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A ILUSÃO DE "SEGUIR A CIÊNCIA"

Atualizado: 25 de jan.

Por Gustavo Bertoche*


Muitas pessoas inteligentes julgam necessário "seguir a ciência" em questões políticas. Elas não percebem que:


• Em primeiro lugar, não existe " a ciência": não há uma instituição ou um grupo de indivíduos que tenha a prerrogativa de falar em nome de todos os pesquisadores do mundo. Ademais, cada campo científico tem seus próprios objetos e métodos. Além disso, dentro de cada campo científico há uma pluralidade de posições. Isto é: quem afirma falar "em nome da ciência" ou é filosoficamente inculto, e tem uma perspectiva infantil do processo de criação do conhecimento científico; ou é charlatão e usa da má-fé, fingindo fundamentar as suas posições numa autoridade que, a rigor, não existe.


• Em segundo lugar, as pesquisas científicas jamais dão respostas acabadas e definitivas sobre qualquer problema. A tarefa do cientista não é a de estabelecer verdades; é, em lugar disso, perguntar, questionar, duvidar, experimentar, avaliar, testar, nunca satisfazendo-se com o que todos concordam. Uma hipótese científica não é uma verdade, mas uma tese aberta que pode ser progressivamente ampliada, reduzida ou abandonada.


• Em terceiro lugar, pela própria natureza da pesquisa científica, os cientistas erram. Erram muito. Da indicação da talidomida a mulheres grávidas aos erros médicos cometidos diariamente nos hospitais (a propósito, os erros médicos constituem a terceira maior causa de morte nos EUA: https://www.bmj.com/content/353/bmj.i2139), passando pela gigantesca e diariamente aumentada lista de fraudes comprovadas (basta "googlar" para ter noção da sua extensão), equívocos e mentiras são tão frequentes na história da ciência que um ex-diretor do prestigiado jornal médico The BMJ recentemente sugeriu que todas as pesquisas na área de saúde sejam consideradas fraudulentas até prova em contrário (https://blogs.bmj.com/.../time-to-assume-that-health.../). O tempo todo, especialistas de todos os campos científicos enganam-se — e nos enganam.


• Em quarto lugar, nenhuma pesquisa científica pode fornecer respostas inequívocas para problemas políticos. Os cientistas de orientação positivista crêem que a ciência busca "descrever os fenômenos"; os cientistas mais metafísicos crêem que a ciência busca "explicá-los". Ambas as perspectivas estabelecem como propósito das ciências a compreensão do mundo. Mas não há ciência particular que permita estabelecer o melhor curso de ação política numa sociedade, pelo simples fato de que uma certa concepção política já está implícita no próprio trabalho dos cientistas. Efetivamente, a utilização de conclusões de pesquisas científicas como critério para a definição de uma política produz um erro lógico — uma petição de princípio. Ao utilizarmos o trabalho de um grupo de cientistas para orientar uma ação na sociedade, com toda a probabilidade a política que daí derivará será próxima à da ideologia por eles abraçada. Afinal, nenhuma pesquisa científica é imune aos interesses político-econômicos: os cientistas são sempre ideologicamente comprometidos, mesmo — e especialmente! — quando não o percebem.


• Finalmente, é falsa a dicotomia entre o político e o sanitário — como se uma decisão sanitária estivesse fora, e acima, do domínio da política. Ora, toda proposta sanitária é política por definição — ou, como dizia Foucault, é biopolítica. E no campo da política é muito difícil, no calor do momento, definir de que lado a "verdade" vai, no futuro, se posicionar — sim, porque a "verdade política" é uma construção social que nada tem a ver com a concepção metafísica — e mesmo mística — de uma verdade sub especie arternitatis. No mundo da ação humana, a verdade não é um dado: é uma invenção, é gerada sem raiz, é um fantasma.


* * *


Alguém objetará que "a ciência é definida pela sua metodologia; se há algo como a metodologia científica, então a ciência evidentemente existe". O problema é que uma das premissas dessa afirmação, a de que "há uma metodologia científica", é falha: a ideia segundo a qual existe um método científico não passa de uma fantasia. Não existe um método científico; há uma quantidade incontável de métodos, e nenhum tem valor epistêmico absoluto. Como diz Feyerabend,


"não existe nenhum 'método científico'; não há nenhum procedimento único, ou conjunto de regras, que esteja presente em todas as pesquisas e garanta que elas sejam 'científicas' e, portanto, confiáveis. Cada projeto, cada teoria, cada procedimento precisa ser avaliado por seus próprios métodos e pelos padrões adaptados aos processos com os quais lida. A ideia de um método universal e estável que seja uma medida imutável de adequação e até a ideia de uma racionalidade universal e estável é tão irreal quanto a ideia de um instrumento de medida universal e estável que meça qualquer magnitude, não importa as circunstâncias. Os cientistas revisam seus padrões, seus procedimentos, seus critérios de racionalidade à medida que vão seguindo adiante e entrando em novas áreas de pesquisa (...); não há uma única regra, por mais plausível e por mais firmemente baseada na Lógica e na Filosofia geral, que não seja infringida em um momento ou outro" (Feyerabend, 2011, p. 122-123).

"Mas e a revisão entre pares? Não é uma metodologia científica?", alguém perguntará. Não, não é; a revisão entre pares não é uma metodologia científica, é uma metodologia acadêmica — que, a propósito, muitas vezes é utilizada de modo fraudulento, e muitas outras vezes é simplesmente ignorada. De fato, boa parte da ciência é realizada de modo privado ou secreto, sem o compartilhamento de informações, sem qualquer publicação, sem revisão entre pares; conquanto ciência e academia possuam inúmeras interseções, permanecem como dois campos diferentes no mundo humano.


* * *


Em suma: "seguir a ciência" nada tem a ver efetivamente com "seguir a ciência", porque não existe a "instituição ciência" para ser seguida.


Quando alguém exige que sigamos a ciência, o que está realmente a exigir é que nos submetamos à sua própria ideologia biopolítica.


* * *


Por isso, amigos, a sociedade democrática não deve nunca "seguir a ciência"; deve, em lugar disso, escutar os cientistas — de inúmeros campos científicos e de variadas orientações ideológicas, com especial atenção para as vozes contra-hegemônicas. Deve, inclusive, escutar os pesquisadores e praticantes daquilo que muitos cientistas profissionais consideram não-científico, como a medicina indígena e a psicanálise. Após todos os grupos interessados participarem da discussão pública, as decisões políticas devem caber a quem de direito: aos cidadãos, a todos os cidadãos.


Boa semana a todos e todas.



Referências:


FEYERABEND, Paul. A ciência em uma sociedade livre. Tradução de Vera Joscelyne. São Paulo: Unesp, 2011.





* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Filosofia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Professor da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR).

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