O MACHISMO COMO DISPOSITIVO BIOCULTURAL E A URGÊNCIA DA REPRESONTOLOGIA
- Helton Rafael Nascimento

- 9 de jan.
- 2 min de leitura
Atualizado: 17 de jan.
Por Helton Rafael Nascimento*
A compreensão do machismo contemporâneo exige ultrapassar a definição clássica de "construção social". Diante da forma como os corpos são avaliados e descartados no ambiente digital, percebe-se que o machismo opera, na verdade, como um dispositivo biocultural. Ele não se limita a normas externas de conduta; ele habita as memórias afetivas, os padrões de percepção e as respostas emocionais, moldando a própria maneira como o indivíduo aprende a existir em relação ao outro. Para decifrar essa engrenagem, a Represontologia surge como uma ferramenta que nos dá subsídio para entender como o mundo (aqui) passa a existir para nós por meio das representações sob três eixos: o epistemológico (o conhecimento do real via símbolos), o ontológico (a produção do que é tido como "natural") e o axiológico (a carga de valores que hierarquiza e valida existências).
Através dessa lente, podemos observar que o machismo não se manifesta apenas pela violência física ou pela misoginia direta contra mulheres, mas também se reorganiza simbolicamente para punir homens que escapam da norma heterossexual. Corpos dissidentes são frequentemente reduzidos ao plano do estigma, onde a violência atua no nível do sentido, negando a esses sujeitos a possibilidade de existir com dignidade. Nas plataformas digitais, essa dinâmica é intensificada pela lógica da visibilidade e do julgamento imediato. A cultura do cancelamento, por exemplo, muitas vezes transmuta a crítica ética em desumanização, transformando o sujeito em uma imagem meramente corrigível ou descartável.
Essa realidade torna-se especialmente nítida em ecossistemas digitais de encontro, como o Grindr. Nessas plataformas, a tecnologia não apenas registra, mas acelera a hierarquização das masculinidades. O desejo passa a ser mediado por filtros de raça, idade e expressão de gênero, transformando a "performance masculina" em moeda de valor e empurrando corpos gordos, negros ou feminilizados para a margem. Sob a perspectiva represontológica, a exclusão operada por esses algoritmos e comportamentos não é apenas social, mas ontológica: certos corpos deixam de existir como possibilidades legítimas de afeto.
Portanto, é imprescindível não considerarmos que o machismo atua como uma patologia civilizatória — um colapso cultural onde a cristalização de hierarquias de controle substitui a plasticidade humana e o reconhecimento da diversidade. No mundo digital, onde visibilidade e valor se confundem, a ruptura da dignidade torna-se cotidiana e, por vezes, invisível. Questionar essas estruturas por meio da ciência e da filosofia é mais do que um gesto teórico; é uma necessidade ética para desnaturalizar as opressões e reaprender formas de desejar e existir que restituam a humanidade aos corpos e às relações.
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Tags: #Machismo #DispositivoBiocultural #Represontologia #Sociedade #Sociologia #PatologiaCivilizatória
* Pesquisador e Escritor. Mestre em Administração e Doutorando em Ciência da Informação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).



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