GEOPOLÍTICA SEM DISFARCES: OS EUA COMO "PLAYER" EXPLÍCITO DE PODER
- Gustavo Bertoche

- 5 de jan.
- 2 min de leitura
Por Gustavo Bertoche*
Em seu famoso discurso de 14 de fevereiro de 2025, J.D. Vance explicou com clareza extrema a visão de mundo que orienta o governo Trump: os EUA abandonam a posição de "polícia do mundo", e consequentemente despem a fantasia de neutralidade; a partir de agora, comportam-se como "player" no jogo geopolítico, de modo explícito e sem subterfúgios, visando somente aos seus próprios interesses nacionais, por meio da diplomacia e das armas. Assim, todos os compromissos multilaterais (com a OTAN e a União Europeia, e especialmente com a ONU) somente serão respeitados quando e se forem vantajosos para os norte-americanos.
Além disso, renova-se a Doutrina Monroe: "America for Americans", as Américas para os norte-americanos. Isto é: a América Latina não é mais somente "zona de influência" dos EUA; a América Latina agora é, sem meias-palavras, o seu "backyard".
Não sou eu que digo isso: é o vice-presidente norte-americano.
Isso explica todos os movimentos de 2025 e 2026 de Trump sobre a América Latina (e a Groenlândia): o ataque à Venezuela (que absolutamente não foi realizado "contra as drogas" ou "em defesa da democracia"), as ameaças explícitas ao México, à Colômbia, a Cuba e à Dinamarca (!), as ameaças veladas ao Brasil (que incluíram não só o tarifaço, mas também aviões militares norte-americanos de espionagem sobrevoando clandestinamente o mar territorial brasileiro várias vezes no ano passado).
Nada disso tem sido levado a sério pelos nossos jornalistas, que continuam supondo líquida, certa e garantida a vida tranquila sob a pax americana.
A imprensa brasileira é uma câmara de eco da imprensa dos EUA: reverbera as suas posições, os seus valores e a sua linguagem. Quem consome os jornais e telejornais brasileiros se alimenta da propaganda política norte-americana, e assimila a linguagem dessa propaganda ao próprio discurso — que, todavia, acredita ser livre e autônomo.
Esse fenômeno tem nome: alienação. A alienação produz dissonância moral e cognitiva. É isso o que leva muitas pessoas bem-intencionadas a sustentarem posições que contradizem os seus valores (como a defesa do genocídio em Gaza) — e, no extremo, que contradizem o seu próprio impulso de sobrevivência (como o desejo de receber uma chuva de bombas norte-americanas).
Daí a importância de jamais assistir ao noticiário na televisão, de não assinar jornais brasileiros, de recusar-se a ler a imprensa nacional. Você deseja se manter informado? Vá direto ao Youtube, aos jornais europeus, árabes, orientais (o que hoje é plenamente possível: o navegador da internet pode traduzir as páginas automaticamente).
Quando passamos a obter nossas idéias de mundo a partir de uma pluralidade de fontes e de perspectivas, nos vacinamos contra a estupidez.
E aprendemos a não mais nos identificarmos com quem por nós só tem desprezo.
Boa semana!
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* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Filosofia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Professor da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR).



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