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POR QUE É TÃO DIFÍCIL DIALOGAR NA POLÍTICA? OS SENTIDOS DA LIBERDADE E OS DESENCONTROS ENTRE DIREITA E ESQUERDA

há 6 dias
5 min de leitura

Por Gustavo Bertoche*


Como intelectual crítico, não sigo critérios pré-determinados por nenhum partido ou grupo político: sou completamente livre para circular, sem nenhuma culpa, entre idéias e autores de todas as cores. Leio de Ortega a Sartre, de Voegelin a Lukács – e em todos encontro mais convergências do que se costuma supor.


Por isso causa-me espanto a dificuldade que os membros dos campos políticos opostos têm, principalmente aqui no Brasil, de conversar como pessoas racionais e adultas. Por que os que se definem como de esquerda consideram os que se definem como de direita como monstros – e vice-versa?


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Em suma: por que o diálogo político é tão difícil?


O diálogo é difícil porque as palavras na política são polissêmicas. Elas não correspondem a um objeto que possa ser indicado denotativamente. Elas dependem do contexto – e, principalmente, do lugar de onde se fala e de onde se ouve.

Por exemplo: na campanha das eleições de 2022, tanto a direita quanto a esquerda defendiam a liberdade. Votar no Bolsonaro era "votar pela liberdade e contra a ditadura comunista". Votar no Lula era "votar pela liberdade e contra a ditadura fascista".


Evidentemente, trata-se aqui de uma única palavra – "liberdade" -, mas de dois conceitos diferentes. Isaiah Berlin já havia percebido a polissemia desse termo em 1958, no famoso ensaio "Dois conceitos de liberdade" (disponível no Brasil em "Isaiah Berlin: Estudos sobre a humanidade – uma antologia de ensaios", Companhia das Letras, 2002, pp. 226-272).


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A direita brasileira hoje em dia usa o conceito de liberdade como o de uma "liberdade negativa", uma "liberdade dos modernos": tanto maior será a liberdade quanto menor for a interferência do governo na vida dos cidadãos. Por isso, a pergunta do eleitor de direita é: "O que posso fazer sem que o governo me impeça?". É a pergunta clássica dos liberais – que querem ampliar a liberdade econômica e política dos cidadãos por meio da restrição da ação do Estado.


E a esquerda brasileira atualmente usa o conceito de liberdade como o de uma "liberdade positiva", uma "liberdade dos antigos": tanto maior será a liberdade quanto maior for a capacidade de cada cidadão participar do governo. Assim, a pergunta do eleitor de esquerda é: "Como posso participar mais da formulação das políticas que me governarão?". É a pergunta clássica dos socialistas de todos os matizes – que desejam ampliar as formas de participação política dos cidadãos por meio de conselhos, comitês e coletivos.


Ou seja: os partidários de ambas as posições – da direita e da esquerda – defendem a liberdade, mas acusam uns aos outros de defender a tirania. Eles não percebem que usam um mesmo termo de maneira diferente, num complexo semântico diferente, o que embaralha a compreensão do ouvinte do campo adversário – que, por isso, julga mentiroso e vil o discurso do outro.


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O mesmo ocorre com as próprias definições de "direita" e "esquerda". Existe um sentido preciso e objetivo para esses conceitos? Sim, mas, a rigor, ele se encerra em sua circunstância de formulação – quando, no processo da Revolução Francesa, os girondinos e os jacobinos sentaram-se respectivamente à direita e à esquerda no salão da Assembleia Nacional. A precisão do significado de "direita" e "esquerda" se perde em todos os outros contextos. No fundo, falar de "direita" e "esquerda" em qualquer outro período histórico que não o da Revolução Francesa é um anacronismo que somente se soluciona quando compreendemos que essas palavras não designam realidades da experiência, mas representações metonímicas em relação àquela realidade de 1789.


