BOLSONARISMO E RELIGIÃO: MEIOS DE CAPILARIDADE ELEITORAL
Por Manoel Xavier Pires Neto*
A aproximação entre vertentes do movimento evangélico e a candidatura de Jair Bolsonaro reconfigurou as dinâmicas da representação política no Brasil. Pesquisas acadêmicas indicam que a mobilização de crenças e símbolos confessionais operou como vetor de expansão eleitoral em diferentes regiões do país. Esse movimento transformou espaços antes dedicados precipuamente à espiritualidade em arenas ativas de arregimentação partidária.
O ingresso de lideranças evangélicas na cena cívica nacional remonta às últimas décadas do século vinte, quando a busca por representação institucional ganhou ritmo nas bancadas parlamentares. Contudo, conforme observa Camurça (2020), o cenário recente apresentou uma confessionalização mais pronunciada do espaço público e das estruturas governamentais. A transição de um ativismo corporativo para um projeto de poder conservador alterou o padrão de interação com o Estado.
A construção de narrativas focadas na proteção da família e dos valores tradicionais serviu de combustível para aglutinar eleitores conservadores em torno do bolsonarismo. De acordo com Almeida e Vieira (2026), estratégias discursivas pautadas no pânico moral criaram um ambiente de permanente sobressalto no seio das comunidades de fé. Esse alarmismo direcionou o comportamento cívico ao apresentar escolhas partidárias como imperativos morais indissociáveis da fé.
A trajetória política do ex-presidente foi progressivamente associada a interpretações providencialistas no imaginário de grupos religiosos. Estudos sobre o fenômeno mostram que discursos proféticos reconfiguraram a imagem do candidato, projetando-o como uma figura escolhida por desígnio divino. Essa elaboração simbólica conferiu sustentação ética a pautas governamentais e fortaleceu vínculos comunitários.
A difusão de mensagens confessionais encontrou nos aplicativos de comunicação e nas redes digitais um canal de elevada capilaridade e alcance. Conforme apontam Almeida e Vieira (2026), os chamados púlpitos digitais permitiram que orientações político-eleitorais circulassem com rapidez entre os fiéis. A validação religiosa de conteúdos partidários contribuiu para blindar certas redes informacionais contra checagens e questionamentos externos.
Durante os pleitos presidenciais, temas sensíveis ao eleitorado cristão foram explorados por campanhas de desinformação intencionalmente estruturadas. Investigações conduzidas por Sousa et al. (2024) revelaram que a propagação de notícias falsas associou oponentes ideológicos a ameaças de perseguição e ao desrespeito religioso. Esse ambiente polarizado converteu controvérsias do debate democrático em confrontos de sobrevivência identitária.
Para compreender a dinâmica desse ecossistema, cabe ressaltar a análise teórica sobre a mercantilização do prestígio religioso em prol de pleitos partidários. O sociólogo José Luis Pérez Guadalupe problematiza essa transposição de autoridade eclesiástica para a arena pública:
Portanto, acreditamos que a grande novidade dessas últimas décadas não seja, stricto sensu, a incursão da religião na política latino-americana, uma vez que sempre houve relação entre elas; mas a substituição dos católicos experientes pelos “novos cristãos” (os evangélicos) nesse relacionamento. Os evangélicos, na prática, são os novos atores religiosos da política latino-americana, e isso ocorre porque certos líderes evangélicos pretendem estender sua militância religiosa à esfera pública e converter o seu “capital religioso” em um rentável “capital político” (Guadalupe, 2020, p. 19).
A conversão do prestígio pastoral em dividendo eleitoral expõe fragilidades na utilização institucional das comunidades de fé. Segundo a reflexão de Guadalupe (2020), a autoridade acumulada no ambiente do templo passa a ser transacionada na disputa política secular. Esse mecanismo condiciona o exercício da cidadania à chancela de ministros religiosos, vinculando a fé a escolhas partidárias.
O direcionamento explícito de votos por parte de sacerdotes atinge a liberdade de consciência assegurada pela ordem constitucional. Relatos acadêmicos e jurídicos documentam situações em que orientações eclesiásticas assumiram o caráter de ordens morais de cumprimento obrigatório. A promessa de bênçãos ou a ameaça de sanções transcendentais induzem o eleitor a submeter sua vontade cívica à hierarquia do templo.
