A ODISSEIA: NÃO É ANACRONISMO, É RACISMO — E A FIDELIDADE CEGA É SÓ FALTA DE IMAGINAÇÃO
- Adriano Gomes

- 30 de jul.
- 6 min de leitura
Por Adriano Gomes*
O novo filme A Odisseia, de Christopher Nolan, ainda está rendendo. Rendendo muitos comentários de youtubers, rendendo muitos comentários de especialistas, rendendo muita discussão acalorada nas redes e, por isso, novamente venho aqui falar da Odisseia. Recentemente participei de um podcast sobre o tema. Recentemente fiz um texto e postei analisando o filme. Também recentemente fiz um texto inspirado na Odisseia sobre as sereias — e ainda está rendendo, e continuará rendendo, acredito eu, esse filme por um bom tempo. Por isso venho aqui novamente, em mais uma postagem, para falar de alguns pontos da Odisseia que, me parece, ainda não foram falados com a clareza que merecem.
O primeiro deles, e talvez o mais importante, é esse: a polêmica em torno da Helena de Tróia não é sobre história. É sobre racismo. Ponto.
Vamos com calma. Você já parou para pensar o que realmente Homero escreveu sobre a mulher mais bonita do mundo antigo? Nada. Absolutamente nada sobre a cor da sua pele, dos seus olhos ou dos seus cabelos. Nada que se aproxime das categorias raciais que nós inventamos muitos séculos depois, para organizar o nosso preconceito. Quando ele chama Helena de “de braços brancos”, não está fazendo um atestado de cor. Está dizendo que ela era uma mulher nobre. Que não trabalhava no campo, debaixo do sol. Como quando a gente diz que alguém tem “mãos de veludo”. Não é uma descrição física. É uma descrição de lugar social.
Quem afirma que “Helena era branca” não está citando Homero. Está citando as pinturas do século XIX, os filmes de Hollywood dos anos 50, o imaginário eurocêntrico que se apropriou do mito grego nos últimos duzentos anos. É sobre esse imaginário, não sobre o poeta, que a ira cai hoje.
E tem mais: vamos definir o que é anacronismo, de uma vez por todas. Anacronismo é colocar um celular na mão de um gladiador. É um revólver na Guerra de Tróia. É algo que não poderia existir naquela época, por ordem cronológica. Mudar a cor da pele de uma personagem que nasceu de um ovo, filha de um deus que se transformou em cisne para seduzir a sua mãe? Isso não é anacronismo. É imaginação. E se você tem problema só com essa imaginação, o seu problema não é com o tempo. É com a cor.
Preste atenção nisso, porque é a chave de tudo: ninguém reclama que o Ulisses de Matt Damon é loiro, alto, de traços nórdicos, quando Homero o descreveu como baixo, bronzeado, mediterrâneo. Ninguém faz passeata contra o fato de todos os personagens falarem inglês moderno impecável. Ninguém se indigna com as armaduras que parecem da Idade Média, não da Idade do Bronze em que a história se passa. Tudo isso passa. Tudo isso é aceito como “necessidade do cinema”. Só a Helena negra incomoda. Só ela viola a “verdade histórica”. Você não acha isso, no mínimo, muito conveniente?
E sabe por que essa hipocrisia existe com tanta naturalidade? Porque muita gente, por trás da bandeira da “defesa da obra”, confunde duas coisas completamente diferentes: amar um texto e aprisioná-lo. Para esses puristas de internet, adaptar um livro para o cinema tem que ser como fazer uma fotocópia. Tem que ser idêntico. Senão é traição. E eu tenho uma notícia simples, mas que poucos querem ouvir: fidelidade excessiva no cinema não é virtude. É falta de imaginação.
Literatura é uma coisa. Cinema é outra. Completamente diferentes. O livro acontece dentro da sua cabeça. Você lê uma frase, e a imagem que aparece na minha cabeça é diferente da que aparece na sua. Cada leitor tem o seu próprio Homero. O cinema não tem essa liberdade. Ele mostra a imagem. Ele tem um tempo fixo, de três horas, que não pode parar, não pode voltar, não pode acelerar. Como você quer colocar doze cantos de poesia, com três mil anos de diferença cultural, dentro de três horas sem cortar, sem mudar, sem recriar? Só se você não quiser fazer um filme. Quiser fazer um audiolivro com imagem. E audiolivro com imagem não é cinema. É tédio gravado.
