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A FISIOLOGIA E A REPRESENTAÇÃO

Por Ricardo Cortez Lopes*


A representação interna é receptora e organizadora de informações. Mas isso só ocorre porque chegam aos sentidos mídias que precisam ser lidas. No entanto, as mídias não precisam vir apenas do exterior.


Represontologicamente, o cérebro permite a existência de representações. Porém, ele não lê apenas o mundo externo: também lê o organismo, cumprindo uma função de regulação. Como a informação chega até ele?


O processo da fome começa muito antes de o estômago “roncar”. Tudo nasce de um equilíbrio delicado chamado glicemia. Quando passamos algumas horas sem comer, os níveis de glicose no sangue caem, disparando o primeiro sinal de alerta. No sistema digestivo, o estômago vazio secreta o hormônio grelina, que viaja pela corrente sanguínea até o cérebro como um mensageiro urgente.


Ao chegar ao hipotálamo, especificamente ao núcleo arqueado, a grelina ativa os neurônios NPY/AgRP, que são os “interruptores” da fome. O cérebro, então, assume o controle executivo: ele aumenta nossa percepção sensorial — representações de comida tornam-se irresistíveis — e aciona o sistema de recompensa por meio da dopamina, criando aquela vontade focada em buscar alimento.


Enquanto você sente a fome de forma consciente, nos bastidores, o pâncreas para de produzir insulina e libera o glucagon. Esse hormônio vai até o fígado e inicia a glicogenólise, que é a quebra do estoque de emergência — o glicogênio — em glicose pura, para manter o funcionamento do cérebro. Porém, essa reserva é curta, durando cerca de um dia.


Se o alimento não chega, o cérebro percebe a persistência do déficit e aciona o eixo HPA, liberando cortisol e adrenalina. Esses hormônios do estresse forçam o corpo a entrar na gliconeogênese, uma rota na qual o fígado começa a fabricar açúcar a partir de “ingredientes” mais caros, como os aminoácidos dos músculos.


Em uma fase final de resistência, para evitar que você consuma toda a sua musculatura, o metabolismo vira uma chave mestra: a cetogênese. O corpo passa à queima de gordura de forma intensiva, transformando ácidos graxos em corpos cetônicos. O cérebro, em um ato de adaptação incrível, passa a consumir esse combustível alternativo. Nesse estágio, a fome aguda muitas vezes diminui, pois o organismo estabilizou uma fonte constante de energia interna, embora o cérebro continue monitorando os níveis de leptina — o hormônio das gorduras — para saber por quanto tempo de vida o estoque ainda garante energia.


A informação bioquímica converte-se em símbolo por conta da representação, que faz a mediação entre o estímulo do corpo e o cérebro propriamente dito: ela coloca o mundo circundante como meio para a bioquímica, especificamente. É uma representação que permite o contato com o mundo externo, na busca do recurso para a satisfação do instinto.





Referências:


LOPES, Ricardo Cortez. Repræsontologia: fundamentos da ciência das representações. São Paulo: UICLAP, 2024.





* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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