O FUTEBOL BRASILEIRO E O COMPLEXO DE PEDIGREE
- Georgino Jorge de Souza Neto

- 9 de jul.
- 3 min de leitura
Por Georgino Jorge de Souza Neto*
Durante muitos anos repetimos a tese do genial Nelson Rodrigues como quem recita uma oração cívica, a de que o Brasil sofria do complexo de vira-latas. Perdíamos porque, antes mesmo do apito inicial, já nos julgávamos inferiores. Em alguns momentos isso até parecia ser verdade.
O problema é que, como acontece com quase toda doença mal diagnosticada, exageramos na dose do remédio. Curamo-nos do vira-latas e desenvolvemos o complexo de pedigree.
Passamos a entrar em qualquer Copa convencidos de que somos favoritos por direito hereditário, como aqueles nobres decadentes que continuam exigindo tratamento de realeza enquanto o telhado do castelo já caiu faz tempo.
A cada quatro anos repetimos o mesmo ritual. O sorteio acontece e imediatamente começamos a fazer contas: "essa chave é tranquila"; "nas quartas pegamos fulano"; "a semifinal deve ser contra sicrano". O único detalhe esquecido é que alguém precisa jogar futebol.
Vivemos como se ainda estivéssemos em 1970 e não percebemos que, enquanto isso, o mundo resolveu seguir adiante e que a geografia do futebol mudou.
A Europa deixou de ser apenas um continente e virou uma gigantesca indústria de produção de equipes. Treinadores, ciência do esporte, análise de desempenho, categorias de base, gestão, metodologia. O talento continua importante, mas deixou de ser suficiente.
Ao mesmo tempo, a África deixou de ser a promessa eterna para se transformar em realidade. Já não existem seleções africanas que "correm muito". Existem equipes organizadas, competitivas, taticamente maduras e formadas por jogadores que disputam as principais ligas do planeta.
O mapa-múndi resolveu estudar e nós continuamos consultando o atlas de 1994.
Nesse meio-tempo, seguimos exportando adolescentes como quem embarca minério de ferro. Vendemos meninos cada vez mais cedo para clubes europeus, fornecendo pé-de-obra barato para o velho continente. Eles aprendem outros idiomas, outras culturas, outros métodos de treinamento. Tornam-se milionários antes de completar vinte anos e descobrem mais rapidamente o preço de um relógio suíço do que o significado de vestir uma camisa que representa duzentos milhões de pessoas.
Não é culpa deles, mas do modelo de gerenciamento do futebol que o Brasil escolheu adotar. Viramos reféns das cinco conquistas de Copas.
A Seleção virou um encontro de profissionais extremamente bem-sucedidos que, por acaso, nasceram no mesmo país, mas falta-lhes aquilo que não se compra no mercado de transferências: pertencimento.
Durante noventa minutos, os jogadores muitas vezes parecem funcionários temporários de uma empresa multinacional chamada Brasil.
O torcedor, porém, continua chegando de ônibus, pagando prestação, fazendo churrasco de fim de semana e acreditando que aquela camisa ainda representa um pedaço da sua própria vida. Nem sempre representa, e por isso dói tanto. Perder faz parte do futebol, mas o que machuca é perceber que a derrota já não parece envergonhar quem perde.
Enquanto discutimos cortes de cabelo, dancinhas, campanhas publicitárias e milhões de seguidores, outros países discutem ocupação de espaço, intensidade sem bola, transição defensiva, formação de treinadores e políticas nacionais para o esporte. Nós viralizamos enquanto eles evoluem.
Acredito que o Brasil continua olhando para o espelho errado. Antes enxergava um vira-latas e agora vê um campeão eterno. Nenhuma das duas imagens existe.
A eliminação, mais que uma tragédia esportiva, pode ser uma rara oportunidade de humildade. Pedigree não ganha campeonato e sobrenome jamais fez um gol.
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* Escritor Profissional e Pesquisador. Doutor e Mestre em Estudos do Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em Educação
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