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ÔMEGA: O DIABO QUE REENCARNOU MULHER

Por Lúcia dos Santos Pimenta e Felipe Gruetzmacher*


Ed Constantine era um assassino que nasceu com o instinto de destruir. Cresceu em um lar amoroso, mas o amor nunca o domesticou. Começou matando animais. Na adolescência, passou para mulheres. Na idade adulta, buscou na magia a justificativa para o seu apetite cruel. Assim, louco e imprevisível, achava que conseguiria fama e fortuna em rituais mágicos envolvendo assassinatos e canibalismo. Ed preferia moças jovens, pois acreditava que matá-las significaria que essa juventude eliminada pudesse se transformar em glórias pessoais. A mocidade roubada seria transmutada em sucesso material. A irracional lógica de Ed tinha contextos e motivações sombrias. Sua última vítima, Jenny Cassini, uma jovem pesquisadora, foi sequestrada e morta com requintes de crueldade. Jenny, linda morena de olhos negros e pele branca, tinha uma vida inteira pela frente. Tinha somente 25 anos. Só que Ed estava no caminho dela e ensinou o real significado da palavra “dor” à pobre moça. No casebre de Ed, no meio de um vasto matagal, ele contemplava o cadáver da moça. Estava prestes a devorá-la quando a polícia apareceu.

— Mãos ao alto! — Gritava o pequeno grupo de oficiais da lei quando ingressou no covil do monstro.

Ed ofereceu resistência. Correu na direção de uma escopeta posicionada num cômodo do minúsculo quarto em que eles estavam. Neste momento, a polícia atirou por puro reflexo. Era o fim de Ed. Já no chão, sentia a vida abandonar o seu corpo, enquanto o sangue escorria por um buraco na barriga. A dor crescia na proporção em que as forças vitais iam decrescendo. A bala, ainda quente, alojada no estômago, castigava o criminoso com o medo da morte e do inferno. Antes de fechar os olhos, ele ouviu os policiais conversando entre si:

— Será que o cadáver dele vai servir para o experimento Ômega? Os cientistas precisam de um corpo orgânico para realizar o teletransporte. Ed seria o perfeito candidato para ir a outra dimensão, já que ele é uma escória sem nenhum relacionamento aqui.

Estaria o assassino tendo alucinações antes da hora derradeira? Os policiais queriam transformá-lo numa cobaia de alguma investigação científica? O que é esse projeto Ômega? Num doloroso estado de semi-sono, ele ouviu palavras estranhas. Ouviu pessoas falando sobre outras dimensões, limbos cósmicos, teletransporte de matéria orgânica e mentes. O devaneio cessou. Bem, de qualquer forma, as forças vitais voltaram para o corpo de Ed. As funções do organismo são reativadas após breves horas em que ele mergulha na escuridão da morte. Ele já não está mais no limiar entre a vida e o inferno. Quando acordou, ele estava numa cama de hospital e não num túmulo. Ed se assusta: ele, agora, tem seios e vagina, assim como uma longa cabeleira negra. Solta um gemido assustado com uma voz fina, macia e feminina. A barriga avantajada de Ed dá espaço para um abdômen definido. Enfermeiras entram na sala correndo e gritando:

— Jenny acordou do coma! Chamem a família.

Atordoado, Ed no corpo de Jenny não sabia o que fazer. Ainda confuso, continuou na cama. Estava cheio de temor. As enfermeiras explicaram:

— Você é Jenny Cassini. Você se acidentou numa batida de carro uns dias atrás. Agora, está de volta do estado comatoso.

Diante do absurdo da situação, Ed, transformado em Jenny, manteve a calma, graças à sua personalidade fria e manipuladora. O contexto provocava alguns questionamentos: Será que esse experimento Ômega não gerou o efeito esperado e só a consciência de Ed foi teletransportada para o corpo de uma Jenny de um mundo paralelo? Talvez, a mente de Ed conseguiu sobreviver ao tiro e se refugiou no íntimo do cérebro de um corpo todo baleado somente para se apoderar de uma nova vida? Será que a história de vida de Ed foi uma ilusão, um pesadelo, da mente de Jenny? Essa nova “Jenny” recebeu todo afeto da família assim que voltou para a casa. Mentiu para todos dizendo que não se lembrava de nada. Era o pretexto perfeito para reaprender tudo sobre a vida da garota e se inserir no cotidiano familiar. Muitas vezes, Ed relutava: nutria um desespero secreto por ser uma mulher.


