TEORIA REPRESONTOLÓGICA DO ERRO
- Ricardo Cortez Lopes

- 3 de jan.
- 2 min de leitura
Atualizado: 17 de jan.
Por Ricardo Cortez Lopes*
O erro é comumente tratado como uma questão puramente moral: em geral, algo a ser evitado, que ocorre quando o esperado não se concretiza. Muitas vezes, ele é avaliado a partir do resultado, e não da intenção, em uma ética de viés mais consequencialista. Mas é possível explicar como o erro ocorre? Em vez de nos dedicarmos a melhorar o acerto — tarefa clássica da epistemologia —, interessa-nos aqui compreender o surgimento do erro.
Costuma-se associar o erro a um volume inadequado de atenção, e mostraremos que essa explicação é reducionista. Além disso, o erro é saudável para a representação: sem ele, não há alimentação do reservatório factual.
De modo geral, para a teoria da representação, o erro consiste na atribuição de um referente inadequado a um presente (isto é, à leitura de uma mídia). Em outras disciplinas, o erro é entendido como um desvio na construção da teoria disciplinar, identificado na revisão teórica de seus objetos por meio de conceitos previamente selecionados. A metodologia científica busca, assim, evitá-lo ou, ao menos, tornar explícito aos pares onde ele ocorreu. Por isso, o erro raramente é estudado como objeto em si.
Para a representação, contudo, o erro é saudável, pois não há crescimento sem ele. Além disso, o erro permite evidenciar o próprio processo representacional.
Há um modelo teórico de representação — o chamado modelo bingo — que se refere à seleção de uma representação prévia para enquadrar uma mídia percebida. Segundo esse modelo, ao captarmos uma mídia, associamo-la a uma representação disponível em nossa fauna representacional. Evidentemente, diferentes representações podem discordar entre si, mas essas discordâncias remetem a diferenças de ordem profunda: a representação, em certos casos, simplesmente não corresponde à mídia, e isso é percebido em algum momento — afinal, não há erro se ele não é reconhecido como tal.
A primeira aproximação entre a representação e a mídia percebida é realizada pela periferia, que indexa o núcleo associativo para consulta pelo aparelho cognitivo. Nesse primeiro contato ocorre uma marcação rápida, e é frequentemente aí que o erro se instala, pois ainda não houve tempo suficiente para que a atenção capte informações capazes de serem contrastadas com o reservatório factual.
Contudo, mesmo após investimento atencional, o erro pode persistir por desatualização. A representação utilizada pode ser, em si, adequada, mas estar imersa em um contexto ou arquitetura representacional distinta, que constrói um cenário no qual o referente deixa de fazer sentido quando associado à mídia presenciada. Nesse ponto, a representação ainda não dispõe de episódios suficientes para entrar em trânsito e continua interpretando de forma descontextualizada. Não se trata, portanto, de falta de atenção, mas de um vínculo representacional errôneo.
Outro ponto de geração do erro diz respeito a representações que ainda não possuem armazenamento amplo, seja pela juventude da mente, pelo esquecimento ou pela ausência de contato suficiente com o referente.
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* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.



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