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TEKKEN E A REPRESONTOLOGIA

Por Ricardo Cortez Lopes*


A série “Represontologia da Cultura” apresenta artefatos culturais analisados por meio da Represontologia, a ciência das representações. Apresentamos obras e situações em que a representação ultrapassa um referente. Os objetivos desta série são demonstrar aplicações dos conceitos e também sugerir possíveis temas de pesquisa (quem sabe para publicação na Revista Colirium). Hoje, falaremos sobre Mokujin, personagem da franquia Tekken.


A série Tekken, desenvolvida pela Bandai Namco Entertainment, é uma das mais influentes franquias de luta em 3D, conhecida por sua jogabilidade baseada em combos complexos, movimentação lateral — o chamado sidestep — e por uma narrativa centrada nos conflitos da família Mishima, envolvendo temas como poder, traição e rivalidade intergeracional. Dentro desse universo, Mokujin é um lutador peculiar: um boneco de madeira, de aparência simples, que não possui um estilo próprio de luta, pois imita aleatoriamente os movimentos de outros personagens a cada round. Dessa forma, funciona quase como uma “encarnação” das próprias mecânicas do jogo, exigindo do jogador adaptação constante e domínio geral do elenco.


Mokujin é, assim, um recurso utilizado para ampliar o número de personagens do jogo. Afinal, ele emprega os esqueletos — isto é, os pontos de articulação — dos demais lutadores em seu próprio modelo 3D. Shang Tsung, da franquia Mortal Kombat, por sua vez, aproveitava os sprites inteiros de outros personagens, o que também permitia economizar recursos de programação na criação de um novo lutador. Mokujin chegou a ser substituído por um robô na franquia, mas foi trazido de volta em edições posteriores.


Vamos, porém, deixar de lado esse recurso tecnológico e concentrar nossa atenção na habilidade de transformação presente apenas nas representações internas. Enquanto Shang Tsung também assume as formas corporais de outros personagens, Mokujin emula suas posturas e seus golpes, expressando as representações dos demais lutadores. Como se trata de uma criatura mágica, poderíamos indagar: ele conseguiria acessar a mente individual dos lutadores ou registrar todos os saberes das artes marciais que eles conhecem? O que você diria?


Nesse caso, Mokujin seria também uma forma de armazenamento histórico de técnicas, tornando-se um verdadeiro reservatório de representações. Cada arte marcial tematiza aquilo que se compreende como movimento corporal, constituindo um sistema de representações relacionado à luta, à disciplina e às condutas éticas.


Logo, seria possível discutir se a representação pode ser separada do indivíduo. Trata-se do princípio represontológico da autonomia, segundo o qual as representações podem adquirir existência e atuação para além dos sujeitos que as produziram — princípio que os estudos representacionais tradicionais nem sempre compartilham.





Referências:


LOPES, Ricardo Cortez. Repræsontologia: fundamentos da ciência das representações. São Paulo: UICLAP, 2024.





* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.


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