NÃO HÁ PROGRESSO NAS QUESTÕES HUMANAS
- Gustavo Bertoche

- 25 de jan.
- 7 min de leitura
Por Gustavo Bertoche*
Não há progresso nas questões centrais do mundo humano. Elas permanecem as mesmas há pelo menos vinte e cinco séculos.
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É claro que existe progresso tecno-científico. Os meios de produção, de comunicação, de transporte progridem geração após geração.
Mas as perguntas de raiz não mudam — as perguntas sobre o cosmos, sobre a comunidade dos homens, sobre os seres humanos; elas permanecem as mesmas porque nós ainda somos os mesmos.
Façamos um experimento mental: transportemos, numa hipotética máquina do tempo, um bebê nascido em 2026 para o século V a.C. e um bebê daquele tempo para hoje. Os dois bebês seriam completamente indiscerníveis de todos os outros — no corpo, no intelecto, nas emoções. Somos iguais, independentemente das circunstâncias.
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É essa a razão pela qual a grande arte é atemporal: não há progresso na literatura, na poesia, na escultura, na música, no teatro. Tampouco há progresso na filosofia. Sim, os instrumentos técnicos progridem: escrevemos no computador, tocamos piano. Todavia, seria um grande erro julgar a obra de Rodin um progresso em relação à de Miguel Ângelo, e a deste um progresso em relação à de Fídias. Seria igualmente equivocado julgar a obra de Ionesco um progresso em relação à de Shakespeare, e a deste um progresso em relação à de Sófocles. O mesmo em relação a Goethe, Camões e Virgílio, ou a Heidegger, Hegel e Platão. São obras diferentes — que partem de lugares diferentes e pressupõem as obras anteriores. Todavia, supor o passado da literatura, da poesia, da filosofia não é o mesmo que pressupor o seu progresso. Há certas obras que fixam-se no mundo humano como pontos de referência insuperáveis.
É também essa a razão pela qual as perguntas fundamentais permanecem precisamente as mesmas. Ainda hoje perguntamos pelo sentido da justiça, da beleza, da verdade, do bem, da utilidade. Ainda hoje nos perguntamos o que é existir, o que é amar, o que é educar, o que é morrer. Ainda hoje temos as questões políticas discutidas no século V a.C.: a questão dos tipos de governo, da quantidade de governantes, da orientação mais populista, mais aristocrática ou mais técnica nos gastos do Tesouro.
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Um exemplo: hoje em dia debate-se a responsabilidade no caso de acidentes fatais com carros autônomos. Quando um Tesla em modo autônomo atropela e mata uma pessoa, quem deve ser responsabilizado: o motorista? O carro (isto é: a Tesla)? Os reguladores do trânsito, que permitiram o uso de carros autônomos antes que eles fossem completamente seguros?
Ora, essa questão, precisamente essa questão, já era discutida no século V a.C.: Plutarco conta que num evento olímpico de lançamento de lanças certo atleta teria atingido acidentalmente outro atleta, provocando a sua morte. Diante dessa trágica notícia, Péricles e Protágoras passaram um dia inteiro debatendo se a responsabilidade pela morte deveria ser atribuída ao atleta lançador, ou à própria lança, ou aos organizadores da competição — que não haveriam tomado as medidas de segurança necessárias.
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Exemplos assim existem aos montes na história do pensamento. Não foram poucas as vezes em que vi especialistas acadêmicos cometerem erros primários na análise de uma questão aparentemente muito contemporânea — relativa à política, à bioética, às neurociências, à inteligência artificial. Por falta de cultura histórica, literária, filosófica, muitos cientistas e filósofos desconhecem dificuldades, caminhos e soluções existentes há — literalmente — milhares de anos.
Amigos, as questões centrais da vida permanecem as mesmas. Nesse sentido a poesia, a literatura, a filosofia do passado não são realmente coisas do passado: elas dizem respeito ao nosso tempo, foram escritas precisamente para nós. Por isso, o seu conhecimento é um elemento essencial e incontornável da Educação.
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Alguém poderia discordar, argumentando que a nossa vida hoje é muito diferente da que vivíamos na era clássica. Afinal, não vivemos no melhor dos tempos? Ou, como diz Steven Pinker, não habitamos o mundo mais rico, mais seguro e mais feliz de toda a História? De fato, Pinker sustentou um grande otimismo histórico num livro que tornou-se um best-seller: Enlightment Now ("O Iluminismo Agora").
O problema desse otimismo é que o seu fundamento metafísico está assentado no pensamento mágico: a crença de que ao mudarmos o nome das coisas, mudamos as próprias coisas.
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As Grandes Guerras do século XX foram resultado tanto do imperialismo nacionalista quanto dos progressos tecno-científicos — dois elementos típicos do Iluminismo; as Grandes Guerras foram guerras dentro do contexto iluminista, por causas típicas do Iluminismo, por meio de instrumentos inventados no Iluminismo. O Holocausto foi o resultado de doutrinas científicas e pseudo-científicas típicas do iluminismo do século XIX — como, por exemplo, o darwinismo. O comunismo foi um movimento particularmente iluminista, e particularmente genocida. O século XX, o século mais iluminista de todos, foi também o mais violento, sangrento, cruel.
"Mas os EUA e a Europa vivem em paz desde 1945..."
Não mesmo. A Bélgica somente terminou o seu domínio de brutal exploração do Congo em 1960. Portugal somente saiu da Angola em 1974. Neste momento existe uma guerra travada na Europa entre um aspirante a czar, autoritário e totalitário, e um simpatizante do nazismo que não hesita em usar a própria população como escudo humano. Os EUA adotam a retórica da liberdade e dos direitos humanos, por exemplo. Contudo, desde a sua fundação os norte-americanos perpetraram incontáveis genocídios — e continuam destruindo outros povos no século XXI; o atual Império é, efetivamente, a nação mais genocida de todos os tempos.
