O CAPITALISMO DE VIGILÂNCIA NAS ELEIÇÕES BRASILEIRAS DE 2026
Por Manoel Xavier Pires Neto*
A aproximação do segundo turno do pleito presidencial de 2026 expõe um cenário em que a disputa pelo voto ocorre primariamente nas camadas silenciosas da mediação tecnológica. Longe dos palanques tradicionais, a formação das preferências políticas passa pela filtragem opaca de fluxos de informação customizados para cada indivíduo. A liturgia democrática perde gradualmente sua espontaneidade cívica enquanto operadores partidários convertem o cotidiano digital da população em instrumento de cálculo eleitoral.
O processo eleitoral contemporâneo baseia-se na promessa de escolha consciente, mas opera sob a vigilância contínua dos rastros deixados pelos cidadãos no ciberespaço. A sucessão de interações nas redes, pesquisas de consumo e vídeos assistidos nas madrugadas alimenta sistemas desenhados para quantificar as vulnerabilidades da sociedade. Os gabinetes estratégicos utilizam esses registros fragmentados para calibrar mensagens que estimulam reações viscerais antes mesmo da reflexão racional.
Ao examinar essa lógica em seu livro A Era do Capitalismo de Vigilância, Shoshana Zuboff adverte que a experiência subjetiva foi sequestrada para alimentar uma economia predatória. A autora observa que a conduta cotidiana deixa de pertencer ao indivíduo e passa a abastecer modelos industriais focados na antecipação probabilística dos passos humanos. No tabuleiro político brasileiro, essa engrenagem converte o sofrimento social e os anseios comunitários em insumos brutos para a manutenção de hegemonias partidárias.
O marketing político nacional assimilou com rapidez as metodologias do setor corporativo, deixando para trás os manifestos programáticos e os projetos de desenvolvimento. As coligações preferem investir volumosos recursos públicos do fundo partidário na contratação de consultorias especializadas no processamento massivo de perfis psicológicos. A atividade partidária renuncia ao convencimento público e assume a função tecnocrática de moldar percepções mediante estímulos invisíveis aos olhos da cidadania.
O eleitor comum comparece às urnas imaginando exercer sua soberania, desconhecendo os mecanismos de indução prévia aos quais esteve submetido por meses. Sua rotina de navegação permitiu aos algoritmos mapear inseguranças financeiras, crenças religiosas e temores familiares com precisão cirúrgica. A soberania popular reduz-se a uma resposta condicionada quando estímulos direcionados conseguem acionar gatilhos emocionais previamente catalogados pelos centros de controle.
Os aplicativos de mensagens instantâneas e as plataformas de vídeo tornaram-se o palco primário onde se desenha a correlação de forças do Brasil contemporâneo. Nesses ambientes fechados, conteúdos desprovidos de contexto circulam velozmente, criando realidades paralelas imunes à fiscalização jurídica e ao contraditório jornalístico. O isolamento digital dos cidadãos favorece a proliferação de discursos maniqueístas que enfraquecem a capacidade de coesão do tecido comunitário.
As agruras econômicas que castigam a maioria das famílias brasileiras não geram necessariamente propostas articuladas de emancipação ou reformas estruturais consistentes. Pelo contrário, as carências materiais são decompostas em vetores informacionais para que marqueteiros elaborem promessas microdirecionadas e ressentimentos direcionados. A precariedade do trabalhador é explorada como fragilidade psicológica para garantir adesão eleitoral sem o compromisso de transformações materiais reais.
O microdirecionamento de mensagens opera como uma técnica de fragmentação cívica que inviabiliza o debate amplo em praça pública. Grupos vizinhos recebem diagnósticos opostos sobre a mesma crise nacional, segmentados de acordo com preconceitos e afinidades monitoradas em tempo real. A fragmentação da esfera pública anula a possibilidade de consensos mínimos e consolida agrupamentos cognitivos incapazes de dialogar entre si.
