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SUPER CHOQUE E A REPRESENTAÇÃO

Por Ricardo Cortez Lopes*


A série “Represontologia da Cultura” apresenta artefatos culturais analisados por meio da represontologia, a ciência das representações. O objetivo é mostrar aplicações dos conceitos e também sugerir temas para pesquisas futuras destinadas a quem deseja trabalhar com represontologia (para quem sabe publicar na Revista Colirium). O post de hoje é sobre Super Choque, clássico do Bom Dia & Cia, exibido pelo SBT.


Na série, Virgil Hawkins participa de uma briga entre gangues em uma região portuária contaminada por uma substância química e adquire poderes ligados à manipulação da eletricidade, tornando-se o herói Super Choque — Static, em inglês. O personagem surgiu nos quadrinhos durante a década de 1990 e ganhou uma animação nos anos 2000, posteriormente exibida pelo SBT.


Nosso foco, porém, será um episódio específico: o terceiro da segunda temporada, intitulado “Ato entre irmãos”.


Dwayne é um menino em situação de vulnerabilidade social, atendido pelo pai de Virgil, que possui a capacidade de transformar aquilo que imagina em uma realidade concreta e compartilhada por todos. No início do episódio, ele provoca o surgimento de um robô gigante, enfrentado por Super Choque, e transforma a água de uma fonte em refrigerante. Seu meio-irmão aproveita-se de sua carência emocional para obter benefícios ilícitos por meio desses poderes.


O menino subverte completamente o processo representacional por diferentes vias.


A primeira delas está relacionada ao grau de nitidez. Aquilo que Dwayne representa mentalmente é expresso materialmente tal como foi pensado. Isso se comprova pelo fato de os outros personagens perceberem, registrarem, tocarem e utilizarem os objetos criados. A representação interna não produz apenas uma imagem aproximada do referente: ela própria se transforma em uma existência material.


Esse poder rompe, portanto, a oposição entre representação interna e representação externa, uma das distinções fundamentais do método represontológico. Aquilo que estava restrito ao sistema representacional de Dwayne passa diretamente a integrar a realidade compartilhada pelos demais personagens.


A segunda subversão está na inexistência de um projeto de concretização da representação. Não é necessário recolher matéria-prima, planejar a fabricação do objeto nem realizar uma ação humana de transformação para produzir uma mídia. O objeto simplesmente aparece.


Por consequência, não existe a avaliação gradual do resultado nem a experiência decorrente do processo de produção. Todas essas etapas são essenciais, por exemplo, para o trabalho de um cientista: formular uma hipótese, selecionar materiais, coletar dados, experimentar, observar os resultados e, por fim, realizar uma reflexão representativa.


No caso de Dwayne, todas essas etapas desaparecem. A representação passa diretamente do pensamento para a matéria, sem mediações.


Por último, uma representação normalmente exige tempo para ser concretizada. Mesmo quando existe um projeto claro, sua transformação em mídia depende de sucessivas ações no mundo físico. O poder de Dwayne, entretanto, é instantâneo.


Isso sugere que sua mente se relaciona diretamente com o referente, sem depender dos processos habituais de produção, comparação e correção. Dessa forma, também se enfraquece a comparabilidade entre representações distintas, pois não existe distância suficiente entre aquilo que foi imaginado, aquilo que foi produzido e o resultado final.


Em “Ato entre irmãos”, portanto, o poder de Dwayne não consiste apenas em criar objetos. Ele elimina as fronteiras entre pensamento, representação e realidade material.





Referências:


LOPES, Ricardo Cortez. Repræsontologia: fundamentos da ciência das representações. São Paulo: UICLAP, 2024.





* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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