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O QUE TEM DENTRO DE UMA REPRESENTAÇÃO?

Por Ricardo Cortez Lopes*


Se você chegou a este texto e está estranhando a ideia de alguém estudar o interior da representação, provavelmente foi introduzido ao tema por algum estudo representacional, como a Teoria das Representações Sociais, de Moscovici, ou as Representações Coletivas, de Durkheim.


A represontologia, ciência das representações, porém, pergunta diretamente, com base em dados empíricos, o que é uma representação e o que existe em seu interior.


Uma das regras do método represontológico afirma que as representações podem ser demonstradas em diferentes escalas: desde uma escala macroscópica, voltada às interações entre representações, até uma escala nanoscópica, que investiga seus componentes internos.


Todas essas escalas podem ser estudadas por meio de modelos, responsáveis por estabelecer a conexão entre os dados empíricos e a discussão da teoria representativa. Hoje apresentaremos um dos modelos relacionados à internalidade da representação, procurando teorizar sobre aquilo que existe dentro dela.


É importante ressaltar que esses elementos estão fundamentados nas pesquisas atuais. Portanto, novos componentes poderão ser descobertos, outros poderão ser descartados e diferentes reformulações ainda poderão ocorrer. Os modelos são aproximativos, não camisas de força. Por isso, não devemos tratá-los com vaidade ou como estruturas definitivas.


A representação interna é formada por diferentes partes, assim como uma célula é composta por organelas. A seguir, apresentaremos uma explicação mais detalhada de cada uma delas.


PRESENTE: O presente corresponde a toda informação proveniente de uma mídia — aquilo ou aquele que carrega uma representação — que é percebida e traduzida pela cognição humana, acionando alguma representação.


O presente será identificado com determinado referente por meio de uma representação. Ele constitui, portanto, a informação que chega ao sistema representacional e inicia o processo de leitura, associação e interpretação.


NÚCLEO ASSOCIATIVO: Recebe esse nome porque é o local em que uma representação-âncora — aquela que procura “imitar” — se associa a um referente — aquilo que se pretende imitar, reproduzir ou descrever.


Sua função é essencialmente sintética, pois a demonstração dessa associação está contida no reservatório factual. O núcleo associativo é, portanto, a conexão entre o referente e o conteúdo da representação, ligação que precisa ser constantemente corroborada.


As representações podem aproximar-se do referente de maneiras distintas, mas todas procuram chegar o mais perto possível daquilo que ele é — ou acreditam descrevê-lo perfeitamente.


RESERVATÓRIO FACTUAL OU EPISÓDICO: O reservatório factual ou episódico é a região que desempenha três funções principais:

  • realizar o segundo contato com o presente;

  • criar as regras que explicam por que o núcleo associativo é considerado verdadeiro;

  • manter o núcleo coeso por meio da corroboração.


Essa região formula um conjunto de normas a partir de lembranças, acontecimentos, informações e até de outras representações que, reunidas, procuram demonstrar a validade da associação expressa no núcleo.


O reservatório factual constitui, assim, o conjunto a partir do qual são produzidos os argumentos que sustentam o núcleo associativo.


É importante lembrar que os indivíduos possuem diferentes níveis de domínio da lógica. Consequentemente, também apresentam diferentes capacidades de acesso, organização e avaliação das evidências e dos argumentos armazenados.


REGIÃO DO BODE EXPIATÓRIO: Essa região apresenta um funcionamento semelhante ao da construção psicológica conhecida como “bode expiatório”, embora opere segundo uma lógica mais diretamente relacionada à informação.


Ela possui duas funções principais:

  • função leitora;

  • função reservatória.


Quando um presente não corrobora o núcleo associativo, ele pode ameaçar aquela associação ou ser descartado pela região do bode expiatório. Nesse segundo caso, a informação contraditória é considerada apenas uma exceção às regras estabelecidas pelo reservatório factual.


Em vez de alterar a representação, o sistema isola o fato discordante e preserva a estabilidade do núcleo.


ARMAZENAMENTO DE REPRESENTAÇÕES INATIVAS: Como já vimos, o núcleo associativo sintetiza a representação vinculada às descrições e às regras presentes no reservatório factual.


Existe, porém, um espaço destinado ao registro de representações que se conectam negativamente com esse reservatório. Elas não produzem efeito simbólico naquele momento porque não são consideradas verdadeiras pelo indivíduo.


São representações relacionadas ao mesmo referente, mas que não possuem um reservatório factual capaz de corroborá-las. Funcionam, assim, como uma espécie de arquivo morto.


Provavelmente, esse armazenamento está ligado diretamente ao núcleo associativo. Quando o núcleo se rompe, as representações inativas podem ser liberadas e retornar à periferia, tornando-se novamente disponíveis para avaliação.


PERIFERIA: À primeira vista, a periferia parece ser um espaço vazio, semelhante a um interstício. Na prática, porém, ela desempenha duas funções essenciais:

  • estabelecer o primeiro contato com o presente, quando o núcleo associativo está estável;

  • servir como espaço de trânsito, quando o núcleo está instável.


Em situações de estabilidade, a periferia permanece relativamente vazia, mas funciona como um indexador primário. É por meio dela que o processo cognitivo começa a procurar representações capazes de interpretar o presente.


Quando o núcleo associativo é contrariado continuamente, ele pode romper-se — processo que chamamos de trânsito. Nesse momento, o invólucro das representações inativas também pode se romper, liberando-as para a periferia.


O indivíduo fica, então, temporariamente sem uma representação-âncora. Diferentes representações passam a circular e disputar a associação com o referente até que um novo núcleo se estabilize.


O interior de uma representação não é, portanto, um espaço homogêneo. Ele é composto por regiões que recebem informações, associam conteúdos a referentes, armazenam fatos, preservam a coerência do núcleo, isolam contradições e mantêm disponíveis representações que, embora inativas, podem voltar a circular.





Referências:


LOPES, Ricardo Cortez. Repræsontologia: fundamentos da ciência das representações. São Paulo: UICLAP, 2024.





* Escritor e Pesquisador. Doutor, Mestre e Graduado em Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

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