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O ESCÂNDALO NÃO É O TRILIONÁRIO, É ACHARMOS ISSO NORMAL

Por Georgino Jorge de Souza Neto*


Vejo como profundamente obsceno viver num mundo onde uma única pessoa consegue acumular uma fortuna medida em trilhões enquanto centenas de milhões de seres humanos ainda dormem com fome. Não se trata de inveja, e sim de ética. Trata-se da incapacidade moral de aceitar que uma riqueza dessa dimensão possa coexistir com a miséria mais elementar.


Ninguém produz sozinho uma fortuna trilionária. Não existe gênio, empresário ou visionário capaz de criar tamanha riqueza sem o trabalho de milhões de pessoas, sem infraestrutura pública, sem universidades financiadas pela sociedade, sem estradas, portos, energia, ciência, consumidores. Toda grande fortuna é, em alguma medida, uma construção coletiva. O que causa espanto é que seus frutos sejam apropriados de maneira tão radicalmente privada.


Quando alguém se torna trilionário, isso deixa de ser apenas um feito econômico. Passa a ser um sintoma do fracasso de um modelo de civilização. Um sistema que permite esse nível de concentração de riqueza enquanto crianças morrem por doenças evitáveis, famílias vivem sob pontes e trabalhadores passam a vida inteira sem jamais experimentar qualquer segurança material não pode ser chamado de justo e nem de racional.


Algumas pessoas vão dizer que essa fortuna é merecida, conquistada pelo mérito. Mas mérito nenhum explica uma distância tão brutal entre um único indivíduo e bilhões de outros. Não existe trabalho que valha um trilhão de dólares. Não existe inteligência que justifique tamanha assimetria. Quando a riqueza deixa de representar conforto, segurança ou liberdade e passa a significar um poder superior ao orçamento de muitos países, ela deixa de ser apenas patrimônio. Torna-se poder político, influência sobre governos, sobre mercados, sobre guerras, sobre o próprio destino da democracia.


O escândalo não é a existência de pessoas ricas, mas a naturalização do excesso. É a capacidade de transformar a desigualdade em espetáculo, como se fosse motivo de admiração. Celebramos rankings de bilionários como quem acompanha um campeonato esportivo, enquanto a pobreza é tratada como falha individual e não como consequência direta de um sistema que concentra tudo no topo.


O maior absurdo nem é que exista um trilionário. O maior absurdo é que tanta gente ache isso normal.


Uma sociedade verdadeiramente civilizada não deveria medir seu sucesso pela quantidade de riqueza acumulada por um punhado de pessoas, mas pela dignidade garantida àquelas que possuem menos. Quando um homem concentra mais do que pode gastar em mil vidas e milhões sequer possuem o necessário para atravessar um único dia, não estamos diante de um triunfo do capitalismo. Estamos diante do retrato acabado de uma falência moral...





* Escritor Profissional e Pesquisador. Doutor e Mestre em Estudos do Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em Educação

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