A MENTIRA COMO TECNOLOGIA DE PODER NA POLÍTICA BRASILEIRA: UMA ANÁLISE À LUZ DO PENSAMENTO DE JACQUES DERRIDA
Por Manoel Xavier Pires Neto*
Observações voltadas à fenomenologia política brasileira contemporânea revelam um quadro complexo em que a falsidade deixou de figurar apenas como mero desvio ético eventual de atores isolados. Instala-se no tecido institucional uma refinada tecnologia performática de poder, minuciosamente articulada para produzir consensos artificiais e assegurar a sobrevivência continuada de determinados agrupamentos no exercício da autoridade estatal. Longe de constituir uma anomalia contingente, tal dinâmica reflete a consolidação da distorção factual como método ordinário de gestão da coisa pública, imbuindo a vida democrática de uma encenação calculada que fragiliza a representatividade e corrói a confiança da cidadania nas instâncias republicanas de mediação interpessoal e institucional.
Nos prolegômenos dedicados ao estudo da história da mentira, Jacques Derrida (1996) assinala que o ato de mentir não se confunde sob hipótese alguma com o erro involuntário ou com a ignorância acerca da realidade concreta. A essência desse fenômeno reside na intenção consciente de enganar, uma vontade deliberada que direciona enunciados intencionalmente falsos ao interlocutor sob a promessa implícita ou explícita de veracidade discursiva. Na arena política nacional, essa distinção conceitual adquire elevado valor analítico ao demonstrar como agentes do campo conservador operam discursos desprovidos de lastro empírico com o propósito precípuo de orientar o comportamento das massas e moldar o julgamento popular mediante ficções operacionais.
Estruturas partidárias e lideranças da direita brasileira aprimoraram o uso dessas estratégias comunicacionais nas últimas décadas, convertendo a manipulação sistemática da verdade factual em um ativo institucional de elevado rendimento eleitoral. O exercício da governança passa a exigir a reiteração diária de mitos políticos, elaborados com a finalidade de resguardar projetos autoritários contra eventuais contestações éticas ou investigações no âmbito jurídico. A edificação desse aparato comunicativo opera em fluxo ininterrupto, neutralizando contradições patentes por meio da saturação de ruídos informativos e forçando as instituições republicanas a reagirem continuadamente a crises artificiais criadas especificamente para dispersar a atenção reflexiva da sociedade civil.
Sob a perspectiva histórica da formação social e política do país, o emprego sistemático do ardil discursivo revela continuidades estruturais marcantes em relação às práticas dominantes do mandonismo oligárquico tradicional e patrimonialista. Entretanto, as manifestações contemporâneas desse expediente exibem traços singulares e inéditos, impulsionados pela aceleração teletecnológica vertiginosa e pelo enfraquecimento acentuado dos canais habituais de mediação jornalística e acadêmica na sociedade. A aceitação tácita da dissimulação adquire contornos de doutrina funcional ordinária, orientando alianças pragmáticas entre facções políticas diversas e justificando o esvaziamento progressivo de preceitos constitucionais centrais sob o vago pretexto de preservação da estabilidade institucional e governabilidade.
Análises pautadas na sociologia política contemporânea identificam na emergência do bolsonarismo o momento culminante dessa inflexão estratégica ocorrida no seio das correntes conservadoras da direita nacional brasileira. O referido movimento estruturou um ecossistema comunicativo singular e altamente capilarizado, alimentado pela disseminação metódica de pânicos morais fabricados e pela contestação aberta das instâncias legítimas produtoras de conhecimento científico validado. Essa retórica contumaz abdica voluntariamente da persuasão fundada no argumento racional e factual, preferindo induzir estados permanentes de hipervigilância e indignação entre os seus adeptos, convertendo a esfera do debate cívico democrático em uma arena intransigente de guerra cultural diária perante a opinião pública.
Refletindo sobre as mutações da prática de mentir na modernidade, Derrida (1996) salienta que a falsificação contemporânea transcende a simples ocultação defensiva ao promover a substituição efetiva da própria realidade por substitutos icônicos e virtuais altamente elaborados. Essa operação desfaz os referenciais empíricos originais de maneira profunda e deliberada, consagrando simulacros digitais que passam a figurar perante a população leiga como as únicas evidências tangíveis da factualidade social coletiva. No cenário brasileiro, esse diagnóstico traduz-se no modo como plataformas de redes virtuais erguem bolhas herméticas e autossuficientes, nas quais narrativas fabricadas assumem o comando da cena pública e ditam soberanamente os rumos da opinião coletiva.
