VIDA LONGA AO CONTROLE REMOTO: O "BBB" COMO MEIO DE ENTENDER O SER HUMANO
- Georgino Jorge de Souza Neto

- 15 de jan.
- 2 min de leitura
Por Georgino Jorge de Souza Neto*
O Big Brother Brasil é esse curioso experimento sociológico que prova, ano após ano, que o confinamento não é apenas físico, mas sobretudo simbólico. Pessoas trancadas numa casa, vigiadas por câmeras, competindo por atenção, afeto e prêmios, enquanto milhões do lado de fora discutem com fervor quem lava a louça com mais virtude revolucionária ou quem traiu a amizade no intervalo comercial.
Confesso: não assisto. Não por heroísmo intelectual, nem por falsa superioridade moral. Apenas porque não encontro ali nada que amplie o repertório, refine o pensamento ou provoque qualquer espécie de espanto estético. O programa se apresenta como entretenimento, mas funciona como um espelho um tanto cruel da nossa época: conflitos simplificados, emoções hiperbolizadas e debates profundos resolvidos em threads de rede social com emojis indignados.
Ainda assim, sejamos justos. Quem quiser assistir, que assista. Eu, na condição de alguém que estuda o lazer, tenho de admitir e respeitar as escolhas que cada um faz com o seu tempo disponível, esse bem escasso, precioso e irremediavelmente finito. O mundo já é pesado demais para negar às pessoas o direito de desligar o cérebro por algumas horas e se dedicar à análise minuciosa da estratégia de jogo de alguém que discute por causa de uma banana. Há quem leia Dostoiévski, há quem veja o BBB; ambos, no fundo, estão tentando entender o ser humano, apenas por métodos ligeiramente diferentes.
O problema não é o programa existir. O problema é quando ele passa a ocupar o lugar de tudo: da conversa, da política, da reflexão, da vida. Quando o paredão substitui o debate público e o voto no confessionário parece mais emocionante que o voto na urna. Aí, talvez, não seja mais entretenimento, mas sintoma.
No mais, vida longa ao controle remoto. Quem gosta, que veja. Quem não gosta, que mude de canal. Afinal, a verdadeira liberdade, essa sim rara, ainda é poder escolher o que não assistir sem precisar anunciar isso como um ato de resistência cultural.
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* Escritor Profissional e Pesquisador. Doutor e Mestre em Estudos do Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em Educação




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