LABORATÓRIO FICCIONAL: UMA TÉCNICA DE PESQUISA DE ORIGEM REPRESONTOLÓGICA
- Ricardo Cortez Lopes

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Por Ricardo Cortez Lopes*
Tal como qualquer ciência estabelecida, a represontologia lança mão de técnicas de coleta e de análise de dados para embasar sua reflexão teórica. Isso, contudo, não deve ser confundido com a metodologia em represontologia, que possui regras próprias. Trata-se de uma dimensão interna da própria represontologia, específica a ela, uma vez que cada ciência autônoma desenvolve e segue seus próprios procedimentos metodológicos.
É evidente que o estudo das representações pode recorrer a técnicas clássicas, como entrevistas, questionários, grupos focais, técnicas informacionais, entre outras. Esses instrumentos continuam sendo plenamente válidos para a coleta e a análise de dados, a depender do problema de pesquisa formulado. No entanto, a técnica da qual trataremos aqui foi formulada historicamente no interior da aplicação da metodologia representativa. Trata-se do laboratório ficcional, um recurso particularmente útil para o estudo de diferentes tipos de mídia.
Do ponto de vista bibliográfico, o laboratório ficcional foi formulado em dois artigos, de autoria dos pesquisadores Ricardo Cortez Lopes e L. Yana de Lima Martinez. O primeiro trabalho foi desenvolvido no âmbito da sociologia e da literatura — ainda sob a denominação de laboratório social —, enquanto o segundo se concentrou diretamente no estudo da ficção.
Lopes e Martinez publicaram o artigo “Do secularismo radical à secularização completa no livro 1984, de George Orwell: um laboratório social” (Revista Brasileira de História das Religiões, 2022), no qual o universo ficcional de 1984 é tratado como um laboratório social para a análise de processos de secularização e secularismo, também observáveis nas sociedades reais. Os autores utilizaram a análise de conteúdo qualitativa, concentrando-se em passagens que ilustram o esquecimento de Deus e o redesenho das instituições religiosas sob a lógica do “Grande Irmão”.
Embora o artigo não apresente um passo a passo formal da técnica, é possível deduzir seus elementos centrais, a saber:
Escolha do contexto ficcional — no caso, o livro 1984;
Operacionalização de conceitos sociológicos na obra — como secularização e secularismo;
Análise textual — aplicação sistemática de ferramentas como a análise de conteúdo em passagens específicas nas quais os conceitos são acionados em personagens e acontecimentos;
Interpretação reflexiva — identificação de padrões simbólicos (como o esquecimento de Deus) e sua localização ideológica (a exaltação do Grande Irmão).
Já no artigo “É possível crer no que não existe?”, publicado em 2024, agora no campo da represontologia e com foco na ficção de modo mais amplo, a metodologia é desenvolvida de forma sistemática. O estudo investiga personagens ateus em mundos religados, isto é, universos ficcionais nos quais divindades interagem diretamente com seres humanos. Esses universos funcionam como verdadeiros “laboratórios” para explorar representações ateias em ambientes explicitamente teístas.
Nesse trabalho, os autores propõem os seguintes passos para a aplicação da técnica:
Seleção do universo ficcional — escolha do ambiente controlado;
Construção de indicadores — elaboração de uma tabela de variáveis que permita detectar as representações selecionadas;
Análise qualitativa — aplicação de análise textual e qualitativa para testar a representação;
Interpretação global — mapeamento das reconfigurações das representações identificadas.
Dessa forma, torna-se possível produzir pesquisas com começo, meio e fim a partir da aplicação da técnica do laboratório ficcional. Nenhum dos artigos se dedica especificamente à enumeração de vantagens e desvantagens do método, o que torna a leitura ainda mais instigante e aberta à reflexão crítica do pesquisador.
Cabe destacar, ainda, que essa técnica não se restringe exclusivamente ao estudo das representações. Outras áreas do conhecimento também podem se beneficiar de sua aplicação. Nas ciências humanas, por exemplo, é possível testar conceitos próprios — como o conceito de tempo em uma ficção histórica. Da mesma forma, nas ciências naturais, pode-se explorar representações da física em animações que envolvem superpoderes ou leis naturais extrapoladas. Ao aplicar a técnica, torna-se possível compreender como determinados conceitos são efetivamente apreendidos, reelaborados e comunicados por meio da ficção.
E você, o que achou da técnica? O que pensa sobre os passos propostos? Comente e vamos trocar uma ideia.
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Referências:
LOPES, Ricardo Cortez. Repræsontologia: fundamentos da ciência das representações. São Paulo: UICLAP, 2024.
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* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.



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