E tem um detalhe ainda mais grave que esses defensores da “obra original” insistem em esquecer: nunca existiu uma obra original de Homero. Homero não foi um escritor que sentou na mesa, escreveu um manuscrito, assinou e mandou para a editora. Ele foi um cantor. Um aedo. Andava de cidade em cidade contando histórias que já existiam há séculos, mudando o que precisava para agradar o público da noite. O texto que a gente lê hoje foi montado séculos depois, por editores atenienses que escolheram a melhor versão entre dezenas diferentes. Falar em trair o original de Homero é como falar em trair a receita original da feijoada: nunca existiu uma única receita. Existiram muitas, todas válidas.
A história da própria cultura ocidental prova isso. Os maiores trabalhos que nasceram da Odisseia são justamente os que menos se importaram com a letra. O Ulisses de James Joyce é um agente de publicidade judeu-irlandês andando por Dublin em um único dia de 1904. Ninguém chamou Joyce de traidor. Margaret Atwood deu a palavra a Penélope e recontou toda a história do ponto de vista da mulher que ficou esperando, desconstruindo todo o heroísmo do marido. Ninguém chamou ela de ignorante. Dante Alighieri colocou Ulisses no Inferno, por orgulho e engano. E ninguém disse que Dante não entendia de grego antigo. Todos esses pegaram o mito e fizeram dele algo novo, sem pedir licença a ninguém. E foi exatamente isso que manteve Homero vivo. Se todo mundo só tivesse repetido as mesmas frases, a Odisseia teria morrido há dois mil anos, guardada em uma caixa de museu, cheia de poeira e sem serventia para ninguém.
O que Nolan está fazendo não é diferente. Ele está pegando uma história de um homem que quer voltar para casa, que viu a guerra, que sofreu, que não consegue mais se reconhecer no próprio rosto, e contando ela para gente do século XXI. Ele muda os deuses, reduz os monstros a estados psicológicos, modifica relações, escolhe uma atriz negra para a maior beleza do Ocidente. E não está fazendo isso para destruir Homero. Está fazendo para que a gente ainda consiga ouvir o que Homero tinha para dizer. Porque a verdadeira fidelidade, quando ela existe, nunca é para a letra. Nunca é para o detalhe do enredo ou para a cor de uma capa. É para o espírito. É para a pergunta que a obra faz. Você pode mudar tudo, e ainda ser mais homérico do que quem repete cada palavra sem entender nada do que elas realmente significam.
E aí voltamos, fechando o círculo, para o começo. Para essa fidelidade que só vale quando é conveniente. Ninguém liga para o inglês, para a armadura errada, para o ator nórdico fazendo de rei mediterrâneo. Tudo bem. Tudo é cinema. Mas quando a Helena fica negra? Aí é crime. Aí é anacronismo. Aí todo mundo vira professor de grego antigo na internet, especialista em métrica homérica, defensor intransigente da cultura ocidental. Essa coerção seletiva tem um nome muito claro: racismo. E a exigência de fidelidade que só aparece para defender esse racismo? Essa tem outro nome, igualmente feio: covardia intelectual.
E é por isso, eu acredito, que esse filme ainda vai render muito mais. Porque ele não mexe só com um texto antigo. Mexe com o nosso tempo. Mexe com o nosso racismo disfarçado de erudição. Mexe com a nossa preguiça intelectual de achar que arte é coisa para ficar guardada em redoma, sem tocar, sem respirar. Os mitos não são objetos de museu para serem admirados de longe. São portas. E cada geração tem o direito de abrir essa porta do seu jeito. Quem não quer que ninguém abra a porta de um jeito diferente não está defendendo a casa. Está defendendo o direito de só ele poder entrar. E isso, meus amigos, não é amor pela cultura. É posse. E posse, todo mundo sabe, nunca foi sinônimo de inteligência.
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* Escritor, Professor e Pesquisador. Doutor em Psicanálise Clínica (UEG), Mestre em Ciência Política (UFAM) e Graduado em Pedagogia (UNIP), em Filosofia (FAVENI), em Geografia (UEA) e em Ciências Contábeis (UniGrande).
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