Isto é: no debate político contemporâneo, "direita" e "esquerda" são, na verdade, figuras de linguagem que funcionam como centros de afetos, e não conceitos objetivos. Por isso, esses termos são entendidos de modos diferentes por pessoas que se colocam em uma posição ou em outra.


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Isso pode ser ilustrado muito facilmente.


Quando um militante político afirma ser de direita, quase sempre quer dizer, no nosso contexto eleitoral, que é a favor do livre mercado, da liberdade de expressão, da total igualdade de todos diante da Constituição e de seleções competitivas para posições administradas pelo Estado, sem cotas ou benefícios a minorias – em outras palavras: a favor do liberalismo econômico e político. Frequentemente é favorável ao conservadorismo moral, principalmente em relação a pautas como o aborto, o casamento homoafetivo e os direitos dos presidiários.


Mas ele é compreendido pelo militante de esquerda, em nosso contexto, como se fosse contrário aos direitos dos trabalhadores, das pessoas homoafetivas, dos direitos das mulheres; e a favor do grande capital não-produtivo, da desigualdade social, do Estado policial e da opressão e da tortura dos marginalizados. Em suma: como se defendesse uma espécie de tirania de direita.


Obviamente não é possível, para alguém de esquerda, aceitar o diálogo honesto com quem ele crê defender ideais tão perversos.


Já quando um militante político afirma ser de esquerda, quase sempre quer dizer, aqui no Brasil, que é favorável à justiça social por meio dos programas de redistribuição de renda (direta ou indireta), dos direitos dos trabalhadores, do sistema de seguridade social, da educação e da saúde estatais e de qualidade, da criação de conselhos e de comitês públicos de gestão – o que significa: a favor da social-democracia do ponto de vista político e econômico. Do do ponto de vista moral, é contrário à interferência da religião em assuntos públicos e é favorável à liberdade de direitos de opção sexual, de constituição familiar e da liberdade do uso de drogas por adultos saudáveis. É, ao fim, um libertário em relação aos costumes.


Porém, ele é compreendido pelo militante de direita brasileiro como se fosse defensor dos regimes ditatoriais que se dizem socialistas, desde o stalinismo até o bolivarianismo de Chávez e Maduro; apoiador de políticas econômicas irresponsáveis; defensor do Estado máximo, da perseguição às igrejas, do assassinato de bebês, da pedofilia, do tráfico de drogas, da valorização do criminoso em relação à vitima; é como se defendesse uma espécie de tirania de esquerda.

É claro que um direitista não aceitará conversar, de modo franco e leal, com quem ele crê defender posições tão tenebrosas.


As palavras "direita" e "esquerda" têm significados diferentes para um e para o outro: elas dependem sobretudo da posição em que são ditas e ouvidas. Quase todos os termos presentes nos discursos políticos são assim: servem mais para indicar a posição ideológica do autor do discurso do que para denotar uma realidade da experiência intersubjetiva.


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Como sair desse impasse em que ambos muito provavelmente consideram monstruosas as posições políticas do interlocutor?


Em primeiro lugar: podemos buscar o diálogo se tivermos boa vontade. É preciso ouvir o nosso adversário e perceber que ele também deseja o melhor para toda a nossa sociedade. Como Habermas diria, é necessário agir de modo comunicativo, não de modo estratégico: antes de buscar vencer, devemos buscar compreender. Eventualmente, perceberemos que existem aqueles com posições extremas e aberrantes – mas serão posições de uma minoria, ainda que essa minoria grite.


Em segundo lugar: somente será possível realizar esse diálogo – mais do que nunca necessário – se abandonarmos chavões, slogans, frases de efeito, lacrações. Esses gatilhos envenenam a nossa inteligência e o nosso juízo. Afinal, a razão política é discursiva: para agirmos racionalmente precisamos nos inserir na ordem do discurso – e não na repetição irracional das palavras de ordem que interrompe o pensamento e elimina a possibilidade do diálogo.





* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Filosofia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Professor da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR).

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