Antecipando o complexo horizonte eleitoral marcado para 2026, as táticas estratégicas da direita brasileira intensificam o uso dessas tecnologias performáticas como mecanismo central de preservação e expansão do seu capital político. O cálculo analítico dos grupos conservadores prioriza o tensionamento constante das regras do jogo democrático, projetando suspeitas infundadas e recorrentes sobre a higidez dos processos institucionais de votação e apuração dos sufrágios populares. Essa articulação prévia busca construir um álibi discursivo eficiente para eventuais desfavorabilidades nas urnas, mobilizando a base engajada em torno da tese fantasiosa de que qualquer resultado adverso decorrerá inevitavelmente de fraudes orquestradas pelas instâncias superiores do sistema.
Fluxos contínuos de desinformação veiculados em ambientes virtuais operam como catalisadores fundamentais para o enraizamento de percepções profundamente distorcidas no cotidiano de parcelas significativas da cidadania brasileira contemporânea. Algoritmos de distribuição direcionada selecionam fragmentos informativos conforme preferências ideológicas prévias, entregando aos usuários versões intencionalmente manipuladas e empobrecidas dos fatos históricos e acontecimentos sociais mais relevantes da vida nacional e política. A adesão emotiva sobrepõe-se com frequência à checagem rigorosa dos dados materiais, transformando a convicção individual no parâmetro exclusivo de validação discursiva e inviabilizando a construção de um consenso mínimo acerca dos reais problemas estruturais enfrentados pela comunidade política nacional.
Os estudos pormenorizados dedicados às dinâmicas partidárias contemporâneas sugerem que a normalização institucional da falsidade compromete gravemente a função pedagógica intrínseca ao próprio funcionamento do regime democrático de direito no país. Em lugar de estimular o letramento político e o espírito crítico emancipatório da população, o exercício da autoridade pública passa a induzir o obscurecimento deliberado dos mecanismos decisórios e distributivos do Estado republicano. A adulteração de estatísticas sociais, o bloqueio de dados oficiais e a difusão de revisões históricas infundadas tornam-se expedientes ordinários de governo, desgastando a confiança interpessoal e rebaixando a participação comunitária a um estado de apatia desenganada.
Na investigação sobre os paradoxos discursivos da política moderna, o pensamento de Derrida (1996) aborda a complexidade do conceito de autoengano, no qual o formulador da mentira acaba assimilando a própria ficção como verdade incontestada e definitiva. Sob as condições da democracia de massas, essa vertente expande-se comunitariamente de modo célere, levando agrupamentos inteiros a adotarem construções fantasiosas como pilares inegociáveis de sua identidade e visão de mundo social. O bolsonarismo beneficiou-se amplamente dessa dinâmica de autossugestão coletiva, constituindo uma militância altamente refratária a demonstrações fáticas objetivas e disposta a defender dogmas ideológicos com fervor quase religioso perante o escrutínio público.
Essa engenharia de construção de verdades operacionais pela direita brasileira sustenta-se igualmente na apropriação instrumental de símbolos pátrios e liturgias confessionais com vistas ao alargamento constante da sua base eleitoral e social. A sacralização da atividade política imprime um tom maniqueísta e radical às reivindicações partidárias, transfigurando oponentes eleitorais legítimos em adversários existenciais desprovidos de qualquer direito de convivência civil e institucional serena. Essa polarização axiológica inviabiliza o diálogo parlamentar de alto nível e reduz a atividade legislativa a um palco de embates estéreis, nos quais projetos republicanos urgentes são postergados em favor de disputas morais calculadas para inflamar os adeptos.
Iniciativas oriundas do Poder Judiciário e de órgãos de controle republicano buscam delimitar a expansão desenfreada desse ecossistema desformativo por meio de sanções coercitivas pontuais e investigações formais contínuas da autoridade pública competente. Contudo, a resposta de cunho estritamente legalista enfrenta sérios entraves estruturais diante da fluidez da linguagem digital e da velocidade vertiginosa de propagação das mensagens em redes privadas de comunicação social contemporânea. O enquadramento normativo arrisca por vezes alimentar a retórica extremista, que converte punições jurídicas cabíveis em pretexto conveniente para denunciar pretensas perseguições institucionais e reforçar a coesão interna do movimento conservador diante dos seus simpatizantes fiéis.
Instigantes passagens dos prolegômenos derridianos destacam que atos de linguagem de natureza performática possuem a faculdade originária de instituir realidades jurídicas e políticas sem dependência de fatos consumados prévios ou evidências externas demonstráveis. No contexto brasileiro contemporâneo, essa capacidade de fabricar factualidade pela palavra oficial é explorada de modo recorrente por lideranças autoritárias que buscam alterar a interpretação do passado recente perante a comunidade nacional e internacional. Declarações proferidas a partir de posições de elevado poder pretendem fundar versões convenientes sobre episódios históricos, praticando uma violência simbólica que desgasta sensivelmente as balizas essenciais do Estado Democrático de Direito.
