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A LÓGICA DO CURRAL NO BRASIL RACIALIZADO

Por Georgino Jorge de Souza Neto*


Estou envolvido em uma pesquisa que exige, como método, trabalho de campo com observação. Sem dar muito spoiler, do muito que tenho observado para a produção dos meus relatos, a questão racial me chama especial atenção.


É na rua, na observação sistemática, que o que costumo ler salta para fora das elucubrações teóricas e ganha vida (e pele).


Nunca escondi a minha admiração pelo intelectual camaronês, Achille Mbembe. Uma das suas obras que mais aprecio é o maravilhoso livro "Crítica da Razão Negra". Ali ele apresenta um conceito que me é particularmente caro, porque altamente explicativo: a lógica do curral.


Imagem 01: Capa do livro "Crítica da razão negra", de Achille Mbembe.
Imagem 01: Capa do livro "Crítica da razão negra", de Achille Mbembe.

A “lógica do curral” encontra no Brasil racializado um de seus terrenos mais férteis e mais violentos.


Desde a escravidão, a população negra foi tratada como corpo a ser contido, não como sujeito a ser ouvido. O curral, aqui, deixa de ser metáfora para se materializar em senzala, pelourinho, favela cercada pela polícia e periferia mantida à distância do direito. A abolição libertou juridicamente, mas manteve intacta a lógica de controle.


A racialização brasileira opera exatamente assim, não se garantindo cidadania plena, mas oferecendo vigilância constante. O negro não é visto como cidadão em disputa política, mas como problema a ser gerido (pela polícia, pelo encarceramento em massa, pela precarização do trabalho, pela exclusão territorial).


No curral racial brasileiro, a ordem sempre tem cor. A violência do Estado é justificada como “segurança”, o extermínio vira “combate ao crime”, a desigualdade estrutural vira “falta de mérito”. A cerca é discursiva: diz-se que todos são iguais enquanto se decide, na prática, quem pode circular sem suspeita e quem nasce suspeito.


O mais perverso é quando essa lógica se naturaliza. Quando parte da sociedade aceita que certos corpos sejam permanentemente vigiados, mortos, silenciados e chama isso de normalidade. Quando o racismo estrutural se disfarça de neutralidade institucional.


A lógica do curral não quer o negro pensando, falando, disputando poder. Quer o negro contido, sobrevivendo, agradecido por migalhas. Toda vez que a população negra exige direitos, é acusada de “radicalismo”. Toda vez que denuncia o racismo, é acusada de “dividir o país”.


Romper essa lógica exige mais do que discurso antirracista superficial. Exige desmantelar o curral, questionar quem define a ordem, quem lucra com o medo, quem sempre esteve do lado de fora da cerca, e principalmente por quê.


Não há democracia possível enquanto a racialidade for critério de contenção. Enquanto houver curral, a liberdade deixa de ser direito e se transforma em privilégio.



Referências:


MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. São Paulo: N-1 Edições, 2018.





* Escritor Profissional e Pesquisador. Doutor e Mestre em Estudos do Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Graduado em Educação

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