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QUANDO O K-POP ENCONTRA A LITERATURA

Atualizado: 17 de dez. de 2023

Um olhar sobre o grupo CIX e as referências à Divina Comédia como alegoria para tratar das aflições da juventude e do amadurecimento.




Por Suzana Nascimento Veiga*


Para mim – como pesquisadora de história social e sua relação com literatura, política e cultura – o K-pop tem sido um campo de exploração muito interessante, e sua linguagem, efetivada em múltiplas formas, um desafio peculiar para entender as possibilidades com as quais ele tensiona a conformação e a resistência à indústria cultural e aborda os problemas sociais. Em artigo anterior para o blog, já falei sobre o tema e hoje gostaria de abordar a influência da literatura no K-pop e seu uso como ferramenta metafórica para abordar problemas e questões atuais para a juventude. Para isso, vou fazer um estudo de caso do uso feito pelo grupo CIX da “Divina Comédia”, de Dante Alighieri.


A primeira questão a ser tratada nessa conexão entre K-pop e literatura é que ela não é recente. O K-pop vem se utilizando largamente de diversas inspirações culturais e artísticas em suas composições, seus conceitos (geralmente os grupos possuem conceitos para cada álbum lançado, singles ou mesmo um conceito geral enquanto grupo) ou lores. Esse último é geralmente um universo pensado pelos membros do grupo e equipe de produção da empresa que define uma temática ou linha à qual o grupo será conectado e que vai perpassar seu visual, suas músicas, os conceitos gerais de seus álbuns, seus MVs (videoclipes) e filmes conceitos produzidos para cada comeback (novas produções do grupo).


Nesse sentido, a literatura tem sido um dos grandes recursos de que os letristas, compositores, produtores e membros dos grupos de K-pop têm se utilizado para comunicar ideias, críticas ou mesmo transmitir suas emoções relacionadas à leitura de determinada obras e as fases e questões da vida.


Dentre esses, o grupo BTS tem sido o mais comumente ligado a obras literárias, e os membros e principais compositores do grupo, Kim Namjoon (RM) e Min Yoongi (Suga), costumam compartilhar, através de lives em seus canais, as obras e os autores que os inspiraram a escrever e compor músicas e conceitos. Nas suas listas de autores encontramos Haruki Murakami, Herman Hesse, Won Pyung Sohn, Carl Gustav Jung, Nietzsche e até mesmo Karl Marx. Analisar a discografia do BTS e suas referências literárias demandaria, por si só, um extenso trabalho de tese, que não é a proposta desse artigo.


Outros grupos como EXO (Jekyll), Seventeen (Don Quixote), SHINee (Sherlock), a solista IU (The red shoes e Zezé), Gain (Paradise Lost), Got7 (Not by the moon), ONEUS (To be or not to be), entre outros, lançaram músicas inspiradas por obras famosas da literatura universal, inclusive incluindo uma obra brasileira, já que “Zezé”, da solista IU, se refere ao personagem da obra “Meu pé de laranja lima”.


Neste artigo em particular, gostaria de trazer um estudo de caso do grupo da 4ª geração do K-pop, o CIX, e sua conexão e referências ao livro “A Divina Comédia”, do autor florentino Dante Alighieri.


O grupo CIX teve sua estreia no ano de 2019, lançado por uma empresa de entretenimento de pequeno porte na indústria, a C9 Entertainment. Apesar do talento inegável e do brilhantismo nas composições, rotinas de dança e talento dos vocalistas e rappers, o grupo não alcança o patamar dos grupos mais disputados que emplacam música nos charts e ganham fandom gigantesco e premiações, devido ao fato de não pertencerem às empresas líderes da indústria em questão.


Para além disso, meu objetivo aqui é o de observar e mostrar a presença da Divina Comédia especialmente no lore do grupo, sem entrar em muitos detalhes que visem aprofundar em uma linha do tempo e, com esse objetivo, usarei apenas três músicas e MVs do grupo: Movie Star, Numb e Jungle, tendo como foco este último que traz maiores referências à obra.