Já Jenny desta dimensão era uma jovem ex-estudante de programas de pós-graduação que precisou abandonar a vida de cientista quando a bolsa foi cortada. O tempo de desemprego prolongado afastou Jenny de boas oportunidades profissionais. Ela foi transformada de uma promessa acadêmica para um custo, já que não contribuía para a economia. O drama se ampliava e atingia toda a família de Jenny: ter uma filha desempregada impacta severamente o bem-estar social e financeiro dos pais. Além de todo o estigma social, a personalidade de Ed com seus sádicos impulsos homicidas ameaçava ressurgir. Estar no corpo de uma mulher provocava um enorme estranhamento para a consciência de Ed. Sua identidade foi roubada. Sabia matar. Só não sabia aceitar essa nova existência. O cotidiano de matança era deixado para trás, pois o que importava era representar um papel social. Sempre sorria falsamente, apesar de estar quebrado por dentro. Sente falta do corpo masculino. Durante a noite, uma ferida psicológica sempre era reaberta quando Ed tomava banho. Passar a mão e o sabonete naquele belo corpo feminino causava repulsa e nojo. Os momentos de higienização íntima eram os principais instantes em que a alma do assassino sofria. Mesmo assim, em algumas noites, sentia um desejo grotesco quando se banhava. O toque na própria pele era uma blasfêmia. O prazer, uma punição. Durante um banho, numa sexta-feira chuvosa, ele teve um forte orgasmo só de sentir a água tocar o corpo. Depois do prazer, Ed vomitou diversas vezes. O horror corporal chegou a um limite insustentável. Com o passar dos dias, Ed tinha acesso a memórias presentes no cérebro de Jenny, garantindo uma eficaz inclusão na vida social da garota. Dessa forma, o criminoso conseguiu assimilar habilidades indispensáveis para lidar com o cotidiano. Mesmo assim, viver como Jenny era um desgosto. A sociedade inibia e reprimia a violência intrínseca de Ed. Já as poucas oportunidades profissionais barraram o crescimento de Jenny. O talento acadêmico não podia florescer nestes contextos. Em alguns momentos de rara felicidade, Ed até cozinhava para os pais de Jenny. Nesses contextos, ele perguntava-se se ainda sabia usar facas para ceifar vidas inocentes.


Por fim, a mente já toda quebrada pelas circunstâncias sociais sofreu um terrível colapso. Morreu com um ataque cardíaco fulminante provocado pelo desespero e brutais doses de estresse. Essa morte fazia uma nova dúvida nascer: Quem morreu? Jenny ou Ed?



Notas dos Autores:


1) Os registros encontrados no laboratório do projeto Ômega indicam que a consciência de Ed Constantine pode ter se fundido à de Jenny Cassini. A dualidade observada no conto pode ser interpretada como metáfora de uma sociedade que mata sua juventude. O conflito angustiante entre Ed e Jenny traz poderosas reflexões e serve para problematizar a realidade social. Os insights sobre o desemprego de Jenny podem ser aprofundados com o artigo “Escória social? O drama de estudantes de pós-graduação desemprego”, do autor Helton Rafael do Nascimento. O texto cita a importância do governo e outras organizações a apoiar pessoas a conseguirem emprego. Isso pode incluir programas de treinamento profissional, benefícios de desemprego e ações para promover o crescimento econômico. As universidades e as instituições econômicas podem fornecer suporte e recursos para estudantes de pós-graduação (além de bolsa de pesquisa e incentivo).


2) Além da metáfora da mente prisioneira do corpo, podemos pensar a respeito do corpo que devora uma mente estranha, algo exterior. O livro “O homem que se comeu”, de Dante Crowe, explora a narrativa de um homem que devora sua própria carne.


3) A narrativa “O Diabo de outra dimensão” foi criada pelas combinações de ideias entre Lúcia dos Santos Pimenta e Felipe Emílio Gruetzmacher.





* Formado em Gestão Ambiental (SENAI), com especialização em Educação Ambiental (UNIASSELVI). Possui cursos em Marketing Digital, Copywriting, Sustentabilidade e Revisão de Conteúdo para Web, com destaque para formações na Rock University, Universidad de los Andes e Universidad de Chile. É autor do livro “O Relato de um Ciborgue” (Editora Simulacro) e atua com acessibilidade comunicacional, conteúdo inclusivo e marketing verde.

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