A SOCIEDADE DO CANSAÇO E O ESGOTAMENTO DO SUJEITO CONTEMPORÂNEO
- Georgino Jorge de Souza Neto

- 19 de jan.
- 2 min de leitura
Por Georgino Jorge de Souza Neto*
Admito, ando muito cansado. E parece que todas as pessoas à minha volta andam muito cansadas também. Não se trata de um cansaço muscular, esse ao menos respeita o repouso e o Dorflex, mas de um cansaço ontológico, desses que não se resolvem com férias porque viajar também virou tarefa. É um cansaço que não dorme quando a gente dorme, porque ele vem justamente do excesso de vigília.
Vivemos a era em que ninguém mais manda em ninguém, e ainda assim todos obedecem. Obedecem ao desempenho, à atualização constante, à obrigação moral de estar “bem”, “ativo”, “engajado”. Não tem chicote, mas tem meta. Desaparece a figura do capataz, para dar lugar ao imperativo do aplicativo. E o mais eficiente dos sistemas é aquele em que o explorado acredita estar se realizando.
Já não somos sujeitos cansados de trabalhar demais, mas indivíduos exaustos de ser o tempo inteiro. É preciso ser produtivo, interessante, saudável, consciente, crítico, sensível, informado, feliz, de preferência tudo ao mesmo tempo e antes das oito da manhã. O fracasso deixou de ser social para se tornar íntimo. A culpa não vem de fora, ela brota com Wi-Fi próprio.
O curioso é que esse cansaço não nasce da escassez, mas do excesso. Excesso de estímulo, de opinião, de tarefa, de urgência. Um mundo que não sabe parar também não sabe descansar. Descansar virou apenas mudar de atividade: sai-se do trabalho para o lazer produtivo, do lazer para a autoimagem, da autoimagem para a comparação, e, ao final, dorme-se mal, culpado por não ter rendido nem no ócio.
Como já diagnosticou Byung-Chul Han, essa é a sociedade do desempenho, que produz não rebeldes, mas deprimidos; não revoluções, mas esgotamentos. O sujeito contemporâneo não se sente oprimido, ele sente-se insuficiente. E isso é genial do ponto de vista do sistema: quando a culpa é sua, não se questiona a estrutura.
Estamos todos cansados porque tudo exige resposta. Até o silêncio precisa ser explicado. Até a ausência precisa ser justificada. Não estar disponível virou falha de caráter. O descanso, suspeito. A lentidão, quase um crime.
Talvez o maior luxo hoje não seja o dinheiro, nem o tempo, mas a possibilidade de não responder. Não otimizar. Não performar. Não transformar cada segundo em capital simbólico. Um cansaço que se resolve não com mais técnicas de produtividade, mas com uma recusa educada e firme: não darei conta de tudo! E isso não é defeito, é condição humana.
Admito, ando muito cansado. Andamos todos cansados. Mas começo a desconfiar que esse cansaço, quando reconhecido, já é um primeiro gesto de lucidez.
* Escritor Profissional e Pesquisador. Doutor e Mestre em Estudos do Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em Educação



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