"O AGENTE SECRETO" E A VITÓRIA DA DEMOCRACIA E DO AUDIOVISUAL BRASILEIRO
- Daniel Camurça Correia

- 12 de jan.
- 3 min de leitura
Por Daniel Camurça Correia*
O Agente Secreto (2025) é um filme brasileiro dirigido por Kleber Mendonça Filho, cineasta reconhecido por suas leituras críticas da história e da sociedade brasileira.
A obra é protagonizada por Wagner Moura, que interpreta um personagem envolvido em atividades de espionagem e vigilância política. O enredo se passa durante o período da ditadura militar brasileira, em Pernambuco, em contexto marcado pela repressão, censura e perseguição a opositores do regime. O filme acompanha a atuação clandestina do protagonista, revelando os mecanismos de controle do Estado autoritário, durante os anos 70.
A narrativa evidencia como a espionagem e a delação foram instrumentos centrais para a manutenção do poder militar. Ao longo da trama, o espectador é confrontado com dilemas morais, medo e violência institucionalizada. Kleber Mendonça Filho constrói uma atmosfera tensa, que dialoga diretamente com a memória histórica do período.
A obra não se limita a reconstruir fatos, mas propõe uma reflexão crítica sobre autoritarismo e democracia. Nesse sentido, "O Agente Secreto" contribui para o debate historiográfico ao articular cinema e história, sendo material vital para ser veiculado em sala de aulas, principalmente no ensino médio. Pois se trata de uma obra que ajuda a compreender os impactos humanos e sociais da ditadura no Brasil.
A conquista anunciada ontem, dia 11.01.2026, marca um momento histórico para o cinema e a cultura brasileira. O prêmio de Melhor Ator em Filme de Drama concedido a Wagner Moura no Globo de Ouro reconhece não apenas uma atuação individual, mas a força expressiva de um ator que transita com excelência entre o cinema nacional e internacional. Sua interpretação em "O Agente Secreto" evidencia maturidade artística, densidade emocional e rigor técnico.
Paralelamente, o prêmio de Melhor Filme de Língua Não-Inglesa, para a mesma obra, amplia o alcance simbólico dessa vitória. Do ponto de vista da produção de filmes brasileiros, trata-se de um reconhecimento da capacidade do audiovisual do país de dialogar globalmente.
A obra rompe barreiras linguísticas e culturais ao tratar de temas universais como poder, autoritarismo, família e ética. A premiação também fortalece a visibilidade internacional do cinema brasileiro contemporâneo. Além disso, consolida narrativas locais como relevantes no circuito midiático global. Ou seja, essa dupla vitória reafirma o cinema como instrumento de memória, crítica social e projeção cultural.
Trata-se, portanto, de uma conquista que ultrapassa o campo artístico e alcança o político e o simbólico. Obras com essas temáticas atuam como dispositivos de memória coletiva, fundamentais para disputar sentidos sobre o passado autoritário, que, infelizmente, ainda persistem em nosso país. Em sociedades marcadas por traumas históricos, o audiovisual ajuda a transformar experiências silenciadas em narrativas públicas.
Ao revisitar a ditadura, o cinema expõe práticas de censura, repressão e violência estatal que não podem ser naturalizadas. Esse processo é ainda mais relevante diante dos riscos recorrentes de fortalecimento da extrema direita no cenário político brasileiro contemporâneo. Movimentos autoritários tendem a reescrever o passado, minimizando crimes e exaltando regimes de exceção, no intuito de beneficiar quem deseja desmantelar e usurpar o país, vendendo nossas riquezas como produto de exportação para grandes potências, em detrimento da pobreza e da perseguição.
Filmes críticos funcionam, portanto, como contradiscursos a essas tentativas de apagamento histórico. Ao mobilizar emoções, imagens e narrativas, o cinema alcança públicos diversos e gera identificação social. Assim, produzir filmes sobre a ditadura é também um ato de resistência democrática. Trata-se de afirmar que lembrar é uma forma de proteger o presente e disputar o futuro.
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* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Graduado em História pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Professor da UNIFOR e da UFC.


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