O DIA NACIONAL DOS QUADRINHOS (30 DE JANEIRO): ENTRE TRAÇOS, POLÍTICA E REGIONALIDADES
- Ikaro Grangeiro Ferreira

- há 4 dias
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Por Daniel Camurça Correia* e Ikaro Grangeiro Ferreira**
O Dia Nacional dos Quadrinhos, celebrado em 30 de janeiro, constitui-se como um marco simbólico de reconhecimento da relevância histórica, cultural e pedagógica da linguagem dos quadrinhos no Brasil. A escolha da data remete à publicação, em 30 de janeiro de 1869, da primeira história em quadrinhos brasileira considerada propriamente dita: "As Aventuras de Nhô-Quim ou Impressões de uma Viagem à Corte", de Angelo Agostini, publicada na revista Vida Fluminense. Tal obra inaugura, no país, uma narrativa sequencial com personagens recorrentes, encadeamento temporal e crítica social (elementos fundamentais da arte sequencial). A instituição da data não apenas homenageia esse pioneirismo, mas também reafirma os quadrinhos como expressão legítima da cultura letrada e visual brasileira, historicamente marginalizada em comparação a outras formas de produção intelectual.
A origem dos quadrinhos, entretanto, antecede o caso brasileiro e remonta ao século XIX, período marcado pela expansão da imprensa, da alfabetização e da cultura urbana tanto na Europa quanto nos Estados Unidos. Na Europa, destacam-se artistas como o suíço Rodolphe Töpffer, considerado por muitos historiadores o “pai dos quadrinhos modernos”. Ainda na década de 1830, Töpffer produziu narrativas ilustradas com personagens fixos, sequências de imagens e textos integrados, como “Histoire de Monsieur Jabot”, estabelecendo bases formais que influenciariam gerações posteriores. Na França e na Inglaterra, caricaturas políticas e narrativas ilustradas circularam amplamente em jornais satíricos, articulando humor, crítica social e comentário político.
Nos Estados Unidos, o desenvolvimento dos quadrinhos esteve profundamente ligado à imprensa popular do final do século XIX. Um dos marcos mais citados é Richard F. Outcault, criador de “The Yellow Kid” (1895), personagem que surgiu nos jornais “New York World” e “New York Journal”. A tira consolidou o uso dos balões de fala e inaugurou uma estética urbana voltada para o cotidiano das classes populares, contribuindo para a massificação da linguagem dos quadrinhos e sua consolidação como produto cultural de grande circulação.
No Brasil, os quadrinhos também emergiram no século XIX em diálogo com a caricatura, o humor gráfico e a crítica política. Como mencionado anteriormente, o grande nome desse período é Angelo Agostini, artista ítalo-brasileiro que atuou intensamente na imprensa ilustrada. Além de Nhô-Quim, Agostini criou personagens como “Zé Caipora” e colaborou com periódicos que defendiam causas abolicionistas e republicanas. Seus trabalhos demonstram que, desde sua origem, os quadrinhos brasileiros não se limitaram ao entretenimento, mas funcionaram como instrumentos de crítica social, formação de opinião e reflexão política, dialogando com os grandes debates do Brasil oitocentista.
Ao longo do tempo, os quadrinhos brasileiros diversificaram-se regionalmente, e o Ceará destacou-se como um importante polo de produção e inovação. Entre os quadrinistas cearenses de maior relevância, destaca-se Daniel Brandão, artista e pesquisador cuja obra transita entre o quadrinho autoral, a adaptação literária e o ensaio gráfico. Brandão contribuiu significativamente para a consolidação do quadrinho como objeto de reflexão acadêmica e artística no estado. Outro nome fundamental é Hemeterio, cartunista e chargista reconhecido nacionalmente por seu traço expressivo e pela crítica política afiada, atuando em jornais e espaços digitais. Soma-se a eles Shiko, artista premiado que se destaca pela experimentação estética, pelo diálogo com o imaginário popular nordestino e pela produção de narrativas gráficas de forte densidade simbólica. Esses autores evidenciam a vitalidade do quadrinho cearense e sua capacidade de articular identidade regional, inovação formal e crítica social.
É fundamental destacar a importância dos quadrinhos na formação de leitores no Brasil. Historicamente, os quadrinhos desempenharam papel decisivo na iniciação à leitura, especialmente entre crianças e jovens. Sua combinação entre imagem e texto facilita a compreensão narrativa, estimula a imaginação e contribui para o desenvolvimento do letramento visual e verbal. Em um país marcado por desigualdades educacionais, os quadrinhos funcionam como uma porta de entrada para o universo da leitura, despertando o interesse por outros gêneros literários e fortalecendo a relação do leitor com o livro e com a narrativa escrita.
