top of page

ANTÍGONA E A REPRESONTOLOGIA

Por Ricardo Cortez Lopes*


A série “Represontologia da Cultura” apresenta artefatos culturais analisados por meio da Represontologia, a ciência das representações. Apresentamos obras e ocasiões em que a representação ultrapassa um referente. Os objetivos dessa série são mostrar aplicações dos conceitos e também sugerir temas de pesquisa (quem sabe para publicar na Revista Colirium). Hoje falaremos da tragédia grega "Antígona", que inspira o nome de um de nossos periódicos: "Antígona: Revista de Filosofia e Direito" (@antigonarevista), irmã da "Colirium: Revista de Estudos Representacionais e Represontologia" (@revistacolirium).


A tragédia de Sófocles costuma ser interpretada sob o prisma da oposição entre o direito natural e a lei do Estado, ou pelo conflito entre indivíduo e coletividade. Contudo, ao deslocarmos o olhar da psique dos personagens para a conduta e a autonomia dos próprios símbolos, "Antígona" revela-se um laboratório ficcional, técnica de pesquisa desenvolvida no âmbito da Represontologia.


Em vez de encarar os discursos de Creonte e Antígona apenas como projeções de vontades humanas, a análise represontológica investiga como as representações do "Cadáver", da "Sepultura" e do "Édito" ganham agência própria e configuram um "Contexto Representativo" saturado de tensões normativas.


Na trama, Creonte não decreta apenas uma punição política a Polinices; ele tenta impor uma representação institucionalizada: a do "traidor insepulto", destinado à decomposição pública e ao estigma. No entanto, o ritual fúnebre realizado por Antígona não é um mero ato passivo de piedade filial, mas a ativação de uma representação autônoma da "Ancestralidade" e do "Sagrado", cujas raízes históricas e estruturais transpassam a autoridade do governante. Ou seja, as "informações-base" dessa representação interna não incluem a vontade política.


Quando o pó cobre o corpo de Polinices, assistimos à emancipação do símbolo sobre a norma estatal. A representação da "Insepultura" recusa-se a permanecer no lugar de estigma pretendido por Creonte; ela migra, contamina a pólis e transforma-se no estopim da efervescência coletiva e da ruína da própria casa real. A violência simbólica do Estado falha porque subestima a força de atração e a estabilidade das historicidades contidas nos rituais de passagem, que expressam representações que se acreditam reais — o que corresponde a uma das regras do método represontológico.







Referências:


LOPES, Ricardo Cortez. Repræsontologia: fundamentos da ciência das representações. São Paulo: UICLAP, 2024.





* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

© 2018, Instituto Parajás (@institutoparajas)

 

Revista Parajás (@revistaparajas) - ISSN: 2595-5985

Revista Colirium (@revistacolirium) - ISSN: 3085-6655

Revista Antígona (@antigonarevista) - ISSN:

Revista IBEFAT (@revistaibefat) - ISSN:

  • YouTube - círculo cinza
  • Facebook - círculo cinza
  • Instagram - Cinza Círculo
  • Spotify
bottom of page