A transposição do conceito teológico de batalha espiritual para o pleito democrático alterou a linguagem da disputa eleitoral. Como analisa Burity (2020), a maniqueização do debate público transformou adversários ideológicos em alvos de rejeição moral. Essa abordagem retórica buscou legitimar táticas agressivas sob o pretexto de salvaguardar preceitos sagrados.
A influência da Teologia do Domínio no cenário nacional forneceu sustentação conceitual para projetos de ocupação do poder estatal. Conforme argumenta Pereira (2023), essa corrente encoraja o controle religioso de setores estratégicos da sociedade e da administração pública. O intuito de moldar legislações seculares segundo dogmas confessionais gera tensões com a pluralidade cultural do país.
No âmbito do Poder Legislativo, a atuação da Frente Parlamentar Evangélica consolidou a defesa de pautas morais de viés conservador. Estudos de Cabral, Almeida e Haag (2024) apontam que discursos de parlamentares pastores articulam citações das Escrituras com a monitoria de projetos de lei. Essa atuação sistemática garantiu espaço relevante na formulação de diretrizes governamentais.
O ordenamento jurídico brasileiro estabelece a separação entre o Estado e as confissões religiosas como pilar da estrutura republicana. Segundo a análise de Melo (2025), a jurisprudência constitucional reafirma que a laicidade exige neutralidade estatal e equidistância perante as crenças. A preservação da esfera pública secular impede que dogmas confessionais se transformem em normas de observância geral.
As pressões exercidas no espaço eclesiástico foram documentadas em processos que apreciaram o desvirtuamento de cultos durante o período eleitoral. Ações levadas à Justiça Eleitoral questionam a transformação de locais de culto em comitês informais de propaganda partidária. Conforme registra Carvalho Junior (2019), o aproveitamento da estrutura eclesiástica em benefício de candidaturas compromete a igualdade do pleito. A atuação fiscalizadora busca coibir práticas coercitivas que sujeitem a vontade do eleitor à intimidação psicológica.
Em julgamentos sobre a matéria, o Tribunal Superior Eleitoral firmou a tese de que o abuso de poder religioso não constitui ilícito autônomo na legislação. Contudo, a Corte assegura que excessos cometidos em contexto confessional podem ser sancionados como abuso de poder político ou econômico. O enquadramento em figuras típicas existentes harmoniza a proteção da lisura eleitoral com o princípio da legalidade estrita.
A legislação eleitoral impõe restrições severas ao uso de imóveis pertencentes a entidades religiosas durante a veiculação de propaganda. Entendimentos das cortes superiores apontam que os templos são equiparados a bens de uso comum para fins de campanha. A vedação de atos de proselitismo político nesses espaços resguarda o equilíbrio da concorrência entre os demais concorrentes.
A partidarização ostensiva de cerimônias sacras provocou fissuras sociais no interior das próprias comunidades de crentes. Pesquisas no campo sociológico indicam que a imposição de alinhamentos ideológicos motivou o afastamento de fiéis de suas congregações locais. O crescimento do número de pessoas desvinculadas de instituições eclesiásticas reflete tensões geradas pelo proselitismo nos cultos.
A retórica de vilanização atribuída a correntes políticas de oposição enfraqueceu os parâmetros de convivência cívica plural. Segundo a análise de Almeida e Vieira (2026), a desumanização do adversário ideológico buscou desqualificar o debate democrático formal. A categorização da disputa eleitoral como um confronto espiritual acentuou episódios de intolerância entre cidadãos.
A aliança estabelecida entre o projeto bolsonarista e setores religiosos integrou a defesa de pautas morais ao ideário econômico neoliberal. Conforme salienta Camurça (2020), a convergência entre o conservadorismo cívico e a desregulamentação do mercado ampliou bases de apoio. Essa cooperação pragmática assegurou a aprovação de matérias de interesse mútuo e a concessão de contrapartidas institucionais a igrejas.
