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"EM NOME DO BRASIL, OFERECE-SE O BRASIL": EXEGESE DE UMA PROPOSTA COLONIAL

Por Georgino Jorge de Souza Neto*


Existem declarações que dispensam réplica e pedem exegese. A recente sugestão do deputado Nikolas Ferreira, convocando, com a serenidade de quem pede um café numa birosca de esquina, a invasão americana do Brasil com direito ao sequestro do presidente Lula, não é apenas um desvario retórico, senão um pequeno tratado de anti-soberania, desses que fariam corar até os manuais mais cínicos da Guerra Fria.


A ideia é engenhosa em sua simplicidade colonial: quando o voto não agrada, chama-se o xerife. A democracia vira condomínio em que, insatisfeito com a assembleia, o morador telefona para o antigo proprietário pedindo despejo à bala. Nada mais “patriótico” do que terceirizar a própria Constituição, entregando-a embrulhada em papel celofane à primeira potência disposta a confundir “liberdade” com porta-aviões.


O argumento, claro, vem temperado com aquele humanismo de ocasião que só aparece quando convém: sequestrar um presidente eleito seria, pasmem, um ato civilizatório corretivo. A pedagogia do porrete, versão PowerPoint, ensinaria ao país a virtude democrática por meio de tanques. Platão, que já desconfiava de sofistas, talvez acrescentasse um apêndice à República: “quando faltar argumento, invoque o Império”.


Tem também a delicadeza semântica. Não se fala em golpe, palavra rude, pouco instagramável. Prefere-se “intervenção”, “ajuda”, “libertação”. O léxico é o mesmo que costuma acompanhar crateras, exílios e relatórios de direitos humanos com páginas faltando. É o milagre da linguagem: muda-se o nome e o desastre vira missão.


No fundo, a proposta é de uma coerência admirável: quem desconfia do povo pede a tutela estrangeira ou quem desacredita do voto sonha com o helicóptero. A soberania, esse detalhe incômodo, é tratada como item opcional, algo entre o manual do micro-ondas e o folheto de milhas.


Resta agradecer a franqueza. Ao sugerir o sequestro presidencial por tropas alheias, o deputado presta um serviço didático: revela que, para alguns, a democracia é aceitável desde que obedeça, e a pátria é amável desde que subalugada. Ironias da história: em nome da liberdade, pede-se o cárcere; em nome do Brasil, oferece-se o Brasil.





* Escritor Profissional e Pesquisador. Doutor e Mestre em Estudos do Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em Educação Física pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). Professor da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes).

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