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A NEUROSE DA RAZÃO E A NECROSE DA DEMOCRACIA: O ESPETÁCULO DE TRUMP É PURO STORYTELLING?

Reflexões sobre o sequestro de Maduro por Trump e a opinião pública.


Por Alexandre Gossn*


Será que estamos realmente vivendo o crepúsculo da ordem democrática ou somos apenas uma geração egocêntrica, viciada em dopamina de baixa qualidade, que precisa acreditar que todo dia é “histórico” para suportar o tédio da existência? A dúvida é legítima, mas a resposta, infelizmente, parece pender para o abismo. O que assistimos no dia 03 de janeiro, na tensão fabricada por Washington, ao invadir e sequestrar um presidente de um Estado soberano em Caracas, não é apenas um teatro diplomático; é a manifestação clínica de um sistema comunicacional em estado de Neurose — ansioso, pulsional e imagético — que conduz a ordem mundial e os valores democráticos à Necrose: a morte do tecido social, da verdade factual e do próprio sujeito humano como suposto indivíduo liberal e detentor de direitos humanos inalienáveis.


Donald Trump, com sua ameaça de sequestrar um chefe de Estado estrangeiro, não é a causa dessa patologia, embora seu narcisismo o faça desejar sê-lo. Ele é o sintoma mais agudo, o avatar de uma “razão desumana” que se organiza pela fusão da técnica com o capital. Ele opera em um mundo em que a política deixou de ser a arte do possível para se tornar a gestão do impossível por meio do espetáculo.


1 A Superindústria do Imaginário e a Cortina de Fumaça e Sedução


Para compreendermos o fenômeno, precisamos abandonar a ingenuidade de olhar apenas para a geopolítica clássica. O movimento de Trump obedece, antes de tudo, a uma lógica doméstica de sobrevivência. A gritaria em torno de Maduro, transformada em um roteiro de ação hollywoodiano, funciona como uma cortina de fumaça densa, ruidosa e insinuante.


Ao estetizar a violência e evocar a mitologia da “Jornada do Herói” — milenar e com uma função totalmente distinta daquela implementada pelos EUA, onde estes são sempre os mocinhos levando a tocha da liberdade —, Trump silencia o debate legítimo sobre os fracassos internos de sua gestão. Aqui, a jornada do herói perde o caráter mitológico e é acionada como simples ferramenta política e ideológica: cristalizar a teoria do destino manifesto, que faz parte do DNA dos EUA, e, ao mesmo tempo, reatualizar a Doutrina Monroe, produzida e implementada agora com updates para melhor funcionamento no século XXI.


Enquanto as redes sociais entram em convulsão debatendo a audácia do “sequestro”, ninguém fala sobre o fracasso da guerra tarifária, o aumento da desigualdade social, a queda da expectativa de vida do cidadão estadunidense ou a precarização do trabalho. Um chinês já vive mais do que um norte-americano; em algumas províncias da Índia, idem. Não é pouco. Sintoma de uma sociedade decadente? Mas nada disso importa ao MAGA. Trump produz o que chamamos de factoides de alta intensidade: ruídos ensurdecedores que ocupam todo o espectro da atenção pública.


Essa tática não é nova, mas o meio é. Estamos imersos no que Eugênio Bucci define como a “Superindústria do Imaginário”, uma máquina vertebrada pela técnica e animada pelo capital que não vende mais produtos, mas “fisga o desejo, inebria a mente e aprisiona a libido”. Trump não precisa de lógica; ele precisa de libido. Ele oferece ao público não um plano de governo, mas uma descarga elétrica emocional.


2 O Fim da Galáxia de Gutenberg e a Estética da Força


Durante séculos, a política ocidental operou sob a lógica da palavra escrita, racional e articulada — herança do Iluminismo. Era o domínio da “Verdade”, com V maiúsculo. Era o mundo em que o jornalismo clássico nasceu e se desenvolveu; afinal, não existe “fake” sem “news”. A verdade nem sempre era atingida, mas sempre era atingível. O jornalismo operava dentro de um prisma rousseauniano, isto é, não sob uma utopia, mas no interior de uma busca pela perfectibilidade. Esse mundo acabou.


A nova ordem abraça uma plataforma de comunicação tribal, na qual a reflexão cede lugar à reação visceral. Para que buscar uma verdade com V maiúsculo se cada líder forte, bilionário ou dono de redes sociais pode produzir suas “próprias verdades”? Nesse ecossistema, a informação não informa; ela “desinforma (e seduz)”. Vivemos cercados por telas que revestem uma nova Caverna de Platão, onde a ignorância não é a ausência de saber, mas uma “superabundância de estímulos sígnicos” que congestionam os canais. Estamos diante da cegueira de Saramago: não a das trevas pela ausência de luz, mas a branca, leitosa e ofuscante, que cega pelo excesso de fótons. Trump domina essa linguagem. Ele sabe que, na era digital, a fake news é uma fraude de forma, mas a desinformação é uma arma de escala industrial, desenhada com dolo para lesar direitos e obter vantagens.


Ao adotar uma postura belicosa e imprevisível, Trump satisfaz a pulsão de morte de uma sociedade que, entediada com a paz burocrática, flerta com a estética fascista da força bruta. É a política reduzida a meme, onde a complexidade é humilhada pela eficácia do choque.