As negociações entre a alta liderança eclesiástica e instâncias do Governo Federal resultaram em medidas de desoneração tributária relevantes. A literatura acadêmica documenta o remanejamento de débitos fiscais e o perdão de dívidas acumuladas por entidades confessionais. O favorecimento de corporações religiosas por atos da administração pública evidencia lógicas de reciprocidade no cenário político.
A utilização de concessões públicas de radiodifusão e canais televisivos por instituições de fé potencializou a difusão de discursos alinhados. Conforme adverte Carvalho Junior (2019), a veiculação de pregações de teor eleitoral nesses veículos opera como mecanismo de forte impacto na opinião pública. A penetração das mídias confessionais consolida diretrizes partidárias sob a aparência de orientação espiritual.
A repercussão de narrativas sobre projetos educativos nas escolas desempenhou papel central na projeção cívica da candidatura presidencial. Segundo os estudos de Soares (2023), o combate ostensivo à chamada ideologia de gênero tornou-se bandeira de aglutinação entre eleitores evangélicos. A mobilização em torno de pânicos morais unificou diferentes denominações na defesa de uma agenda conservadora.
Os levantamentos estatísticos dos pleitos recentes confirmam a votação expressiva obtida pelo bolsonarismo junto ao segmento evangélico. Dados citados por Soares (2023) mostram que a margem de votos conquistada nesse eleitorado foi decisiva para a vitória presidencial de 2018. A disciplina na transmissão de diretrizes pastorais assegurou vantagem eleitoral considerável em urnas de diversas regiões.
A realização de atos de oração e cerimônias confessionais na sede do Poder Executivo suscitou questionamentos sobre o cumprimento do dever de laicidade. Conforme aponta a literatura jurídica, a promoção ostensiva de ritos de uma vertente específica compromete a neutralidade axiológica do Estado. A encenação de cultos em ambientes estatais tensiona o princípio da igualdade entre as diversas orientações religiosas.
A adoção da filiação confessional como requisito para a escolha de membros de tribunais superiores introduziu novos elementos no debate institucional. De acordo com a análise de Melo (2025), a indicação de magistrados declaradamente evangélicos buscou atender a demandas de grupos religiosos de apoio. Essa prática gera inquietações sobre a imparcialidade na apreciação de matérias relacionadas a direitos fundamentais.
Apesar da adesão de grandes estruturas eclesiásticas ao bolsonarismo, o segmento evangélico apresenta divergências internas quanto à relação com a política. Pesquisas do campo sociológico ressaltam a atuação de coletivos de crentes e lideranças progressistas que denunciam a instrumentalização da fé (Abrão, 2025). O registro dessas vozes dissonantes evidencia que a comunidade evangélica não forma um grupo monolítico, porém é sabido que, ao divergir, por eles, os evangélicos, qualquer pessoa se torna abjeta e repugnante, chegando a mensurar a fé e espiritualidade pela confissão de voto.
Propostas de alteração na legislação eleitoral sob apreciação no Congresso sugerem a flexibilização de sanções relativas ao uso de templos na campanha. Segundo avaliações de alguns especialistas (Brant, 2026; Menezes, 2025), a atenuação das regras sobre manifestações religiosas pode fragilizar a fiscalização sobre abusos, permitindo que igrejas se tornem, literalmente, ante esse afrouxamento jurídico, currais eleitorais sem freio e sem punição aos que violam a legislação eleitoral vigente.
O desvio da missão eclesiástica em favor de projetos de poder pessoal ou partidário compromete a credibilidade das instituições de fé. Autores dedicados à ética comunitária destacam que a subjugação do púlpito a interesses eleitorais deturpa a função pastoral. A preservação da integridade do ambiente eclesiástico requer o distanciamento firme entre a orientação espiritual e as disputas partidárias seculares.
A análise do fenômeno bolsonarista revela como a coação de fé e a capilaridade eclesiástica desafiam a integridade do processo democrático no Brasil. O fortalecimento dos mecanismos de fiscalização e a afirmação do princípio da laicidade permanecem essenciais para assegurar a liberdade de voto do eleitor. Garantir o equilíbrio das disputas eleitorais e a imunidade dos cidadãos a pressões confessionais constitui exigência indispensável para o futuro da República.
