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AVATAR E A REPRESONTOLOGIA

Por Ricardo Cortez Lopes*


A série “Represontologia da Cultura” apresenta artefatos culturais analisados por meio da Represontologia, a ciência das representações. Apresentamos obras e ocasiões em que a representação ultrapassa um referente. Os objetivos dessa série são mostrar aplicações dos conceitos e também sugerir temas de pesquisa (quem sabe para publicação na Revista Colirium). Hoje, falaremos da animação Avatar: The Last Airbender.


Avatar: The Last Airbender é uma animação que se passa em um mundo dividido entre quatro nações: Tribo da Água, Reino da Terra, Nômades do Ar e Nação do Fogo. Cada povo possui indivíduos capazes de controlar — ou “dobrar” — um elemento da natureza. A história acompanha Aang, o último mestre do ar sobrevivente e também o Avatar, um jovem destinado a restaurar o equilíbrio do mundo após cem anos de guerra provocados pela Nação do Fogo. Ao lado de Katara, Sokka e, posteriormente, Toph, Aang percorre diferentes regiões, aprendendo a dominar os outros elementos enquanto tenta amadurecer emocionalmente para enfrentar o Senhor do Fogo Ozai.


A chamada “classe Avatar” não é exatamente uma classe social, mas uma posição espiritual e política única dentro do universo da série. O Avatar é a única pessoa capaz de dominar os quatro elementos e funciona como mediador entre o mundo físico e o espiritual. Sempre que um Avatar morre, ele reencarna em outra nação, seguindo um ciclo específico: Ar, Água, Terra e Fogo. Além de possuir enorme poder, o Avatar carrega a responsabilidade moral de manter o equilíbrio entre povos, espíritos e natureza, tornando-se símbolo de sabedoria, justiça e harmonia mundial.


Cada elemento é uma peça constituinte da realidade, tal como pensavam os gregos e também algumas religiões orientais. Logo, a realidade pode ser modificada por meio da recombinação desses elementos, o que faz do Avatar quase um sinônimo da própria realidade, ainda que ele não possua onisciência ou onipresença.


A dominação de um elemento passa por uma simbiose entre a representação do elemento e a sua manifestação no mundo. Um dominador consegue manipular o fogo porque sabe como o fogo é — para além da sensação causada pelo contato com ele — e a labareda entende como deve se conformar. Ou seja, a representação torna-se um referente para a chama, e a chama o emula com perfeição, ultrapassando a condição de uma representação externa, pois possui um grau de nitidez de 100%.


O fato de Aang ser uma criança coloca outras questões representológicas. Afinal, o Avatar já possui a limitação da mente individual, mas uma criança potencializa essa condição, pois suas representações não possuem tantas informações em seu armazenamento factual. A questão moral é relevante, mas, mais ainda, a questão da simbiose com os elementos convive com a construção da representação de si.





Referências:


LOPES, Ricardo Cortez. Repræsontologia: fundamentos da ciência das representações. São Paulo: UICLAP, 2024.





* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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