top of page

EDUCAÇÃO E RESISTÊNCIA: O PAPEL DO PENSAMENTO CRÍTICO NA ESFERA PÚBLICA

há 12 horas
4 min de leitura

Por Manoel Xavier Pires Neto*


A consolidação de projetos de democratização autêntica exige a superação da consciência ingênua e a afirmação do ser humano enquanto sujeito histórico, contexto no qual a reflexão teórica desenvolvida por Freire (1967) caracteriza a atitude radical como uma opção enraizada no rigor crítico, na humildade e no engajamento comunicativo, opondo-a à sectarização, que reage de forma emocional, arrogante e anticomunicativa diante das mudanças sociais. Enquanto o enraizamento crítico estimula a dúvida metodológica e a abertura para a transformação contínua da realidade ao lado dos iguais, a atitude sectária converte posições conjunturais em verdades fixas e refratárias ao debate. A fixação dogmática atua como terreno propício para o florescimento de estratégias contemporâneas de manipulação e controle da opinião pública.


Na esfera pública contemporânea, a difusão de mitos políticos e de estratégias de publicidade ideológica agrava o esvaziamento da deliberação racional, dado que dispositivos de informação e mídias de massa convertem o debate cívico em espetáculo e filtragem algorítmica, ambiente em que a ideologia técnica analisada por Wolton (1997), a hibridação cultural estudada por Canclini (1997) e as mediações comunicacionais de Martín-Barbero (1991) explicam a exploração de elementos emocionais para produzir alinhamentos sectários. A circulação de mensagens simplificadas e a formação de bolhas virtuais bloqueiam o exercício da escuta mútua, substituindo a argumentação fundamentada pelo consumo passivo de slogans e pela desqualificação da alteridade. A erosão do espaço público enfraquece a práxis democrática e obstaculiza a emergência de sujeitos capazes de intervir criticamente em seu meio social.


Tais mecanismos de dominação ideológica operam com maior eficácia quando a população carece de repertório crítico para interpretar as contradições do ambiente social (Freire, 1967). A precariedade do letramento crítico diante de mensagens apelativas facilita a disseminação de pânicos morais e soluções autoritárias que prometem estabilidade imediata. Instabilidades conjunturais passam a ser explicadas por narrativas conspiratórias de caráter simplista, o que rebaixa a complexidade dos problemas comunitários a conflitos maniqueístas e, por conseguinte, compromete a pactuação democrática ao reforçar a dependência em relação a lideranças de cariz populista-autoritário.


Somam-se a esse quadro as estruturas históricas de dominação da região, que alimentam a reativação de preconceitos e naturalizam a exclusão dos grupos subalternos no debate cívico, visto que as hierarquias de raça e gênero herdadas do padrão colonial reaparecem na publicidade ideológica para interditar a afirmação do sujeito histórico e conter as demandas por mudança (Segato, 1997). A exploração afetiva do medo da liberdade estimula condutas reacionárias que impedem a pactuação de consensos comunitários e a convivência plural. O enraizamento dessas barreiras simbólicas desafia diretamente a escola pública, exigindo o desmonte de visões autoritárias que concebem a educação como adestramento técnico.


No âmbito institucional, o avanço de tendências tecnocráticas na gestão das políticas públicas reforça a tutela burocrática dos agentes escolares ao subordinar a prática pedagógica a metas predominantemente gerenciais. A imposição burocrática de currículos padronizados reduz a margem de autonomia dos professores e desestimula a reflexão conjunta sobre os problemas do território. Espaços de deliberação coletiva, tais como conselhos escolares e grêmios estudantis, sofrem processos de esvaziamento funcional ou cooptação pelas instâncias centrais. A burocratização do ensino enfraquece a gestão democrática e transforma a comunidade escolar em mera executora de diretrizes traçadas por peritos externos.


Diante da recorrente pressão para restringir a formação escolar à capacitação técnica e à suposta neutralidade curricular na América Latina, a escola democratizadora contrapõe-se à pedagogia bancária ao organizar o processo de ensino-aprendizagem a partir da problematização da realidade e da investigação de temas geradores vinculados à vida dos educandos (Freire, 1967). A superação do verbalismo e da transmissão mecânica de conteúdos requer uma gestão curricular participativa que cultive a curiosidade epistemológica desde a educação básica. A reorientação pedagógica restitui ao ambiente escolar a condição de espaço público voltado ao exercício da crítica e à construção da autonomia.


Para que alcancem efetividade concreta, as diretrizes educacionais emancipatórias precisam valorizar as matrizes culturais locais e os saberes construídos pela própria comunidade. Segundo Freire (1967), a integração entre o conhecimento formal e a memória coletiva fortalece a identidade dos estudantes, permitindo que a escola se converta em polo de resistência contra a homogeneização mercantil. Experiências pedagógicas ancoradas no território estimulam a cooperação solidária e a resolução participativa dos desafios cotidianos da população. O enraizamento comunitário do projeto político-pedagógico consolida a escola como espaço privilegiado para o exercício contínuo da cidadania ativa.


Conclui-se que a construção de propostas pedagógicas orientadas pela práxis libertadora constitui a resposta estrutural às dinâmicas de sectarização e alienação ideológica. A formação do ser humano enquanto sujeito histórico pressupõe a articulação contínua entre a leitura do mundo e a transformação consciente das condicionantes materiais de existência; por isso, a integração entre ação e reflexão fortalece o enraizamento crítico indispensável para resistir à hegemonia da comunicação massificada e à polarização reacionária, preservando a liberdade e o diálogo pedagógico como pilares ético-políticos para a edificação de sociedades soberanas na América Latina.

 


Referências:

 

CANCLINI, Néstor García. Culturas Híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: EDUSP, 1997.


FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1967.

 

MARTÍN-BARBERO, J. De los medios a las mediaciones: comunicación, cultura y hegemonía. 2.ed. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 1991.

 

SEGATO, Rita. La crítica de la colonialidad en ocho ensayos: Y una antropología por demanda. Ciudad Antónoma de Buenos Aires, Prometeo Libros, 2015.


WOLTON, Dominique. Pensar a Comunicação. Anges (Portugal), Difusão Editorial, AS, 1997.





* Bacharel em Direito. Especialista em Direito Previdenciário, Direito Constitucional e Direitos Humanos. Mestrando pelo PPGOA da UFPB. Advogado. Docente.

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

© 2018, Instituto Parajás (@institutoparajas)

 

Revista Parajás (@revistaparajas) - ISSN: 2595-5985

Revista Colirium (@revistacolirium) - ISSN: 3085-6655

Revista Antígona (@antigonarevista) - ISSN:​

  • YouTube - círculo cinza
  • Facebook - círculo cinza
  • Instagram - Cinza Círculo
  • Spotify
bottom of page