O grupo escolheu trabalhar em suas músicas, conceito e MVs questões que atravessam a juventude sul-coreana e que são facilmente identificáveis em jovens de diversos países, como o Brasil. Temas como bullying, suicídio gerado pela pressão do desempenho escolar, a busca pelos sonhos, famílias desestruturadas e o impacto de todas essas questões na juventude e na saúde mental, para além dos temas mais frequentes do crescimento, amor e amizade.


A jornada do crescimento e amadurecimento dos membros, como representação da juventude coreana e num aspecto mais amplo, da grande maioria dos jovens, é comparado à trajetória de Dante pelo inferno, purgatório e paraíso na Divina Comédia. É uma alegoria sobre a transição dolorosa da infância (época de inocência) para a fase adulta (talvez o paraíso esperado por esses jovens) e a dor de se sentir perdido nesse caminho entre um lugar e outro.


No MV anterior a Jungle, que foi o primeiro do grupo com a música Movie Star, a seguinte frase aparece no início: “lasciate ogne speranza, voi ch’intrate”, “Abandonai toda esperança, vós que aqui entrais”, que é verso do Canto III do Inferno. Tanto a música quanto o MV falam do amor a uma figura feminina, essa “estrela de cinema” inalcançável, que aparece mais como uma invocação abstrata que como uma presença concreta. Podemos perceber que a “movie Star” do CIX tem ligações claras com a própria “estrela” ou “anjo” inalcançável de Dante, Beatriz.


A musa de Dante, usada de forma metafórica pelo grupo como “movie star”, pode representar tanto o amor que traz luz na confusão da juventude e no sentimento de “estar perdido” que é reforçado nas letras de “Movie Star” e “Jungle”, bem como pode se referir de forma mais ampla à fama almejada e à salvação representada pelo sucesso no K-pop, enquanto o “Inferno e o Purgatório” podem perfeitamente representar a entrada nessa indústria, que representa “entregar a alma” em contratos que exigem treinamento com horários abusivos, rotinas cansativas, dietas e modificações corporais que muitas empresas tornam exigência aos artistas, bem como todas as dificuldades enfrentadas por grupos de empresas pequenas, frente às gigantes do K-pop que encontram diversos meios de esmagar e tornar invisível o trabalho dos outros artistas.


Após “Movie Star”, o “meio do caminho” que conecta ela a “Jungle” são a música e o videoclipe de “Numb”, que mostra os membros do grupo enfrentando diversos problemas pessoais e sociais e o “efeito borboleta”, também referenciado pelo grupo como um encadeamento de pequenos acontecimentos que podem causar grandes danos. Nos “Story films”, curtas lançados pelo grupo como prequels do MV, conseguimos ver a explicação das histórias de cada personagem/membro do grupo.


No Episódio 1: Butterfly effect, podemos ver JinYoung pressionando seu jovem amigo YongHee para que ele pare de se automutilar. Na concepção do personagem, ele acredita que o amigo faz isso apenas por não ter boas notas na escola e o culpa, abandonando-o à própria sorte. Mais tarde, o destino de JinYoung, personagem no “inferno de Dante”, é marcado por essa traição com o amigo que está vulnerável e que acaba se entregando de vez à depressão, pois, como vemos mais adiante, ele é vítima de bullying.


O Episódio 2: Bystander, mostra o rapper BX presenciando YongHee sendo agredido por valentões e apenas observado e depois indo embora. A preocupação do grupo em abordar os danos do bullying à saúde mental dos jovens e de chamar amigos e comunidade escolar à responsabilidade se mostra fundamental, tendo em vista os altos índices de suicídio entre jovens na Coréia do sul, e a falta de engajamento, por parte dos colegas de escola, na defesa dos jovens que são vítimas. O que evidencia a mentalidade individualista típica das sociedades ultracapitalistas onde vale a máxima “isso não é problema meu”.