Na perspectiva da disputa eleitoral prevista para 2026, nota-se um reposicionamento tático de diversos setores conservadores que procuram suavizar a estética do discurso extremista sem contudo abdicar dos seus expressivos dividendos políticos e institucionais acumulados. Facções da chamada direita tradicional assimilam metodologias sofisticadas de distorção informativa, intencionando capturar o eleitorado radicalizado sem expor suas lideranças formais a sanções diretas da Justiça Eleitoral brasileira no pleito republicano vindouro. Essa assimilação tática evidencia a centralidade da tecnologia da falsidade no cálculo de sustentabilidade de todo o espectro conservador nacional, indicando que a veracidade discursiva permanece secundarizada nos arranjos partidários vigentes no país.
Examinando a tensão histórica entre o imperativo ético da veracidade e as convenções pragmáticas da razão de Estado, a crítica desconstrutiva sinaliza a fragilidade estrutural das garantias morais na arena política contemporânea. No panorama nacional, o compromisso com a transparência pública cede espaço de forma recorrente à oportunidade conjuntural e à conveniência imediata de grupos instalados nas instâncias estratégicas de decisão estatal. A retenção premeditada de informações governamentais e o uso de subterfúgios retóricos são apresentados como recursos válidos de governabilidade, esvaziando a prestação de contas e rebaixando o debate público a arranjos sigilosos celebrados à margem do controle cidadão.
O apelo constante a um passado idílico e harmonioso integra o núcleo estrutural das narrativas reacionárias mobilizadas com elevada frequência na sociedade brasileira atual por lideranças de matriz conservadora e saudosista. A fabricação dessa memória nostálgica busca ocultar tragédias estruturais da história nacional, encobrindo as marcas indeléveis da escravidão e do autoritarismo de Estado sob o manto ilusório de uma cordialidade social raramente comprovada no cotidiano histórico. Essa afabulação mitológica oferece refúgio psíquico temporário a estratos sociais atemorizados diante das rápidas transformações culturais contemporâneas, bloqueando a tomada de consciência crítica necessária para a superação das desigualdades históricas que marcam o país.
Fraturas expostas no pacto republicano evidenciam com clareza a extensão dos danos causados pela consolidação da mentira enquanto linguagem política hegemônica na cena nacional contemporânea e no espaço público do país. Quando a busca sincera pela verdade factual deixa de figurar como baliza aceita entre as forças concorrentes, os canais institucionais de mediação perdem a autoridade necessária para pacificar conflitos sociais emergentes de modo legítimo e estável. A sociedade fragmenta-se em feudos ideológicos incomunicáveis, nos quais a busca por soluções acordadas é substituída pela tentativa de deslegitimação simbólica do adversário, colocando a estabilidade democrática sob constante risco de colapso institucional iminente.
Perante essa fenomenologia da simulação contínua, o cidadão comum vê-se arrastado à condição de espectador atônito diante de um espetáculo político de contornos acentuadamente espectrais na vida pública do país. A dificuldade crônica de discernir entre acontecimentos autênticos e fabulações virtuais gera um estado difuso de desorientação cognitiva e descrença generalizada na eficácia real da ação coletiva transformadora e emancipatória do corpo social contemporâneo. A própria perspectiva de um horizonte futuro compartilhado torna-se nebulosa, sequestrada por alertas alarmistas e promessas salvadoras articuladas especificamente para manter a ordem vigente e desmobilizar movimentos legítimos de emancipação civil na sociedade brasileira democrática e participativa.
Requer-se da reflexão sociológica brasileira uma recusa firme tanto do pessimismo paralisante quanto da confiança ingênua na superação mecânica e espontânea desta grave crise institucional que atravessa o país na atualidade política e social contemporânea. A simples denúncia dos simulacros promovidos pelas correntes de direita não assegura o restabelecimento automático de uma esfera pública pautada pelo rigor ético e pela racionalidade deliberativa necessária à vivência democrática saudável. Superar a mentira consolidada exige o trabalho paciente de reconstrução das mediações sociais, a valorização contínua do ensino crítico e o fortalecimento de mídias independentes capazes de oferecer contrapontos fundamentados às narrativas hegemônicas.
A reconstituição da dignidade da vida política no Brasil demanda um estado de vigília e questionamento ininterrupto perante discursos oficiais e fórmulas de poder pré-fabricadas pelas elites governantes de ocasião no país. Desmontar as engrenagens performáticas que alimentam a dominação de facções autoritárias constitui o passo indispensável para devolver o protagonismo político à cidadania consciente e engajada na construção republicana da nação democrática. Ao rejeitar o cinismo institucionalizado e demandar o compromisso intransigente com o dizer verdadeiro nas declarações públicas, a sociedade civil afirma sua recusa peremptória em ver o futuro do país subordinado à tutelar conveniência da mentira institucionalizada.
Referências:
DERRIDA, Jacques. História da mentira: prolegômenos. Estudos avançados, v. 10, n. 27, p. 7-39, 1996.
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* Bacharel em Direito. Especialista em Direito Previdenciário, Direito Constitucional e Direitos Humanos. Mestrando pelo PPGOA da UFPB. Advogado. Docente.
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