Os concorrentes aos cargos majoritários em 2026 demonstram escassa disposição para confrontar as contradições profundas da desigualdade brasileira. Suas estratégias priorizam o monitoramento contínuo de grupos focais digitais, alterando discursos ao sabor de variações métricas de curtidas e compartilhamentos. A liderança política renuncia à coragem de propor rumos civilizatórios e prefere subordinar a deliberação pública aos humores calculados por inteligências de máquina.
A polarização afetiva que domina o cenário nacional não resulta de uma divergência puramente ideológica entre projetos de país contrastantes. Trata-se de uma consequência planejada da arquitetura das plataformas, cuja rentabilidade depende da manutenção de estados contínuos de beligerância e engajamento reativo. Os contendores eleitorais alimentam essa animosidade artificial porque a hostilidade mútua mantém as massas atentas e previsíveis diante das telas.
Ao transpor a lógica dos mercados de comportamentos futuros para o pleito, os partidos adquirem a capacidade de antecipar índices de abstenção e volubilidade. Zuboff ressalta que o objetivo do capitalismo de vigilância reside na modificação da conduta para garantir certeza aos investidores do sistema. No contexto eleitoral, os cidadãos figuram como contingentes monitorados cujo comparecimento ou ausência é orquestrado para assegurar a vitória de determinados blocos de poder.
A autoridade que emana dessa infraestrutura computacional não precisa recorrer à coerção física para impor obediência aos grupos dominantes. A escritora conceitua essa configuração como poder instrumentário, caracterizado pela intervenção sutil nos hábitos dos indivíduos sem despertar resistência explícita. As escolhas políticas passam a sofrer pressões imperceptíveis que minam a autonomia moral dos indivíduos sem que estes percebam o cerceamento de seu livre-arbítrio.
O aparato do Grande Outro desenha uma malha disseminada que monitora a vida social brasileira em busca de previsibilidade estatística. Cruzamentos entre dados previdenciários, registros cadastrais e consumo de entretenimento constroem retratos detalhados de vastos segmentos da população. A privacidade dissolve-se como garantia constitucional enquanto corporações estrangeiras acumulam conhecimento desproporcional sobre as fragilidades do povo brasileiro.
Os órgãos de fiscalização do Estado brasileiro encontram imensas dificuldades para acompanhar a velocidade das estratégias algorítmicas de persuasão. As auditorias institucionais esbarram no segredo de justiça comercial das grandes empresas de tecnologia e na dispersão veloz das redes privadas de contato. A legislação eleitoral permanece atrelada a modelos analógicos enquanto o poder econômico transita livremente por corredores digitais desprovidos de transparência pública.
A disparidade entre os recursos financeiros dos grandes partidos e a conscientização cívica do eleitorado acentua as assimetrias históricas da República. Poucas agremiações concentram os maiores quinhões das verbas estatais, terceirizando o desenho eleitoral para especialistas em modulação de condutas e contenção de danos. O cidadão desprovido de ferramentas de letramento digital permanece desarmado diante de sofisticados aparatos psicológicos voltados para a captura de sua atenção.
O apelo a narrativas ufanistas, à defesa da moralidade ou a promessas vazias de modernização esconde a mercantilização profunda da vontade popular. Os lemas grandiloquentes funcionam como fachadas retóricas destinadas a encobrir transações de dados entre intermediários corporativos e comitês de campanha. A linguagem da liberdade individual é cooptada por esquemas que pretendem apenas controlar escolhas e restringir a imaginação política a limites aceitáveis ao capital.
O enfraquecimento das entidades de classe, dos centros comunitários e dos espaços de encontro físico favorece o isolamento do cidadão diante das telas. Quando a praça pública é substituída pelo fluxo automatizado de postagens, as trocas solidárias e as negociações coletivas perdem terreno para o consumo solitário de indignações pré-fabricadas. A convivência democrática degrada-se em um agregado de indivíduos confinados em bolhas digitais desenhadas para reforçar ressentimentos preexistentes.