Nas universidades, as HQs têm ganhado cada vez mais destaque. A produção acadêmica e a atuação de Daniel Camurça Correia no campo dos quadrinhos, das histórias em quadrinhos e dos mangás configuram-se como um exemplo significativo de percurso interdisciplinar entre Direito, Filosofia da História e Cultura Visual. Professor da Universidade de Fortaleza (UNIFOR), onde atua no Centro de Ciências Jurídicas, Correia tem se destacado por articular a análise crítica de narrativas gráficas com temas socioculturais e jurídicos, participando de eventos, palestras e produções que exploram as potencialidades da linguagem sequencial como objeto de estudo e ferramenta pedagógica.
Um dos eixos mais visíveis de sua atuação refere-se à organização e mediação de colóquios e eventos científicos voltados para a análise de quadrinhos no contexto da educação superior e das ciências humanas e sociais aplicadas. Entre as iniciativas mais relevantes está o Colóquio Justiça em Quadrinhos, evento institucionalizado no calendário acadêmico da UNIFOR que, em suas diversas edições, tem promovido discussões sobre a relação entre quadrinhos, filosofia, cidadania, diversidade e práticas de ensino. Nas edições recentes, como o VIII Colóquio Justiça em Quadrinhos (2023), Correia participou como organizador e palestrante, contribuindo com análises que cruzam temas de justiça, cultura visual, cinema e narrativas sequenciais, estabelecendo um diálogo entre o universo jurídico e a produção cultural dos quadrinhos.
Segue-se o IX Colóquio Justiça em Quadrinhos (2024), o qual contou com sua presença tanto na organização quanto na mediação de palestras sobre temas como educação cidadã a partir de experiências audiovisuais e a aplicação dos quadrinhos como ferramentas de reflexão sobre representatividade e diversidade, inclusive em obras emblemáticas como Maus e One Piece. A programação incluiu debates sobre a estética, o ensino de história por meio de quadrinhos e outras mídias narrativas, consolidando o evento como espaço de interlocução entre pesquisadores, quadrinistas e público interessado.
Mais recentemente, o X Colóquio Justiça em Quadrinhos (2025) manteve essa tradição de ampliar a reflexão sobre temas contemporâneos por meio de narrativas artísticas e culturais. Neste encontro, Daniel Camurça Correia coordenou a participação de pesquisadores e atuou como mediador em diversas palestras, incluindo debates sobre temas como a representação de conflitos jurídicos em obras adaptadas, como “O Corcunda de Notre Dame”, e discussões sobre aspectos globais de obras de ficção que dialogam com o direito e a sociedade.
Além de sua atuação em colóquios, Correia é responsável por eventos direcionados à cena local e regional de quadrinhos. Um exemplo disso é o II Ceará em Quadrinhos (2023), organizado sob sua coordenação enquanto líder do grupo de pesquisa Justiça em Quadrinhos (CNPq/UNIFOR). O evento reuniu artistas, produtores e pesquisadores e promoveu uma série de palestras que debateram a importância, a trajetória e a produção de HQs no estado do Ceará, estabelecendo um diálogo entre a produção universitária e a dinâmica cultural local dos quadrinhos.
No que se refere à produção de artigos e comunicações científicas, registros oficiais da Universidade de Fortaleza indicam que Daniel Camurça Correia tem apresentado trabalhos em conferências e encontros acadêmicos que articulam quadrinhos com temas como ética, cidadania, cultura visual e filosofia. Entre essas produções, destacam-se comunicações como “A justiça diante da morte: uma análise sobre o anime ‘Death Note’” (2016) e estudos que cruzam quadrinhos com temas sociais e culturais em conferências de modo mais amplo, demonstrando sua capacidade de vincular a linguagem dos quadrinhos a problemáticas contemporâneas de interpretação e ensino.
Importante salientar que essa produção vai além da mera organização de eventos: ela reflete um compromisso acadêmico com a legitimação dos quadrinhos e dos mangás como objetos de estudo relevantes para a formação crítica e cidadã, incorporando a análise estética e temática de narrativas gráficas em discussões jurídicas, filosóficas e pedagógicas. Assim, a atuação de Correia contribui para consolidar um campo emergente de pesquisa no Brasil que reconhece a importância das narrativas sequenciais como portadoras de conhecimento cultural e social.
Por isso, os quadrinhos contemporâneos ampliaram temas e públicos, abordando questões históricas, sociais, identitárias, jurídicas e políticas, o que reforça seu potencial pedagógico. No contexto escolar e universitário, eles têm sido cada vez mais utilizados como recursos didáticos, instrumentos de análise histórica e objetos legítimos de pesquisa acadêmica. Assim, os quadrinhos não apenas formam leitores, mas também contribuem para a formação crítica dos sujeitos, consolidando-se como uma linguagem complexa, plural e profundamente enraizada na história cultural brasileira.
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*Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Graduado em História pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Professor da UNIFOR e da UFC.
** Escritor e Pesquisador. Bacharel em Direito pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR), pós-graduado em Advocacia Trabalhista e Previdenciária pela Escola Superior da Magistratura do Ceará (FESMP) e mestre em Direito Constitucional pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Advogado (OAB/CE), conciliador e mediador judicial junto ao CEJUSC/FCB.




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