Isto é: o discurso iluminista da democracia, da paz e da liberdade não transforma realmente as relações internacionais em relações democráticas, pacíficas e livres. O "fim da história" (proposto por Fukuyama, mas implícito nas teses dos apologetas do Iluminismo como Steven Pinker) não passa de ideologia no sentido mais preciso.
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Ora, as coisas não mudam de natureza ao mudarem de nome. Se na Grécia os trabalhadores eram chamados "escravos"; se na era feudal eram chamados "servos"; se hoje são chamados "assalariados", há algo que permanece semelhante: a submissão, a exploração, a alienação continuam existindo do mesmo modo. Alguém não é menos preso a uma relação de trabalho por poder escolher, até certo ponto, o senhor a quem quer servir — do mesmo modo que ninguém é mais livre por não receber o feijão para cozinhar, mas poder ir ao mercado e escolher se quer feijão de uma marca ou de outra. Os iluministas afirmam que houve progresso social, pois já não mais há escravidão. Eu pergunto: em essência, o que é a escravidão? E o que é o trabalho assalariado? Em certo sentido, o trabalho assalariado pode ser ainda mais violento que o trabalho escravo: se o escravo e o seu senhor sabiam perfeitamente que estavam em uma relação violenta, uma relação de vida ou morte, hoje em dia o trabalhador das lojas Renner, por exemplo, já nem sabe quem o explora, nunca viu o seu patrão, e chega a ser grato pela oportunidade de ser explorado. "Ah, mas ele recebe salário". Sim: um salário mínimo, que não lhe dá nenhuma autonomia, que não lhe permite a dignidade na moradia, na alimentação e na vestimenta, e que o aprisiona a uma situação eterna de submissão. "Ah, mas o patrão não pode inflingir castigos físicos aos funcionários". O castigo que o senhor moderno pode impor é a demissão — isto é: a miséria, a fome, a vergonha. Não subestimemos a violência radical que sofre um pai de família demitido e desempregado por meses, incapacitado de pagar para os filhos o médico, a escola, a roupa, a comida. Sim: a maioria de nós é, no século XXI, oprimida, explorada, marginalizada, e recebe em troca de sua vida menos que o suficiente para se alimentar, se vestir e morar.
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Quanto à nossa saúde, "a melhor da História": alimentamo-nos de lixo industrializado, bebemos água contaminada, comemos frutas e legumes com agrotóxicos e peixes com metais pesados, respiramos ar poluído, vivemos uma vida sedentária — e depois acreditamos gozar da melhor saúde de todos os tempos porque temos acesso a hospitais. Ora, a iatrogenia é uma das maiores causas de morte no planeta. Os hospitais, os remédios, os médicos são causa da morte ou da incapacitação de milhões de pessoas no mundo todo ano. O que nós chamamos de "boa saúde" é, na verdade, um círculo vicioso de má saúde: o ambiente, os alimentos, o estilo de vida, tudo conduz à destruição da nossa qualidade de vida, o que nos leva aos hospitais — que muitas vezes pioram ainda mais a vida que temos. Evidentemente é bom que haja penicilina, que haja vacinas, que haja raio-x, que haja ciência médica. Mas isso tudo, por si só, não significa que tenhamos um progresso na saúde em relação à que tínhamos no século V a.C. "Mas hoje temos a maior expectativa de vida!" — sempre me pergunto, ao ler isso, onde os pesquisadores teriam encontrado os registros estatísticos detalhados da população ateniense. Ora, a estatística como instrumento de Estado somente surgiu na Europa no século XIX — isto é: em pleno processo de industrialização e de destruição da qualidade de vida; por meio da estatística podemos demonstrar que existe uma grande diferença na expectativa de vida de pessoas de diferentes lugares e classes sociais. Já a afirmação de que os atenienses da época de Sócrates viviam menos não passa de um chute ideológico sem direção.
Ademais, a própria ideia de comparar a qualidade de vida de diferentes povos por meio da expectativa de vida é absolutamente ideológica. Não é evidente que uma vida de 78 anos seja necessariamente mais vivida que uma vida de 74 anos. Afinal, o tempo cronológico não é imediatamente conversível em experiências, em sabedoria e em realizações: é possível viver um século de uma vida vazia de significado, assim como é possível viver uma existência plena de sentido que se encerra na metade desse tempo.
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Em suma: a ideologia de Pinker (demonstrada em seus livros por meio de um exercício impressionante de erudição cherry-picking) somente faz sentido a partir de uma perspectiva ideológica clara: a do acadêmico de classe média ocidental — que não precisa se lembrar todo o tempo de que quase tudo o que consome vem da opressão e da destruição da existência de outras pessoas, de pessoas invisíveis, desde o seu smartphone produzido em fábricas nas quais direitos trabalhistas são praticamente inexistentes, a partir de minerais obtidos em minas africanas que utilizam o trabalho escravo infantil, até o combustível do seu carro, derivado do petróleo extraído em países que são propriedades privadas de sultões violentos, autoritários e belicistas, sultões que mantêm sua aristocracia vivendo em opulência enquanto contratam, sem qualquer tipo de direito, mão-de-obra pobre, muitas vezes estrangeira, para realizar todos os serviços subalternos necessários à vida urbana. O Iluminismo não existe senão para a elite sócio-econômica da sociedade — e, assim como era há vinte e cinco séculos, a liberdade da minoria é construída sobre a opressão e a exploração da vida da maioria.
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Não, amigos: não há progresso nas questões humanas. Sob outros nomes, elas ainda são as mesmas discutidas pelos gregos há mais de dois milênios.
Bom domingo!
* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Filosofia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Professor da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR).



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