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SE DEUS É BRANCO, O DIABO PRECISA SER NEGRO? A DEMONIZAÇÃO DA ANCESTRALIDADE

Por Williem da Silva Barreto Júnior*


O negro, cujo acervo histórico, cultural, político e religioso, embora reconhecidamente relevante, esteve e ainda está atrelado a um passado sombrio, no qual a regra foi a violação de direitos.


Para além de pensar a questão do racismo sob um prisma decolonial, é fundamental compreendermos que a sociedade brasileira se afirmou a partir da exploração massiva de milhões de escravizados, que, trazidos à força do seu continente, foram seviciados de todos os modos e coagidos a assimilar aspectos culturais e religiosos incompatíveis com os seus.


Mesmo com a queda de popularidade das teorias raciais, cujo ápice se deu no século XIX, nem intelectuais da grandeza de Florestan Fernandes e Lília Schwarcz conseguiram identificar uma regressão significativa na prática do racismo que ainda fere e mata tantos cidadãos brasileiros, pelo simples fato de terem nascido negros.


A perspectiva dominante de que o belo, o digno de aplausos e de aceitação social, deve proceder do Norte Global, não aparenta ter retrocedido. Em sentido contrário, o devastador processo militar e político de colonização, ao ser providencialmente substituído pelo colonialismo econômico-financeiro, tem reforçado ainda mais as premissas de um epistemicídio que vem assolando o Brasil e outros países há séculos.


Aqui, cabe-nos então refletir: será que as pessoas, ao segregarem, discriminarem ou mesmo atacarem violentamente integrantes das religiões de matriz africana, assim agem apenas por não simpatizarem com a umbanda ou o candomblé?


A resposta nos parece negativa. Historicamente, o modo de vida negro sofreu, e ainda sofre, um sistemático processo de depreciação, a começar pelo próprio fato de alguém nascer negro. Se o simples fato de um indivíduo ser negro já o coloca em condição de inferioridade social (de forma naturalizada), o que dizer, então, das práticas religiosas de origem africana?


Entendemos que o problema, para a sociedade racista brasileira, está na própria existência do negro. Logo, se no mundo ideal os negros não deveriam sequer existir, por que respeitar as suas ancestrais e incômodas práticas religiosas?


A colonização portuguesa introjetou na sociedade brasileira uma visão de mundo cristã, inicialmente católica e agora também protestante, que, embora apregoe, em teoria, a prática da tolerância, não considera plausível a hipótese de perda do seu protagonismo social, de dimensões seculares.


Assim, qualquer mínimo destaque conferido às religiões de matriz africana, levando-se em conta a tradicional repulsa sentida pelo negro, deve ser rechaçado, de forma que a tolerância se converta automaticamente em intolerância. Mas se trata de uma intolerância qualificada, cujo fundo racista implica a própria ideia de extermínio.


Não é demais ressaltar que nos embates ideológicos entre correntes religiosas cristãs, os ataques têm fundo propriamente religioso ou político, com alusões, por exemplo, à prática de idolatria pelos católicos e à promoção do mercado da fé por parte de alguns segmentos neopentecostais. Minoritárias são as notícias que dão conta de hostilidade gratuita, invasão de templos com o intuito de vandalismo ou mesmo de agressões físicas contra os praticantes de religiões que replicam o ideário eurocêntrico, impregnado na sociedade brasileira por obra do processo colonizador.


Por outro lado, são muito frequentes os abusos cometidos por adeptos dos mais variados credos contra adeptos das religiões de matriz africana. E quando falamos em abusos, estamos nos referindo a um ódio que parece estar permanentemente oculto até se revelar mediante o emprego das mais ofensivas palavras, chegando-se ao ponto da prática de agressões físicas, incêndios criminosos, depredação e até mesmo de homicídios.


Tais atos de extremismo não constituem mera recusa à crença do outro, mas uma necessidade de apagamento da existência dos cultos de origem africana, e, por conseguinte, das pessoas que os praticam, como se estas não fossem humanas, como se não merecessem fazer parte da “grande civilização” instituída a partir da “descoberta do Novo Mundo”.


Numa sociedade de origem cristã, forjada sob os auspícios do Estado Liberal de diretrizes formais, é inadmissível que deuses negros possam ameaçar o monopólio da fé tradicionalmente exercido pelas igrejas.


O fato de as divindades de origem africana estarem comumente associadas à figura de satanás, remonta ao processo de formação histórica da sociedade brasileira. Uma vez que nos foram impostas premissas eurocêntricas, intrinsecamente ligadas ao cristianismo, as religiões de origem negra sempre foram marginalizadas.


Assim, considerada a dicotomia entre cristo e satanás, optou-se por atrelar as práticas religiosas típicas dos negros a cultos de feitiçaria, cuja finalidade seria invocar seres das profundezas do inferno, em oposição direta ao único deus passível de adoração. Tal processo de demonização é reflexo direto do racismo estrutural que permeia a sociedade brasileira, não se restringindo ao âmbito religioso.


Quando se grita “sai, satanás”, “fora, feiticeiros”, “a igreja vai vencer”, estamos a observar um fenômeno representativo da repulsa à herança africana, cujo entranhamento na cultura brasileira, embora inegável, revela-se, paradoxalmente, inaceitável. Tais manifestações não constituem, portanto, mera intolerância, pois o alvo religião é reflexo, na medida em que o ódio atinge todo o legado político, cultural, jurídico, social e religioso dos negros.


Alie-se a isso o fato de o movimento neopentecostal, hoje muito fortalecido na sociedade brasileira, encampar uma espécie de “guerra santa” contra as religiões que os seus fiéis julgam pertencer ao diabo. Nesse cenário, além da repulsa silenciosa, vivenciada diuturnamente pelos adeptos das religiões de matriz africana, está em curso uma verdadeira cruzada protagonizada por correntes extremistas de índole protestante, cujo discurso é de aberta demonização do legado religioso negro.


O racismo, presente na formação histórica da sociedade brasileira, contribuiu/tem contribuído para o processo de marginalização das religiões de matriz africana, porque desenvolveu-se, em razão da herança escravista associada aos negros, uma aversão social às suas práticas religiosas.


Desse modo, a expressão intolerância religiosa não é adequada para qualificar condutas ofensivas e/ou violentas, praticadas em face de adeptos das religiões afro-brasileiras, seus objetos de culto e templos, pois os movimentos discriminatórios alcançam o modo de vida negro, no qual as práticas religiosas se inserem. Trata-se, portanto, de RACISMO RELIGIOSO!





* Escritor, Advogado, Professor e Pesquisador. Doutor (UNILASALLE/RS), Mestre (UNIFG/BA) e Graduado (UESB/BA) em Direito. Professor da Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR).

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