AIMÉ CÉSAIRE E O NAZISMO COLONIAL: O ESPELHO QUE A EUROPA QUEBROU
- Williem da Silva Barreto Júnior

- 15 de jan.
- 3 min de leitura
Por Williem da Silva Barreto Júnior*
A compreensão da obra Discurso sobre o colonialismo, de Aimé Césaire, exige uma imersão nos complexos conceitos de modernidade, colonialismo e nas correntes do pensamento pós-colonial e decolonial, das quais o autor martinicano é um precursor fundamental.

O texto inicia seu percurso teórico adotando a perspectiva do filósofo Enrique Dussel, que situa o nascimento da modernidade não como um evento puramente europeu, mas como um processo deflagrado em 1492, com a chegada de Cristóvão Colombo à América. Esse marco histórico não apenas reconfigura o mapa-múndi, mas também consagra a Europa do Norte como hegemônica, deslocando civilizações outrora avançadas, como os impérios islâmicos e turcos, para uma posição marginal.
Essa ascensão da modernidade está intrinsecamente ligada ao advento do capitalismo mercantil e ao fortalecimento da classe burguesa. Nesse cenário, o ideal de humanidade é redefinido pelo arquétipo do homem europeu, branco, masculino, livre e racional, capaz de dominar a natureza. Qualquer forma de vida ou cultura que se desvie desse padrão é categorizada como "o outro", um sujeito "subdesenvolvido" que, por sua suposta inferioridade, necessita da intervenção e tutela europeia para alcançar a "evolução".
A colonização, portanto, transcende a mera dominação territorial e econômica, operando um profundo "epistemicídio", ou o silenciamento e a destruição sistemática de saberes, culturas, religiões e modos de vida dos povos subjugados. Esse processo gera uma herança duradoura, a "colonialidade", uma estrutura de poder que perpetua hierarquias e dominações, mesmo após as independências políticas do século XX.
É contra essa estrutura que Aimé Césaire ergue sua voz em Discurso sobre o colonialismo, uma obra que se configura como um veemente ato de acusação e, ao mesmo tempo, um grito de libertação. Césaire diagnostica a civilização europeia como "enferma" e "indefensável", pois, ao praticar e justificar a barbárie colonial, ela se mostra incapaz de resolver os problemas cruciais que ela própria criou: a questão do proletariado em seu interior e a questão colonial em suas periferias. A Europa, ao fechar os olhos para a violência e a desumanização nas colônias, não apenas condena o colonizado, mas também degrada a si mesma, infectando-se moralmente.
Um dos argumentos mais contundentes de Césaire é a comparação entre o colonialismo e o nazismo, um "efeito boomerangue" da violência. Para o autor, o nazismo não foi uma anomalia histórica, mas a aplicação, em solo europeu e contra o homem branco, das mesmas técnicas de opressão, desumanização e barbárie que a Europa já havia praticado por séculos nas suas colônias.
A indignação europeia com Hitler, portanto, revelava uma hipocrisia profunda: a violência era aceitável e até justificada enquanto dirigida aos povos não europeus, tornando-se intolerável apenas quando atingia a própria civilização ocidental. Césaire ressalta que essa complacência anterior com a violência colonial tornou a Europa cúmplice do nazismo.
A crítica de Césaire estende-se à intelectualidade burguesa europeia, que, com seus discursos, forneceu o arcabouço ideológico para a manutenção da dominação. Ele desmascara pensadores como Albert Sarraut e Ernest Renan, cujas ideias, que justificavam a pilhagem de riquezas pela suposta incapacidade dos nativos ou defendiam a ampliação das desigualdades para manter privilégios, já antecipavam a lógica nazista.
Césaire também refuta autores como Carl Siger, que via as colônias como "válvulas de escape" para a incivilidade europeia, e Mannoni, que atribuía a inferioridade dos povos não europeus a questões psicológicas e a uma suposta "psicologia da dependência". Para Césaire, esses discursos são meras falácias que mascaram a brutalidade e a violência inerentes ao projeto colonial.
O processo de colonização, na visão de Césaire, não gera progresso, mas sim uma "coisificação" do colonizado, transformando-o em mero instrumento de trabalho, um objeto servil, desprovido de cultura e humanidade. Essa "dádiva seletiva" europeia negava aos povos colonizados qualquer benefício real, deixando-os à margem e esvaziados de si mesmos, preenchidos apenas por sentimentos de medo e inferioridade. Césaire reverte a lógica tradicional, impingindo ao continente europeu a pecha de "selvagem" por sua sistemática violação da dignidade humana.
Ao valorizar as civilizações ancestrais negras e promover um movimento de reconhecimento do passado, Césaire convoca uma irmandade entre os povos oprimidos, transcendendo a noção biológica de raça para unir aqueles que compartilham uma experiência comum de violência e marginalização. Sua obra é um potente chamado à tomada de consciência, à problematização da escravidão e à negação do caráter exótico imposto pelo colonizador, abrindo caminho para a construção de identidades autônomas, livres das amarras da colonialidade e da dependência imposta pela Europa.
Referência:
CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo. Feira de Santana: Editorial Adandé, 2024.
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* Escritor, Advogado, Professor e Pesquisador. Doutor (UNILASALLE/RS), Mestre (UNIFG/BA) e Graduado (UESB/BA) em Direito.



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