No Episódio 3: Self Slaughter, acompanhamos YongHee tirar a própria vida após sofrer sucessivamente com o bullying. O tema da pressão escolar sobre os jovens e o bullying atravessam os trabalhos do grupo e, como falado acima, são dois temas fundamentais para entender a juventude coreana hoje e com reflexos no próprio K-pop. No ano de 2021, o suicídio na Coreia do Sul foi a quinta principal causa de morte no país e, desde o ano de 2011, tem sido a principal causa de morte de jovens entre os 10 e os 24 anos, segundo a base de dados Statista, como noticiado pelo Korea Herald na reportagem: “South Korea’s young suicides rise despite overall drop”. Além disso, o suicídio tem representado um dos fatores de morte de jovens idols, devido a pressões e problemas envolvendo diversos tipos de exploração desses jovens dentro da indústria musical. Não é por acaso, então, que esse tema é abordado pelo CIX em sua metáfora para o “Inferno” de Dante.


No encadeamento de eventos desse “efeito borboleta” temos o Episódio 4: Abrupt Absence. Nesse filme somos apresentados à mãe de YongHee que, em seu carro a caminho de casa, recebe uma mensagem de adeus do filho antes dele tirar a própria vida. Na pressa por chegar até o filho, ela atropela a mãe do 4º membro do grupo SeungHun, que estava indo buscar o filho no ensaio. SeungHun, que esperava pela mãe, vê toda a cena do atropelamento e morte da mesma e somos conduzidos ao último dos filmes, que encerra com o 5º membro do grupo.


O Episódio 5: Broken Family, que é o último curta, mostra HyunSuk em uma troca de mensagens com o pai, pelo celular, enquanto espera por ele em uma parada de ônibus. Ele pergunta se está tudo bem e se o pai está vindo e percebe que o pai o enganou e descumpriu a promessa de ir encontrá-lo. Atrás dele, um cartaz de filme onde se lê um trecho do Canto VII do Inferno de Dante: “Una palude fa, ch’ha nome Stige, Questo tristo ruscel, quando è disceso Al piè delle maligne piagge grige” (Atravessamos o riacho e acompanhamos suas encostas através de um caminho estreito, até que chegamos finalmente às margens de um vasto pântano chamado Estige, onde o riacho desaguava).


Cada um dos filmes indica os pecados pelos quais os jovens membros do CIX serão condenados e, assim, entrarão nos círculos do inferno de Dante. No MV de Jungle, podemos ver cada um deles no respectivo círculos, como veremos mais adiante.


Figura 1: Cena de abertura do Mv de "jungle" com frase da Divina Comédia Fonte: Youtube


A sequência de abertura do MV mostra um trecho da Divina Comédia novamente em Latim: “Quando eu me encontrava na metade do caminho de nossa vida, me vi perdido em uma selva escura, e a minha vida não mais seguia o caminho certo”. O título da música já faz referência a “Selva”, “Jungle”, em que Dante diz se encontrar no “meio da vida”. Para o grupo, que explora o tema do crescimento, a juventude é esse espaço intermediário, onde não se é mais criança, nem se tornou adulto, e a juventude e o amadurecimento são retratados como esta “selva escura” cheia de perigos e tentações, na qual se está perdido.


O recurso alegórico do grupo se constrói de forma bastante sofisticada, utilizando os trechos da obra nas letras e títulos das canções, mas também a atualizando e a adaptando a uma realidade contemporânea onde os “perigos e tentações” não são os mesmos da Florença medieval, tendo em vista o contexto cultural distinto da juventude italiana daquele da juventude sul-coreana. Assim, para mostrar o dano de cada ação das vidas desses jovens, os acompanhamos no MV de Jungle atormentados por seus erros, cada um preso a um circulo do inferno.


JinYoung está preso ao espaço congelante do 9º círculo do inferno, no Caína destinado aos traidores de familiares ou amigos. Tendo abandonado YongHee no momento de sua maior depressão, ele teria virado as costas a uma pessoa que necessitava de apoio e ajuda. Sua traição causou o efeito borboleta que desencadeou a morte de YongHee e as outras tragédias que conectam a vida dos outros 4 membros.


Figura 2: JinYoung no 9º Cículo do Inferno - Fonte: Youtube


Em seguida, BX, que viu o colega ser atacado por valentões e não se moveu para ajudar, aparece no vestíbulo do Inferno, local destinado aos indecisos e omissos, onde ele é torturado tendo que correr atrás de uma bandeira rapidamente, enquanto é atacado continuamente nas pernas e corpo.


