobre Hollywood e mais sobre o Brasil. Um Brasil que insiste em pensar, lembrar e resistir.


Viva o Cinema Brasileiro!





* Escritor Profissional e Pesquisador. Doutor e Mestre em Estudos do Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em Educação Física pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). Professor da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes).

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