3 O Lebensraum Americano e a Armadilha de Tucídides


E se a propaganda contemporânea bebeu do marketing fascista, como recorda Eugênio Bucci em diversos textos e conferências, e o mercado pede liberdade, o que ele anseia mesmo é ver-se livre da política. O que poderia ser melhor do que eleger líderes que pregam e praticam justamente a antimatéria da política? O que colocar no lugar da burocrática e insossa política tradicional, com suas soluções lentas, modorrentas e negociadas? Um show. Melhor ainda: um reality show! Despido o espetáculo de suas luzes bregas de neon, o que resta é a velha e fria realpolitik. Sempre. E, se não estiver nas mãos da sociedade civil em prol do interesse público, estará nas mãos do mercado. Ou, para além: dos feudos… dos tecnofeudos. Estamos falando das Big Techs, do Complexo Industrial Militar, ok? O pretexto de “restaurar a democracia” na Venezuela é uma farsa que não resiste a um simples olhar sobre a amizade de Washington com as monarquias absolutistas do Golfo.


Os Estados Unidos, conscientes (ou não) de que caíram na Armadilha de Tucídides — o momento perigoso em que uma potência hegemônica se vê ameaçada pela ascensão inevitável de outra, a China —, movem-se para garantir sua sobrevivência física. Não se trata mais apenas de hegemonia ideológica, mas de recursos. A cobiça explícita sobre a Venezuela, o Panamá ou a Groenlândia ecoa, de forma inquietante, o conceito de Lebensraum (espaço vital) invocado no século passado.


Se antes o “espaço vital” alemão mirava as terras eslavas, o espaço vital americano mira agora as reservas energéticas e minerais do seu “quintal” hemisférico. Buscam petróleo pesado, terras raras e a exclusão da influência chinesa. É a Doutrina Monroe reeditada para o século XXI, despida de qualquer pudor diplomático: o brandir desesperado de armas de quem sabe que enfrenta uma nação que já é a maior parceira comercial de cerca de três quartos do globo.


4 A Necrose dos Direitos Humanos e Valores Democráticos


Mas o aspecto mais trágico dessa neurose global não é geopolítico; é antropológico. Edgar Morin nos alertou — ainda no século XX, em um ensaio seminal — sobre a necrose dos tecidos sociais, e Bucci nos oferece o diagnóstico final: o humano tornou-se irrelevante.


O capitalismo contemporâneo mudou.


Ele já não explora apenas o suor ou a ação física do trabalhador, como na Revolução Industrial; explora o “engajamento pulsional” e a alma. Nessa equação, a humanidade, que para Kant deveria ser sempre um fim, viu-se reduzida a um “aparelho de obsolescência programada”. Nas planilhas desse novo poder, a maioria dos habitantes do planeta recebe uma rubrica ainda menos digna do que a de “exército de reserva”: tornaram-se “entulho”, “irrelevância material” e “irrelevância metafísica”.


Hannah Arendt afirmava que a “verdade factual” constitui a textura do domínio político. Daí também a importância do jornalismo. Veja: esta não é uma defesa pueril e inconsequente do jornalismo, mas o fato é que o jornalismo profissional funcionava como uma vacina contra a tendência desvirtuante do poder de agir como uma energia gravitacional, capaz de distorcer tudo ao redor — inclusive os fatos e a própria verdade —, como bem metaforizou Yuval Harari em Homo Deus. Quando essa textura social fenomênica é rasgada pela desinformação e pelo storytelling alucinado de líderes como Trump, a política morre. O que sobra é apenas a gestão da barbárie.


Ao se contemplar o sequestro de Nicolás Maduro — um líder também autoritário e populista — em total violação ao Direito Internacional, enquanto grande parte da população aplaude, não estamos diante apenas de um conflito entre nações. A exposição do “bandido”, em uma estética que mescla o western, o cinema Marvel e as HQs, curva-se inteiramente a uma lógica libidinosa de mercado. O público goza com a imagem. O feed seduz, a curtida engaja, a multidão chega ao clímax. A sociedade da sedução de Gilles Lipovetsky se ergue, ainda que exausta, como a sociedade do cansaço de Byung-Chul Han. Estamos viciados em dopamina barata enquanto assistimos à gradual necrose da razão pública. O storytelling de Trump pode ser ficcional, mas os cadáveres que essa nova ordem produzirá — seja pela fome, pela guerra ou pelo abandono — serão reais.


Reza a lenda que Odin aceitou arrancar um olho para beber a água do poço de Mimir, pois, segundo o sábio nórdico, enxergar valia mais do que ver. José Saramago, em "Ensaio sobre a Lucidez", e, de forma ainda mais contundente, em "Ensaio sobre a Cegueira" (1995), atualiza o mito ao expor o temor de que percamos a capacidade de contemplar não pela falta de luz, mas pelo excesso de claridade. Talvez o destino seja ainda pior: passamos a aplaudir qualquer migalha de estímulo que nos ofereçam, o que significa que muito pouco nos seduz e quase nada nos apraz. É o cenário perfeito para que a neurose seja o espetáculo e a necrose se torne o silêncio que sobrevém depois que os aplausos expirarem.





* Escritor, Pesquisador e Doutorando em Estudos Contemporâneos pelo Instituto de Investigação Interdisciplinar (UC). Estuda os autoritarismos contemporâneos há anos pela Universidade de Coimbra; Investigador Colaborador do Grupo de Pesquisas Europeísmos, Atlanticidade e Mundialização; Mestre em Direito (UNISANTOS); Advogado, Comentarista pela TV Cultural Litoral e Rádio Jovem Pan Litoral; autor da newsletter “Um olhar das Ciências Sociais”; publicou "Santo Adamastor", "Chapados de Cloroquina: a morte da empatia", "Fascismo Pandêmico: como uma ideologia de ódio viraliza", entre outros.

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