Figura 3: BX no Vestíbulo do Inferno Fonte: Youtube


YongHee, que causou a própria morte está preso no sétimo círculo do inferno, para onde vão os violentes e está preso no Vale da floresta dos suicidas, onde se torna uma árvore constantemente devorada por harpias, o que causa intensa dor, eternamente.


Figura 4: YongHee no 7º Círculo do Inferno Fonte: Youtube


SeungHun está também no sétimo círculo, mas no terceiro vale, daqueles que são hereges, pecaram ou duvidaram de Deus, também associado àqueles que são violentos contra a natureza do ser. O fato de, na linha narrativa, ele ter sido o que viu a mãe morrer atropelada quando foi buscá-lo depois do ensaio de dança ter causado não apenas que ele duvidasse ou se rebelasse contra “um poder maior”, mas que abandonasse sua arte, a dança.


Figura 5: SeungHun no 7º Cículo no vale da Ira contra Deus. Fonte: Youtube


Por último, HyunSuk, por sua vez, está navegando em um barco no Rio Estige. Dante posiciona este rio no quinto círculo, que é o dos raivosos, irados e rancorosos. A posição de HyunSuk neste círculo demonstra o teor corrosivo do abandono paterno e da “família destruída” na formação do jovem.


Figura 6: HyunSuk no 5º Círculo do Inferno Fonte: Youtube


Além do uso magistral da alegoria do Inferno para falar sobre problemas que atravessam a juventude e da renovação do olhar sobre uma obra clássica da literatura universal, fundindo-a a um elemento cultural novo como o K-pop, ainda chamo atenção para a beleza e a criatividade da cinematografia do MV de Jungle ao “recriar” os espaços do inferno de Dante. O videoclipe é um deleite visual e o uso de referências clássicas é perceptível nos frames que destacarei abaixo:


Figura 7: YongHee no sétimo círculo Fonte: Youtube


Figura 8: Ilustração de Gustav Doré para a Floresta dos Suicidas (7º círculo) Fonte: Google


Figura 9: Travessia do rio Estige Fonte: Youtube


Figura 10: Travessia do rio Estige por August Doré Fonte: Google


Para além dessas e outras cenas, o figurino central do clipe utilizou as cores vermelha e pretas, atribuídas à clássica imagem de Dante de Alighieri pintada por Dominico de Michelino.


Figura 11: Figurino central do MV de Jungle Fonte: Youtube


Figura 12: Dante Alighieri por Dominico de Michelino Fonte: Wikipedia


Para finalizar, acredito, como já afirmei antes, que o K-pop se mostra um campo de pesquisa interessante e profícuo. Os usos feitos pelos grupos de referências a obras literárias, sejam nas letras das músicas, nos seus conceitos ou mesmo em indicar a obra como referência da produção é um amplo espaço de debate e reflexões.


O K-pop tem se destacado e ganhado fãs ao redor do mundo pela qualidade e cuidado em suas produções e no perfeccionismo empregado em cada etapa da concepção de suas obras que envolvem inúmeras mídias. Olhando para conceitos como este do grupo CIX, que buscou não apenas reinterpretar uma obra secular, mas usá-la, como foi seu propósito inicial ao ser escrita por Dante, para tratar de problemas contemporâneos da juventude e da sociedade, seja na Itália medieval ou na Coréia do Sul, bem como em diversas partes do mundo. Abordando, assim, temas como pressões de rendimento escolar, saúde mental, bullying, suicídio e as mudanças decorrentes do processo de amadurecimento, o grupo não apenas produziu uma obra interessante e esteticamente bela, mas promoveu a renovação do olhar sobre a literatura, a arte e a cultura em sua própria essência, a da mudança, transformação e do impacto social.


Referências:


ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia. São Paulo; Editora Martin Claret, 2021.

South Korea’s young suicides rise despite overall drop: https://www.koreaherald.com/view.php?ud=20220614000856

MVs CIX:

Movie Star:

Numb:

Jungle:


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