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SOBRE A INVASÃO DOS EUA À VENEZUELA: ENTRE O APLAUSO AO XERIFE E O MEDO DE SER O PRÓXIMO SUSPEITO

Atualizado: 5 de jan.

Por Georgino Jorge de Souza Neto*


Há algo de profundamente didático — quase pedagógico — no modo como os Estados Unidos exercitam sua noção de justiça internacional: primeiro apontam o revólver, depois escrevem a acusação, e por fim explicam ao mundo que se trata de um gesto civilizatório. A invasão da Venezuela, com direito à prisão e sequestro do presidente em exercício, sob o argumento tão elástico quanto conveniente de narcoterrorismo, é apenas mais um capítulo dessa literatura fantástica que mistura faroeste, thriller jurídico e messianismo geopolítico.


A acusação, como sempre, vem pronta, embrulhada em palavras grandes e provas pequenas. Narcoterrorismo: um conceito suficientemente nebuloso para caber qualquer inimigo que se recuse a ajoelhar diante do dólar. Não é preciso demonstrar, basta afirmar. Afinal, quando o juiz é o mesmo que empunha a arma, o contraditório vira um detalhe folclórico.


No centro do espetáculo está Donald Trump, personagem que governa como quem confunde diplomacia com reality show. Trump não se vê como presidente de uma república, mas como xerife do mundo — aquele que entra na cidade atirando, prende o suspeito antes do julgamento e ainda espera aplausos da plateia global por “manter a ordem”. O detalhe incômodo é que o mundo não é um saloon, e o direito internacional não foi escrito por roteiristas de Hollywood.

O sequestro de um presidente estrangeiro, sem guerra declarada, sem mandato internacional, sem o mínimo respeito à soberania, seria chamada de crime de guerra se praticada por qualquer outro país. Mas, quando parte de Washington, ganha o eufemismo nobre de “operação de segurança”. É a velha regra: quando o império faz, chama-se estabilidade; quando o outro reage, chama-se ameaça.


No fundo, o que incomoda não é o suposto crime, mas o mau exemplo. Um país que insiste em decidir seu próprio destino, mesmo de forma caótica ou contraditória, representa uma heresia intolerável. Democracia, afinal, é um valor sagrado — desde que produza governos alinhados, dóceis e economicamente previsíveis.


Trump, com seu chapéu imaginário e sua estrela de lata, encarna a versão pós-moderna do colonialismo: não precisa mais de bandeiras fincadas no chão, basta um tweet, uma acusação genérica e alguns fuzis em nome da liberdade. E assim seguimos, assistindo a mais uma aula prática de como o poder se disfarça de moral, a força se vende como justiça e o arbítrio se apresenta, com incrível cara de pau, como defesa da lei.


Convém apenas acrescentar um detalhe aparentemente secundário, mas curiosamente recorrente na história dessas cruzadas morais: a Venezuela nada em petróleo. Muito petróleo. Reservas abundantes, estratégicas, teimosamente localizadas sob um governo que insiste em não entregar as chaves do cofre sem resistência. Aí, como por encanto, a ética internacional desperta, os radares da justiça global se acendem e o discurso da segurança ganha uma urgência quase mística.


Não se trata, claro, de interesse econômico — jamais. É tudo uma coincidência geológica. O fato de que quase todos os países “libertados” pelo xerife global sentem cheiro de petróleo é apenas um capricho da crosta terrestre. O barril, nesse roteiro, não é motivo; é figurante. Ainda que, curiosamente, esteja sempre no centro da cena, iluminado, protegido e pronto para ser “estabilizado”.


Assim, o narcoterrorismo funciona como a luva jurídica perfeita para a mão invisível do mercado: suja o inimigo, limpa a consciência e garante que o petróleo continue fluindo — de preferência na direção certa. Afinal, no faroeste contemporâneo, a lei até pode ser flexível, mas o interesse energético é inegociável.


O resto do mundo, reduzido a figurante, só pode escolher entre aplaudir o xerife — ou torcer para nunca ser o próximo “suspeito”.





* Escritor Profissional e Pesquisador. Doutor e Mestre em Estudos do Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em Educação Física pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). Professor da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes).

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