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A TURMA DA MÔNICA E A REPRESONTOLOGIA

Por Ricardo Cortez Lopes*


A série “Represontologia da Cultura” apresenta artefatos culturais analisados por meio da Represontologia, a ciência das representações. Apresentamos obras e ocasiões em que a representação ultrapassa um referente. Os objetivos dessa série são mostrar aplicações dos conceitos e também sugerir temas de pesquisa. Hoje, falaremos da franquia Turma da Mônica, analisando o personagem Do Contra.


Turma da Mônica é uma das mais importantes obras dos quadrinhos brasileiros, criada por Mauricio de Sousa em 1959. A série acompanha as aventuras de Mônica, Cebolinha, Cascão, Magali e seus amigos no Bairro do Limoeiro, abordando temas como amizade, respeito, imaginação, convivência e crescimento pessoal. Com linguagem acessível e humor voltado ao público infantil, a Turma da Mônica tornou-se um fenômeno cultural no Brasil, expandindo-se para animações, filmes, livros e produtos diversos, influenciando gerações de leitores e consolidando-se como um dos maiores símbolos da cultura popular brasileira.


O personagem Do Contra pode ser compreendido como uma negação das representações amplamente compartilhadas. Em praticamente todas as situações, ele adota a posição inversa àquilo que lhe é apresentado, rompendo deliberadamente com o consenso. No entanto, não é possível afirmar se ele realmente acredita nessas posições contrárias, se sustenta representações impossíveis ou se simplesmente finge defendê-las por gosto da oposição. Essa ambiguidade torna difícil determinar sua personalidade, especialmente porque ele raramente ocupa o papel de protagonista nas histórias.


Essa característica talvez constitua a principal diferença entre Do Contra e o personagem Louco. Enquanto o Louco parece negar a realidade por não compreendê-la plenamente — manipulando-a sem perceber que o faz —, Do Contra aparenta rejeitar conscientemente as representações socialmente estabelecidas, ainda que as motivações dessa rejeição permaneçam obscuras.


A mentira, por sua vez, constitui um tema particularmente relevante para a Represontologia. Se a representação busca estabelecer uma correspondência entre um referente e sua manifestação em uma mídia, a mentira opera no sentido inverso: cria, altera ou distorce fatos para produzir uma associação falsa entre o referente e sua representação. Em outras palavras, trata-se da fabricação deliberada de um falso embasamento representacional, capaz de induzir o sujeito a interpretar como verdadeiro aquilo que não possui correspondência com a realidade.





Referências:


LOPES, Ricardo Cortez. Repræsontologia: fundamentos da ciência das representações. São Paulo: UICLAP, 2024.





* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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