A ESCOLA ENTRE A CRISE E A TRANSFORMAÇÃO: EDUCAÇÃO, IDENTIDADE NACIONAL E PROJETO DE CIVILIZAÇÃO
Por Gustavo Bertoche*
A escola tem uma grande responsabilidade na organização da sociedade - inclusive na fermentação de muito do que há de pior na vida social: a ignorância, a corrupção, a superficialidade, a credulidade, a mansidão diante da injustiça.
Sempre que escrevo isso alguém reclama: "não podemos responsabilizar a escola por esses males; a culpa é das famílias, a culpa é dos políticos, a culpa é da cultura, da sociedade".
Ora, aí é que está o ponto: as famílias, os políticos, a sociedade - todo mundo passou pela escola: várias horas por dia, todos os dias, por muitos e muitos anos. A escola moderna é a maior máquina formadora de temperamentos, disposições, valores e práticas que já existiu em todos os tempos. Dependendo de como estiver estabelecido, o sistema escolar pode destruir o futuro de uma nação - ou pode sustentá-lo no caminho da justiça e da liberdade.
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Já Platão, há vinte e cinco séculos, havia percebido isso: o caminho para reformar a sociedade não está propriamente nas leis, na repressão ao crime, no modelo de escolha dos governantes; tudo isso deve se subordinar ao que há de mais fundamental na pólis, que é o processo educacional. É possivel dizer, sem medo de exagerar, que a educação - isto é: a transmissão, de geração a geração, dos conhecimentos e dos valores que sustentam a comunidade - é o núcleo da sociedade. Um programa educacional que forme bons cidadãos favorece a construção de uma sociedade boa e justa; se a sociedade é má e injusta, é porque as suas instâncias educacionais estão doentes.
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Alguém vai retrucar: "mas Bertoche, assim você está atribuindo todos os nossos males sociais aos trabalhadores da escola, que dão a vida pela educação e tão pouco recebem em retorno. Isso é uma injustiça!"
Ora, é possível ser muito bem-intencionado no interior de um sistema perverso; certamente havia excelentes funcionários, dedicados e honestos, no interior da máquina estatal nazista, por exemplo. Num sistema com propósitos maléficos, os seus mais eficientes e comprometidos operadores são justamente os que mais dano causam à sociedade.
Isto é: num sistema escolar como o nosso, construído de um modo que faz proliferar a confusão, a heteronomia e a injustiça, os "melhores professores" acabam sendo os maiores responsáveis pela manutenção e pelo aprofundamento dos nossos sérios problemas civilizacionais. Mantendo a analogia do parágrafo acima: Eichmann era um excelente funcionário - e um gestor competentíssimo.
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A escola, como a instituição educacional por excelência na Modernidade, é muito mais importante do que comumente se supõe - inclusive é mais importante do que supõem os próprios professores. Se queremos transformar a sociedade - quer seja por meio de uma reforma, quer seja por meio de uma ruptura radical -, precisamos antes transformar o sistema escolar.
Vejam que não estou aqui propondo "melhorar" a nossa escola; se ela é, hoje, um veneno para a civilização, o aperfeiçoamento dos seus métodos, a melhoria dos seus processos, terá como único resultado o aprofundamento do nosso desastre nacional. Não se transforma um veneno num bálsamo aumentando-lhe a potência.
Por isso, se equivocam todos os que afirmam que a solução para a educação brasileira passa pela "valorização do professor", pela "melhoria da estrutura", pelo "aperfeiçoamento da metodologia". Sim, é claro que o salário docente precisa ser melhorado - mas a valorização salarial não resolverá, per se, nenhum problema propriamente educacional. Afinal, é preciso antes de tudo repensar a educação a partir de seus pontos de partida, e então reorganizar a coisa toda - em primeiro lugar, o currículo; em segundo lugar, de modo subordinado ao currículo, as práticas e os espaços.
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E qual é o ponto de partida necessário de todo processo educacional?
É a forma da civilização. Forma, aqui, no sentido platônico: a idéia arquetípica do que desejamos ser daqui a cem, quinhentos, mil anos. É da forma da nossa cilivização - isto é: do projeto ideal do que seremos no futuro - que deve derivar todo o programa educacional.
Daí a necessidade de estabelecer, em primeiro lugar, quem nós somos; e, em segundo lugar, partindo de quem nós somos, quem nós queremos ser.
Acontece que ainda não conseguimos superar a primeira pergunta. Por todo o século XX, a intelectualidade brasileira tem girado em torno da busca de nossa identidade nacional. Os nossos principais movimentos de cultura - na literatura, nas artes plásticas, na música, no cinema, nas ciências humanas - têm sempre colocado variações da mesma pergunta: "quem nós somos?", "em que sentido nós somos diferentes de nossos antepassados indígenas, africanos, europeus, e em que sentido lhes somos semelhantes?", "qual é a nossa maneira específica de realizar a antropofagia cultural?". Nos últimos cem ou cento e cinquenta anos, temos sido um povo em busca de uma identidade. Daí o nosso extremo interesse, sem par no resto do mundo, em saber como os outros nos enxergam. Aliás, esse é um fenômeno muito conhecido no Youtube: tendemos a viralizar os vídeos em que estrangeiros falam do Brasil. Hegel explica.
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Eis a configuração do problema. A escola brasileira não educa; o que ela faz, nem ela sabe ao certo. Ela mantém, há mais de um século, práticas importadas do sistema escolar francês, que, em seu próprio contexto, têm um sentido e servem a um projeto de civilização. Porém, no Brasil, esse sistema escolar não tem nenhum sentido senão o da sua própria replicação. Todas as suas práticas são auto-referentes, e não correspondem a nenhuma necessidade da vida profissional, intelectual ou cultural da nossa civilização. A escola brasileira existe unicamente para que ela continue existindo, numa circularidade infinita.
Já temos, então, o mais difícil: a consciência da questão. A escola é o grande problema nacional - é a causa profunda dos nossos maiores males. Mas ela é também a condição para a construção da nossa civilização - é somente por meio da escola que poderemos nos transformar, na sucessão das gerações, numa nação justa e livre. Porém, essa transformação somente poderá ser iniciada se antes decidirmos, como povo, aonde queremos chegar.
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* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Filosofia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Professor da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR).
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