A segmentação demográfica refinada permite classificar o eleitorado com base em marcadores regionais, étnicos e confessionais para fins estritamente utilitários. Os comitês eleitorais não buscam integrar as demandas das periferias ou das minorias em um pacto de cidadania compartilhado e republicano. A política rebaixa as particularidades culturais a variáveis estatísticas manejadas para ativar pânicos morais ou distribuir falsas esperanças em momentos decisivos.
A fabricação sistemática de escândalos e crises passageiras atua como técnica deliberada de dispersão da atenção coletiva ao longo das semanas de campanha. Os eleitores são mantidos em sobressalto contínuo, reagindo a ameaças imaginárias enquanto as questões orçamentárias fundamentais permanecem fora do foco das discussões. A exaustão mental provocada pelo excesso de estímulos destrói a serenidade indispensável ao exercício crítico do direito constitucional ao voto.
Os postulados da psicologia comportamental aplicados ao marketing político convertem o processo cívico em um experimento empírico de grandes proporções. Zuboff denuncia que essa ambição de modificar condutas retoma ideais tecnocráticos de condicionamento social incompatíveis com a dignidade humana. A cidadania é reduzida a reflexos automáticos que atendem a interesses distantes da superação dos abismos sociais presentes no território brasileiro.
A sucessão ininterrupta de campanhas centradas na desqualificação mútua produz uma onda crônica de ceticismo e apatia entre os jovens eleitores. Muitos cidadãos passam a encarar o ritual das urnas como uma formalidade inócua, incapaz de alterar os pilares da concentração de renda e do poder oligárquico. O descrédito nas vias institucionais abre caminho para saídas autoritárias que prometem ordem fácil em meio à desorientação provocada pela saturação informativa.
A comodificação do futuro político consolida a dominação das elites econômicas que financiam e dominam os aparatos de inteligência informacional. Os detentores da infraestrutura digital exercem uma tutela disfarçada sobre as decisões coletivas, preservando privilégios sem a necessidade de rupturas constitucionais abertas. A democracia transforma-se em um espetáculo de escolhas induzidas que legitima governos desvinculados dos interesses prementes das maiorias populares.
As instituições tradicionais, incluindo parcelas expressivas da imprensa comercial e da academia, demoram a dimensionar a gravidade da expropriação da soberania popular. Persiste a tendência de analisar a disputa eleitoral com categorias do século passado, ignorando que o campo de batalha foi profundamente alterado por monopólios transnacionais. A incapacidade de decifrar as novas armas da persuasão digital compromete a defesa do patrimônio republicano contra as investidas do poder privado.
Desmascarar os métodos de vigilância aplicados à corrida presidencial exige coragem para questionar os interesses comerciais dos donos das infraestruturas de comunicação. A crítica social precisa apontar que a soberania dos dados pessoais é indissociável da autonomia política e do direito à autodeterminação coletiva. A preservação do espaço democrático depende do desmantelamento das engrenagens secretas que tratam as mentes dos cidadãos como territórios a serem colonizados.
As eleições brasileiras de 2026 oferecem a oportunidade de confrontar a submissão da política aos cálculos frios da modulação algorítmica. Superar o controle comportamental requer a reconstrução da solidariedade presencial e a reabilitação da palavra pública como instrumento de deliberação consciente. O resgate da dignidade cívica permanece como a principal barreira capaz de devolver ao voto o seu verdadeiro sentido de liberdade e transformação histórica.
Referências:
ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância: a luta por um futuro humano na nova fronteira do poder. Tradução de George Schlesinger. 1. ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.
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* Bacharel em Direito. Especialista em Direito Previdenciário, Direito Constitucional e Direitos Humanos. Mestrando pelo PPGOA da UFPB. Advogado. Docente.
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