Referências:
ABRÃO, Luciano Rogério do Espírito Santo. Desafios contemporâneos aos princípios constitucionais da laicidade estatal e da liberdade religiosa: um protoprojeto de Estado teocrático neopentecostal?. Revista Inova Jur, v. 4, n. 1, p. C3-C34, 2025.
ALMEIDA, Francyel Aparecido Ribeiro; VIEIRA, Vera Lúcia Silva. Púlpitos digitais: uma análise teórica do ativismo político evangélico e a construção de fake news nas eleições de 2022. Convergências: estudos em Humanidades Digitais, v. 1, n. 11, p. 20-37, 2026.
BRANT, Décio Xavier. Abuso religioso nos pleitos eleitorais: possibilidade de responsabilização pelos tribunais eleitorais e pelo STF à luz da jurisprudência e da legislação vigente. Revista Políticas Públicas & Cidades, [S. l.], v. 15, n. 8, p. e3618, 2026.
BURITY, Joanildo Albuquerque. Itinerário histórico-político dos evangélicos no Brasil. Novo ativismo político no Brasil, p. 195-216, 2020. Disponível em: https://ixtheo.de/Record/1806896834. Acesso em: 5 out. 2026.
CABRAL, Sara Regina Scotta; ALMEIDA, Lorenzo de; HAAG, Matheus Becker Marques. Estratégias do discurso político-religioso brasileiro no governo Bolsonaro. Revista Entrepalavras, Fortaleza, v. 14, n. 3, p. e2824, 2024.
CAMURÇA, Marcelo. Um poder evangélico no Estado brasileiro? Mobilização eleitoral, atuação parlamentar e presença no governo Bolsonaro. Revista do NUPEM, 2020.
GUADALUPE, José Luis Pérez. Brasil e os novos atores religiosos da política latino-americana. Novo ativismo político no Brasil, p. 17-110, 2020. Disponível em: https://ixtheo.de/Record/1806896788. Acesso em: 10 out. 2026.
CARVALHO JUNIOR, Roberto Camilo de. O Abuso de Poder Religioso no processo eleitoral brasileiro. Biblioteca do Tribunal Superior Eleitoral. Brasília: 2019. Disponível em: http://bibliotecadigital.tse.jus.br/xmlui/bitstream/handle/bdtse/5774/2019_carvalhojunior_abuso_poder_religioso.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acessado em: 08 out. 2026.
MELO, Danielle de Carvalho Pacheco de. Seja feita a vossa vontade: a religião na política do Estado “laico” brasileiro. 2025. 308 f. Tese (Doutorado em Direito) - Faculdade de Direito, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2025.
MENEZES, Alexander Ladislau. O abuso do poder religioso nas eleições presidenciais de 2022: o impacto do protagonismo evangélico na liberdade do voto. 2025. 107 f. Dissertação (Mestrado Acadêmico em Direito Constitucional). Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa, Brasília, 2025.
PEREIRA, Eliseu. Teologia do Domínio: Uma chave de interpretação da relação política evangélico-bolsonarista. Projeto História: Revista do Programa de estudos pós-graduados de História, v. 76, p. 147-173, 2023.
SOARES, Evanway Sellberg. A construção da pauta protestante na política brasileira: paralelos entre os Estados Unidos da América e Brasil. PLURA, Revista de Estudos de Religião / PLURA, Journal for the Study of Religion, [S. l.], v. 14, n. 2, p. 112–133, 2023.
SOUSA, Marco Túlio de; PEREIRA, Reinaldo Maximiano; OLIVEIRA, Jênifer Rosa de; BARROSO, Letícia Costa Paolinelli; SILVA, Brígida Gonçalves Magalhães. Desinformação e vilanização: as fake news para públicos religiosos nas eleições brasileiras de 2022. Estudos em Comunicação, n. 38, p. 86, 2024.
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* Bacharel em Direito. Especialista em Direito Previdenciário, Direito Constitucional e Direitos Humanos. Mestrando pelo PPGOA da UFPB. Advogado. Docente.
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