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DOIS ESTRANHOS: A PELE



Por Alexandre Gossn*


A História dos EUA está passando por profunda revisão acadêmica na medida em que mais e mais acadêmicos negros, latinos e brancos de longe dos ecossistemas dominantes apresentam suas pesquisas.


Hoje, sabemos que a independência (1776) jamais tornou os norte-americanos livres, salvo se você fosse branco, homem e rico.


Sabemos que a Constituição dos EUA (1787) fora engendrada não para tornar todos os seres humanos livres, mas apenas para impedir que brancos homens nascidos na América pudessem ser subjugados comercial e politicamente por outras nações.


A liberdade aos povos originários da América dos Norte e aos afroamericanos nunca foi uma prioridade dos fatherland e os EUA assim rumaram para uma sangrenta Guerra Civil, que, por sua vez, não resolveu o problema, pois se ajudou sim a sepultar a escravidão, gestou uma era de reconstrução política da União que permitiu o aprofundamento do apartheid da América.


Normas como as Leis "Jim Crow", julgamentos como "iguais, mas separados" pela Suprema Corte, o surgimento da "KKK", espancamentos, linchamentos, estupros, vedação ao voto... Foram tantas as práticas que relegaram aos negros dos EUA a condição de subcidadãos, que indagada sobre que punição Hitler merecia se fosse preso após a guerra, uma jovem aluna negra respondeu: "ele deveria ter a pele pintada de negro e ser condenado a viver aqui nos EUA".


Pior que isso: hoje, pesquisadoras como Isabel Wilkerson e Jill Lepore confirmam o que já se suspeitava: o Regime Nazista se inspirou nas leis dos sul dos EUA para instituir as normas de Nuremberg, quando o Reich passou oficialmente a considerar os judeus como cidadãos de segunda classe.


Dois Estranhos é um curta-metragem impactante porque condensa este caldo cultural de IMENSA VIOLÊNCIA e RACISMO ESTRUTURAL que permeia a cultura dos EUA. Uma realidade que é revelada por um loop espacial e temporal, onde sem spoilers o protagonista, um jovem negro, não consegue escapar à violência policial, mesmo tendo incontáveis oportunidades a cada nova (igual) manhã e testando inúmeras novas estratégias.


O filme venceu o Oscar de melhor curta-metragem com louros e merece ser conferido na Netflix.



* Pesquisador e Doutorando em Ciências Sociais junto ao Instituto de Investigação Interdisciplinar da Universidade de Coimbra, com ênfase em Filosofia Política e Autoritarismos Contemporâneos. Escritor, Mestre em Direito e Advogado.

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